Os Fiéis Fúria das Águas · Capítulo 27 de 51
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Os Fiéis

Luke tinha razão. Minha demonstração de poder atraiu mais soldados. Matei outra patrulha, caí numa emboscada e morri junto das crianças.

Despertei diante de Carlos, Clara e Eric.

— Trinta segundos — disse Carlos. — Luke deve ter deixado alguma informação. Escrevi uma carta para você.

Ele distribuiu comprimidos aos filhos e tomou os próprios. Nós nos abraçamos.

Clara olhou para mim como se tentasse decorar meu rosto. Eric não soltou minha mão até começar a ficar translúcido. Quando desapareceram, compreendi que minha morte não havia trazido apenas outra oportunidade. Também os arrancara do lugar onde estavam e os obrigara a recomeçar comigo.

— Sra. Emma, estamos muito perto de sermos atacados — avisou uma criança que mal sabia falar direito. — Tente ler a carta o mais rápido que puder, por favor.

O local era mal iluminado, mas em cima da mesa havia uma espécie de lanterna bem pequena e fraca. Aproximei a lanterna do pedaço de papel e comecei a ler:

Querida Emma. Tinha certeza de que um dia viria por nós, mas não imaginava esse ímpeto de salvar a todos. Não sei o que aconteceu contigo; para querer enfrentar o Demente, você deve ter muito poder. Ainda assim, tenha cautela. Ele se arrisca muito pouco. Um ataque direto o colocará em alerta e fará com que se proteja ainda mais. Ficaremos confiantes no seu sucesso e tranquilos por saber que você sempre poderá retornar para nós. De quem será eternamente seu, Carlos.

Pensei em escrever uma carta de volta. Havia papel, uma espécie de instrumento para escrever e tinta. Mas o local onde estávamos passou a ser atacado. Vendo o desespero e o medo no olhar de todas aquelas crianças, nem levei em consideração o aviso da carta: explodi a estrutura que nos protegia de dentro para fora, usando as colunas de uma das paredes como proteção para os pequenos.

Soldados disparavam de todos os lados. Criei um escudo de gelo espesso contra os raios e subi até o homem que observava tudo do céu.

Tentei congelá-lo e controlar seu sangue. Ele reverteu as duas técnicas.

— Meu poder também nasceu da água — disse. — Você mostrou o que sabe fazer antes de chegar até mim.

As algas o pegaram de surpresa e destruíram seu corpo. A vitória durou pouco. Soldados surgiram em quantidade maior, me cercaram e me mataram.

— Você não considerou uma linha do que escrevi — disse Carlos quando reapareci.

— Não quis perder a oportunidade.

— Foi exatamente o que imaginei. Desta vez, tente não morrer tão depressa.

Ele e as crianças partiram novamente. Fiquei sozinha num deserto, consciente de que minha pressa também os havia enviado para lá.

Ao longe, encontrei uma cidade e uma torre metálica. No alto, uma plataforma magnética atraía os braceletes presos aos corpos que caíam do céu.

O planeta parecia ter amanhecido sob uma luz fraca. A princípio, achei belo o contorno da cidade contra o deserto. Depois vi os corpos descendo. Não era uma chuva, embora a distância produzisse essa impressão. Eram meninos e meninas inconscientes, puxados para o alto da torre assim que chegavam àquele mundo.

— Corte meu braço — pediu um garoto.

Ele sabia que poderia morrer, mas preferia tentar. Criei uma lâmina de gelo, fiz o corte e contive o sangramento. O garoto, Pimbet, avisou que os fiéis se aproximavam.

Outras crianças despertaram e fizeram o mesmo pedido. Eu não conseguia repetir o corte em todas, e Pimbet insistiu que não havia tempo. Levei-o para o alto. De lá, vimos figuras mascaradas ocuparem a plataforma e conferirem os painéis.

— Quem são eles? — perguntei.

— São os garotos órfãos, normalmente os mais velhos, doutrinados pelo deus Seth para cuidarem da morte de nós, crianças, filhos dos soldados, quando nossos pais chegam mortos de outros mundos. Assim, Seth continua chantageando os soldados. Não importa o que eles façam, nunca ficarão com os filhos. E, quando algum pai se nega a cumprir as ordens, os filhos são torturados.

O menino contava e uma enorme revolta me subia.

— Os fiéis sofreram uma espécie de lavagem cerebral. Acreditam que foram escolhidos por Deus. São equipes que, quando não estão cuidando de reféns, têm tudo de bom e do melhor que esse mundo pode oferecer.

Eu não conseguia imaginar como libertar aquelas crianças se outras crianças as vigiavam.

— Eu tenho um plano. Eles já devem ter percebido minha fuga. Você pode me usar como isca. Enquanto eu chamo a atenção dos fiéis, você corta o braço das outras crianças.

Eu não iria conseguir fazer isso. A dor que me causou ao fazer uma vez já tinha sido suficiente. Deveria haver alguma outra forma. Fiquei pensativa.

— Como eles matam vocês? — perguntei.

— Existe um botão, num painel, referente a cada criança. Eles apenas apertam o botão e nós praticamente somos desligados. É uma espécie de choque elétrico de alta voltagem — ele respondeu.

— E eles não carregam nenhuma arma?

— Não. — Como os pais não atacaram os fiéis por medo dos filhos serem torturados, não havia necessidade de as crianças estarem armadas.

Decidi que deveria conversar com os fiéis e fui descendo até eles.

— O que você está fazendo? — o garoto perguntou.

Desci com o garoto até onde a maioria dos fiéis estava reunida, procurando pelo fugitivo.

— Olá! Eu sou a deusa Rá!

Fiz um grande esforço para lembrar uma referência mitológica ligada a Seth e arrisquei.

— O deus Seth está corrompendo vocês e eu vim trazer a verdade!

A primeira parte do plano tinha dado certo: eu tinha a atenção deles. O resto ainda estava confuso na minha cabeça. Esperava que meu improviso fosse bom.

— Ele tem usado a energia das crianças para se manter mais forte, mas em breve, quando estiver muito poderoso, irá aprisionar seus leais fiéis, também. Eu estava presa, mas consegui me libertar e vim trazer a salvação.

— E que salvação é essa? — um deles questionou.

— Primeiro temos que deixar os pais se reunirem aos filhos, aqui. Os prisioneiros precisam ser libertados.

Não sabia se era um bom argumento para convencê-los.

— E nós? — outro questionou.

— Só a morte... — Pimbet sussurrou atrás de mim.

— Eu pessoalmente os levarei para o Aaru, o paraíso, sem sequer passarem pelo julgamento do deus Osíris. — Nessa hora agradeci pelo conhecimento de mitologia egípcia. Um dos fiéis começou a chorar.

— Ela realmente está falando verdade... — disse ele. — De onde eu vim, as escrituras diziam exatamente isso, o nome de todos os deuses, o julgamento. Tudo isso era explicado assim! — Senti-me chateada pela comoção que isso causou a ele, mas ajudou muito a convencer o grupo.

— Nos dê uma prova, então! — disse o mais cético.

Não conseguia pensar em alguma coisa, qualquer que fosse. Olhei para o céu e vi como o Sol de lá era distante e pequeno e iluminava pouco. A luz fraca que eu tomara pelo começo do dia era, na verdade, a iluminação normal daquele mundo. Voei para o alto e comecei a criar uma camada fina de água, enorme e circular, que funcionava como uma lupa gigante, diante do Sol. Quem olhasse daquela região para o céu tinha a nítida impressão de que um novo Sol havia sido criado.

— Misericórdia! — gritou, ao longe, o garoto que conhecia a mitologia.

Quando retornei diante deles, já completamente convencidos, fiz o filete de água evaporar e o céu voltou ao normal.

— O que devemos fazer, então? Apenas deixar os soldados irem embora com seus filhos? — perguntou aquele que não tinha acreditado antes.

— Isso mesmo! E preciso que algum de vocês nos leve para a área onde o restante dos fiéis fica! — respondi.

— Se eu soubesse, não tinha pedido para você cortar meu braço — disse o garoto que eu libertei.

— Mas se fosse assim, você não teria conseguido me ajudar — tentei consolá-lo.

Pimbet olhou para o braço que faltava. Eu já não tinha o que dizer. Um dos fiéis veio nos mostrar o caminho, ainda me chamando de deusa. Segui-o sem corrigir o nome que acabara de inventar.

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