Retorno a Paradise
Atravessei primeiro e saí diante do Castelo de Água. Voltei pelo mesmo portal antes de chamar as outras. Somente depois de confirmar o destino, mantive a passagem aberta para o grupo.
As gigantes hesitaram. O palácio de Adwig havia criado ambientes adaptados aos corpos delas de uma forma que nunca tinham encontrado em outro lugar.
— Se quiserem voltar, não considerarei abandono — falei.
Creteas respondeu que ajudariam na defesa e, depois, tentariam construir algo semelhante em Paradise. Não queriam trocar uma casa escolhida por uma casa que as convencesse a ficar.
Carl atravessou por último.
No salão principal, Carlos e Natane nos esperavam. Clara e Eric estavam treinando com outras pessoas do lado de fora.
Raquel parou.
Um rapaz entrou carregando uma criança pequena. Ela reconheceu Anúbis antes que ele dissesse qualquer coisa.
— Mãe?
Raquel o abraçou com cuidado para não apertar o bebê entre os dois. Chorou até perder a voz.
Anúbis contou que passara anos com Seth na experiência compartilhada. Aproximaram-se sem que ele esquecesse as mortes e manipulações causadas pelo pai. Quando a ligação terminou, surgiram em lugares diferentes.
— Não sei onde ele está agora — disse. — E ainda não sei o que quero sentir se o encontrar.
Leiva olhava para a criança nos braços dele.
Anúbis havia encontrado o bebê entre recém-chegados ligados aos planetas das crianças. O nome registrado na roupa era Ben. Ao ouvir sobre as Rainhas da Água e sobre Leiva, decidiu levá-lo até o castelo.
Leiva não conseguiu se aproximar de imediato.
— Ele viveu anos ou continua com a mesma idade?
— Para ele, quase nenhum tempo passou — respondeu Anúbis.
Ela estendeu os braços. Ben despertou durante a troca e chorou. Leiva o segurou contra o peito, repetindo o nome da esposa que não estava ali.
O reencontro não devolvia a outra mãe nem apagava a distância. Devolvia a Leiva uma pessoa que temera nunca mais tocar.
Um estrondo interrompeu a conversa. Uma gigante atravessou a parede de água do castelo, arremessada para dentro, e caiu sobre a mesa da sala. A madeira cedeu sob seu corpo. Leiva se afastou com Ben nos braços.
A gigante se levantou, pediu desculpas e saiu, quase do mesmo modo que tinha chegado, voando em velocidade.
Raquel e eu ficamos paradas diante dos destroços. Natane nem pareceu surpresa.
— O que foi isso? — perguntei, abismada.
— As meninas têm pegado mais pesado com o treinamento — Natane respondeu. Ela foi pelo buraco que se abriu e gritou:
— Quem foi a responsável por isso daqui?
Saímos correndo para lá. Eu não queria perder isso por nada.
Uma pequenina garota, franzina, levantou a mão.
— Você jogou Torneda daquela forma? — Natane perguntou.
Ela timidamente fez que sim com a cabeça.
— Não só isso, Capitã! Na volta ela a nocauteou.
Era muita coisa para absorver. Natane era capitã de treinamento, e a gigante Torneda tinha acabado de ser nocauteada por uma pequena menina. Ela vestia a roupa das guerreiras, num tamanho que parecia um pouco grande demais.
— Como é seu nome, pequena? — a Capitã Natane perguntou para ela.
— Saki! — ela respondeu, quase sem conseguir falar.
— Saki, você não era daqui, não é?
— Não, Capitã!
— De onde você veio?
— Da Cidade Maia, o principado dos Anjos. Que eles não escutem que os chamei assim... Eu fugi de lá, era prisioneira, mas eles não ligavam muito para mim, pois me achavam incapaz de fazer qualquer serviço. Foi minha sorte. Acho que nem deram falta de mim, com essa nova superpopulação, escravos não faltam para eles — ela explicou e isso já dizia um pouco sobre sua atitude.
— Principado dos Anjos? — fiquei curiosa pela referência.
— O que foi, Emma? Quer testá-la? — perguntou Natane.
Não sei se ela me entendeu errado ou se tentou me colocar numa cilada.
— Não, Natane, imagina — respondi, sem graça.
— É a Rainha?
— Ela voltou?
As perguntas se acumularam e depois que a primeira se ajoelhou, as outras fizeram o mesmo. Com isso, não tive outra alternativa que não fosse me aproximar.
— Podem se levantar, meninas, não tem necessidade disso — pedi, me inclinando e gesticulando com as mãos.
Parecia que eu estava fazendo uma dança estranha.
— Você acha que ela não seria um desafio, a venceria muito fácil? — Natane provocou.
— Não, de forma alguma, seria sim um grande desafio.
Percebi que a pergunta dela me colocava numa situação chata, independentemente da minha resposta.
— Majestade, permita-me saber se melhorei meu nível. Gostaria muito de estar preparada para lutar contra algum anjo, se necessário. — A voz dela era muito doce e, para mim, era quase como se uma criança estivesse me pedindo um doce.
— Tudo bem, vocês têm alguma regra? — perguntei, me alongando, como se fosse fazer alguma aula de ginástica, coisa que nunca fiz antes de uma batalha.
— A única regra que eu coloquei foi para não destruírem o castelo. Mas como percebeu, não funcionou muito bem, elas parecem que miram ali — Natane respondeu.
Não me coloquei em posição de guarda, apesar de Saki ter começado a avançar pronta para atacar, como se estivesse num ringue.
Se eu ia fazer aquilo mesmo, precisava descobrir o que ela usava, qual elemento principal ela dominava. Não tinha como eu pensar em atacar primeiro.
Quando pisquei o olho, já tinha sido atingida por um soco no queixo que me fez voar até conseguir frear no ar. Não houve tempo nem de terminar de sentir a dor: levei outro no estômago e, em seguida, murros, um atrás do outro. Eu estava tomando uma surra. Até que criei uma película de gelo na pele. No soco seguinte, a mão de Saki ficou colada ao meu rosto, e o gelo avançou até congelar todo o braço dela.
Girei por trás e puxei seu corpo, quebrando seu braço. Ela gritou de dor e coloquei a mão em sua boca, fazendo a água entrar também pelas narinas. Bloquear as vias aéreas seria ineficaz contra alguém que não dependia da respiração para sobreviver. Usei a água para impedir o coração de bater. Ela desmaiou e retirei toda a água que tinha inserido nela.
Descongelei seu braço, coloquei o osso no lugar e curei seu ferimento.
Todos ficaram boquiabertos.
Coloquei-a deitada no chão, passei a mão em sua cabeça e a despertei.
Ela acordou muito assustada.
— O que aconteceu? Eu morri? — ela perguntou.
— Não. Já retirei a água e curei seus ferimentos. Desculpe ter pegado tão pesado.
Saki dobrou o braço, ainda assustada, e passou os dedos pela boca. Atrás de mim, ninguém retomava o treino.
— Realmente ainda sou um lixo. — Ela sentou de cabeça baixa, decepcionada consigo mesma.
— De maneira nenhuma. Você me acertou antes que eu conseguisse acompanhar seus movimentos. Nunca vi ninguém tão boa no combate corpo a corpo. Eu sei que existem dispositivos que anulam o poder mesmo de seres aparentemente invencíveis. Num cenário como esse, você com certeza pode ser fundamental. Faz muito bem em continuar se desenvolvendo, se for isso mesmo que deseja.
Eu sabia que a morte poderia estar se aproximando para todos. Achava melhor não lutar e aproveitar os últimos momentos com quem amava; mesmo assim, lá estava eu, pronta para continuar lutando. Não sabia até onde contar o que ouvira sobre o fim dos tempos. Antes disso, ainda teríamos de enfrentar os anjos.
— E você estava dando uma surra na Rainha, e poxa, ela tem que ter algum crédito em ser a Rainha Prometida que nos salvou do Inferno, não é? — Natane tentou animá-la e acho que isso ajudou. — Por hoje chega de combate. Aproveitem e treinem manipulação arrumando o estrago que fizeram.
Natane me entregou um pedaço da mesa quebrada quando passamos pela entrada. Comecei a reunir as partes. Saki permaneceu sentada com duas guerreiras; só depois se levantou para ajudar.
— Capitã, então? — perguntei a Natane, enquanto juntávamos os pedaços da mesa. Anúbis estava na entrada; Leiva permanecera mais atrás com Ben.
— Elas precisavam de alguma coisa para ocupar a cabeça. Estão preocupadas com o que está acontecendo e nem sabem ao certo o que é. Quando você vai contar melhor as coisas, Emma? Elas precisam saber, eu preciso saber! — Natane me colocou contra a parede.
— Eu também preciso saber... — Eu comecei uma resposta que não era completamente verdadeira, mas fui interrompida por Carlos:
— Carl Johnson? É você mesmo? Não é possível. Você é mesmo o jogador Carl Johnson? — Ele tinha reconhecido Carl de algum lugar, o que parecia muito espantoso àquela altura.
— Sim, sou eu! — Carl respondeu quase tão tímido quanto a pequena Saki.
— Você faz parte das melhores memórias que tenho com meu pai. Ele era muito seu fã e eu fui também, por tabela. Adorava futebol. Carl Johnson, quem diria. Como você morreu? Desculpe perguntar.
— Jogando futebol num jogo em minha própria homenagem. Mas eu já estava muito velho, fui de teimoso. Tive uma parada cardíaca, eu acho, na verdade.
— Como assim? Quando eu morri, você ainda era jovem.
— Eu vivi muitos anos depois disso — respondeu Carl. — A ordem em que chegamos aqui não parece acompanhar a que você lembra da Terra.
— Que coisa, não é mesmo? — Carlos se mostrou muito surpreso.
— Mãe? — Clara apareceu e saiu correndo para me abraçar, seguida de Eric.
— Meus filhos! Estava morrendo de saudade!
— Isso no seu cabelo é uma aranha gigante? — Clara se afastou com medo, no susto. Era a primeira a reparar no animalzinho.
— É sim, mas ela até que é fofinha, vai, parece de pelúcia. Ela faz parte da simbiose de Juper, a pessoa que está interligando todos que estão em missões em planetas diferentes.
— Você está em missão, então? — Carlos perguntou.
— Sim, estamos todos. Aliás, vocês parecem vestidos para isso, inclusive, também estavam treinando? — perguntei, notando que também estavam em uniformes.
— Sim, eles evoluíram muito! — Natane respondeu.
— E você vai contar para nós a missão ou vamos permanecer no escuro? — Acho que entendi a reação de Carlos. À medida que descobria os detalhes do que tinha acontecido, percebia o quanto ainda não sabia.
— Precisamos defender os povos que foram trazidos para Paradise. Alguns governantes querem expulsá-los ou matá-los, e Juper nos avisou que os combatentes de Gabriel podem impedir que uma pessoa renasça. Temos que proteger as rotas e os abrigos enquanto as outras frentes se preparam.
Saki se aproximou. Já movimentava o braço sem dificuldade, mas parou a alguns passos de mim.
— Nem todos concordam com Gabriel — avisou. — Se atacarmos qualquer pessoa que tenha asas ou simbiose de pássaro, faremos o trabalho dele.
Falou dos principados, dos escravos e das castas que conhecera na Cidade Maia. A chegada de tanta gente aumentara o medo dos governantes de perder território e autoridade. Havia moradores que recebiam os recém-chegados; outros ajudavam a persegui-los.
Natane já organizara grupos de defesa, resgate e reconstrução. Nem todos treinavam para lutar. Alguns aprendiam a abrir abrigos, transportar feridos ou reparar estruturas. Clara e Eric tinham passado por mais de um grupo.
Carl olhou para Carlos, que ainda parecia espantado por tê-lo diante de si.
— Naquele tempo, eu corria atrás de uma bola — disse. — Agora talvez precise correr com pessoas nos braços. Prefiro que me conheçam pelo que eu fizer aqui.
Chamamos os demais para ouvir as informações de Juper. Natane indicava os abrigos, Saki reconhecia os caminhos que atravessavam antigos principados e eu tentava marcar no mesmo mapa todos os lugares que precisaríamos proteger.
As perguntas continuaram chegando. Respondi ao que sabia. Quando não sabia, Carlos ou Natane anotavam, para que pudéssemos perguntar aos outros grupos.
Eu ainda não sabia se conseguiríamos proteger todos.