A Rainha Revelada
Seguimos para o Castelo da Rainha. Leiva caminhava à frente, séria, na postura de quem conduzia uma prisioneira importante. As outras guerreiras me cercavam, próximas o bastante para sustentar o disfarce. Eu mantinha as mãos visíveis e baixava a cabeça em alguns momentos, tentando parecer vencida. Namos dormia em minha pele como uma tatuagem viva. Um calor discreto no ombro me lembrava que ele continuava atento.
As paisagens modeladas por água contradiziam meu conceito de inferno a cada passo. Havia rios dobrados no ar, quedas que subiam, jardins rasteiros alimentados por filetes luminosos e rochas polidas pela correnteza. Visualmente, Neon estava muito distante do submundo que minha imaginação humana havia preparado para depois da morte. Sua beleza, porém, sempre escondia algum castigo.
Quando o Castelo surgiu no horizonte, esqueci por alguns segundos o papel de prisioneira. Torres líquidas subiam em espirais, paredes transparentes ondulavam sem se desfazer, arcos surgiam e sumiam conforme a luz atravessava a estrutura. A água permanecia erguida, formando salões e passagens. Eu já tinha morrido, respirado água, me unido a um animal ancestral e conversado com algas telepáticas. Ainda assim, um castelo de água me pareceu exagero.
Passamos por uma ponte sobre um rio largo. Ao redor dela, cachoeiras menores caíam e subiam ao mesmo tempo, criando uma névoa fria que grudava na pele. Foi ali que avistamos outro grupo de mulheres vindo em nossa direção. Eram guerreiras diferentes das de Leiva, mais rígidas nos movimentos, com armas melhor cuidadas e uma confiança que parecia ter sido alimentada pela proximidade do poder. A que vinha à frente tinha o olhar firme de quem se acostumou a ser obedecida.
— Leiva, o que faz indo em direção ao Castelo? — perguntou a líder, parando a poucos passos, enquanto suas companheiras avaliavam nosso grupo e demoravam os olhos em mim.
Leiva ergueu o queixo. Naquele instante, entendi melhor por que ela havia sobrevivido tanto tempo perto da Rainha. Sua coragem aparecia no controle da voz e na escolha precisa das palavras.
— Natane, se sua Rainha não contou a você sobre os negócios que tenho com ela, eu certamente não serei a pessoa a fazer isso — respondeu Leiva. — Aliás, se as guardiãs estão indo na direção contrária do Castelo, isso já indica que o assunto realmente não foi feito para seus ouvidos.
A provocação atingiu o grupo. Algumas mulheres apertaram as armas; outras trocaram olhares irritados. Natane ficou visivelmente incomodada. O cargo de guardiã oferecia proximidade com a Rainha e, por isso mesmo, ensinava medo. Ninguém queria parecer curioso demais diante de alguém capaz de transformar curiosidade em castigo.
— Nossa Rainha nos deu folga — disse Natane, tentando recuperar terreno. — Isso não nos impede de escoltá-las até a presença dela, por zelo e segurança.
Leiva me olhou de relance, como se perguntasse o que fazer. Tentei pensar rápido. Poderíamos enfrentá-las ali. Talvez o confronto fosse equilibrado, e minha nova condição, mesmo escondida, poderia virar o fator decisivo. Se deixássemos as guardiãs retornarem ao Castelo depois, elas poderiam se unir à Rainha e anular nossa vantagem numérica. Ao mesmo tempo, um combate naquele ponto destruiria nosso principal trunfo: o elemento surpresa. Bastaria uma delas escapar, gritar, lançar algum aviso, e chegaríamos diante da Rainha como inimigas anunciadas.
Enquanto eu pesava possibilidades com uma competência que certamente não merecia tanta responsabilidade, Natane também começava a desconfiar. Seus olhos passaram de Leiva para mim, depois para as guerreiras ao redor. Uma prisioneira tornava a história mais interessante do que deveria.
— Está me parecendo que esse assunto tem algo além de sua velha rivalidade comigo — disse Natane. — Já percebi que vocês carregam uma prisioneira, e essa história fica cada vez mais curiosa.
— Como eu já fiz você entender, Natane, nosso assunto diz respeito à Rainha — respondeu Leiva, sem alterar o tom. — Foi ela mesma quem nos convocou pessoalmente. Você tem certeza de que deseja deixar sua curiosidade sobre uma prisioneira gerar um castigo por parte da nossa querida Rainha?
Percebi que Leiva tentava manter o enfrentamento como última possibilidade, e era mesmo a escolha mais inteligente. Natane ponderou. Deu para ver o orgulho descendo seco pela garganta dela, como um remédio ruim. Por fim, decidiu transformar recuo em vitória verbal.
— Leiva, tenha sua chance — disse Natane, estreitando os olhos. — Você insistir tanto nisso me parece psicologia reversa. Quer que eu a contrarie para depois ficar bem com a Rainha. Não cairei nessa. Siga seu caminho, e nós seguiremos o nosso. Quando eu retornar, espero ver você tão aprisionada quanto essa pobre coitada. Quem sabe eu mesma tenha o prazer de aplicar algum castigo.
Leiva sorriu de canto, e o sorriso dela foi quase mais perigoso do que uma arma, porque parecia convidar Natane a duvidar da própria vitória.
— Se você acredita mesmo nisso, vá em paz — respondeu. — Se for para eu roubar seu cargo, você não poderá fazer nada a respeito.
As duas sustentaram o olhar por alguns segundos. Os grupos se afastaram devagar, cada um fingindo calma. Só quando as guardiãs desapareceram atrás da névoa das quedas d’água consegui respirar melhor.
— Essa foi por pouco — falei, sentindo o alívio chegar atrasado e fraco, quase escondido sob a certeza de que ainda estávamos entrando em coisa pior.
— Foi — respondeu Leiva, ainda olhando para o caminho por onde Natane sumira. — Mas estou pensando. A Rainha sabe algo sobre você. Pediu sua cabeça, sabia que nós iríamos levá-la, e ainda assim deu folga para as guardiãs. Existe algo que ignoramos, Emma. Precisamos tomar cuidado.
O que Leiva disse fazia sentido demais para me tranquilizar. A coragem que eu sentia com Namos em simbiose ficava muito menor com ele recolhido em minha pele. Sem aquela força atravessando meus músculos e sem o conhecimento dele disponível, atacar a Rainha começou a parecer uma ideia bem menos gloriosa. Continuei porque voltar também nos condenaria.
Leiva me olhou e pareceu ler meu rosto, talvez porque meu medo estivesse bem menos disfarçado do que a falsa condição de prisioneira.
— Você não tomou a decisão errada — disse ela, firme o bastante para tentar convencer nós duas. — Este ainda é o melhor plano.
Eu esperava que ela tivesse razão. Estávamos aos pés do Castelo. As paredes ondulavam diante de nós, translúcidas e espessas, devolvendo apenas silhuetas compridas no lugar dos nossos rostos. Não havia portões, dobradiças, maçanetas ou qualquer sinal de entrada criado para alguém que ainda pensasse como humana.
— Leiva, esse castelo é mesmo feito de água? — perguntei, tentando encontrar alguma lógica visível. — Onde fica a entrada? Não tem portões?
— Eu não contava com isso — admitiu Leiva, franzindo a testa enquanto tentava lembrar o procedimento das guardiãs. — Normalmente são elas que abrem as passagens. Os arpões têm algas na ponta. É com eles que movem as águas e criam entradas.
Ela olhou para mim com um semblante descrente, talvez porque a solução óbvia envolvia confiar mais uma vez em algo que nenhuma de nós dominava completamente.
— Você consegue fazer isso? — perguntou, e pela primeira vez desde o início do plano a dúvida dela pareceu maior do que a autoridade.
Sinceramente, eu não fazia ideia. Apesar de Namos estar comigo, a ausência da simbiose me deixava com muito menos conhecimento disponível, muito menos sensação de poder. Eu me sentia quase comum, o que era uma piada cruel para alguém com um animal ancestral tatuado no ombro e um plano de assassinar uma rainha milenar. Resolvi tentar antes que o medo parecesse argumento.
Concentrei-me e chamei as algas. Primeiro veio uma resposta distante, como um arrepio elétrico no fundo da água. Depois senti várias consciências pequenas, espalhadas pelo rio e por canais próximos, voltando-se para mim. Elas não conseguiam simplesmente sair da água sozinhas. Para alcançarem a margem, precisariam reunir força suficiente para erguer uma onda, uma extensão líquida desde o leito do rio até meu corpo. Eu poderia ter ido até a margem buscar algumas, mas a intuição dizia que seria melhor testar o alcance do meu controle e, se possível, trazer reforço.
Concentrei-me mais, e a quantidade de algas aumentou. Vinham de longe, chamadas por mim ou acompanhando as outras. Milhões de micropatas elétricas pareciam tocar minha pele. Os choques ficaram quase insuportáveis, mas aguentei. Elas criaram um cordão de água luminosa que se erguia do rio e avançava pelo ar.
As guerreiras observavam em silêncio. Os microchoques diminuíram quando o cordão chegou até mim. Então percebi que as algas continuavam avançando além do necessário. Todas queriam vir, atraídas por mim, pelo plano ou pelo papel que esperavam que eu cumprisse.
Eu já havia decidido o que faria desde que as chamei. Precisava escondê-las nas paredes do Castelo, criar uma vantagem invisível dentro da própria casa da Rainha. Quando chegaram, elas obedeceram. Tomaram a estrutura de água, espalharam-se por torres, paredes e arcos, perdendo o brilho evidente até se confundirem com o movimento natural da construção. Deixei apenas duas comigo, uma em cada palma da mão, discretas e vivas. Com elas, consegui movimentar a água à nossa frente e abrir uma passagem.
Entramos no Castelo. Por dentro, a sensação era ainda mais estranha. Os corredores pareciam feitos de rios suspensos, com paredes translúcidas onde correntes se moviam em sentidos diferentes. A luz atravessava tudo e projetava ondulações sobre nossos corpos. Subimos escadas que talvez fossem água solidificada, passamos por salões vazios e corredores longos, sempre em direção à torre onde a Rainha ficava. Em algum ponto, as guerreiras me pegaram pelos braços, conduzindo-me como se eu fosse prisioneira. A encenação se tornou mais real à medida que avançávamos. Eu já não precisava fingir tanto medo.
Quando chegamos ao fim do corredor maior, no topo do Castelo, a passagem de água se abriu. O salão além dela era amplo e circular, com paredes movendo-se lentamente. A voz da Rainha veio antes do corpo.
— Finalmente vocês chegaram — disse ela. A voz se repetiu nas paredes de água. — Já não era sem tempo. Foi difícil escolher quem seria a contemplada?
A Rainha seguia invisível, e a voz parecia se aproximar por dentro da água. Só então entendi o problema. Deveríamos ter escolhido alguém para ser libertada, alguém que justificasse nossa visita conforme o acordo anterior com ela. A pergunta atravessou o grupo inteiro como um anzol. Leiva improvisou antes que o silêncio nos denunciasse.
— No final das contas, escolhemos Anna — respondeu Leiva, sem titubear, como se a decisão tivesse sido óbvia desde o começo e nenhuma de nós tivesse acabado de lembrar daquele detalhe.
— Eu apostaria em Anna mesmo — disse a Rainha, surgindo enfim diante de nós com uma tranquilidade que deixou o salão mais frio. — Muito bem. Trato é trato.
Ela usava uma roupa completamente diferente: um vestido longo, branco com tons roxos, feito de um material elástico e viscoso que se moldava ao corpo. Complementos semelhantes a renda moviam-se com a água ao redor. A Rainha entrou no salão com a segurança de quem conhecia cada movimento do Castelo.
Quando ela ergueu os braços, pressenti que lançaria uma alga em Anna. Não pensei. Talvez tenha sido coragem, talvez impulso, talvez Namos reagindo através da tatuagem antes mesmo de voltar ao meu corpo. Atirei-me no caminho, pulando na direção da Rainha. A alga lançada tocou meu nariz e grudou ali sem me ferir, quase repetindo o primeiro contato que me levara à gruta. No mesmo movimento, caí sobre a Rainha, derrubei-a e pressionei minhas mãos contra o rosto dela, usando as duas algas que carregava nas palmas.
Ela gritou. O som atravessou água, pedra, osso e pensamento. Seu rosto queimava sob minhas mãos, derretia e soltava fumaça. Por um segundo, acreditei que aquilo bastaria. Aceitei a vitória cedo demais.
A Rainha me empurrou com uma força brutal. Rolei para longe, e ela se arrastou até o canto da sala, levantando-se devagar, de costas para nós. O rosto estava desfigurado, ainda esfumaçando, porém já começava a se recompor. A carne voltava ao lugar, as cicatrizes fechavam e a pele recuperava sua forma.
— Garota, parabéns pela coragem — disse ela, virando-se novamente para nós. — Então você realmente pode manipular as algas. Mas acreditou de verdade que tinha alguma chance?
O rosto dela continuava cicatrizando enquanto falava, e isso tornava cada palavra pior. A Rainha não parecia desesperada. Parecia ofendida por ter sido tocada antes da hora.
— Estou aqui há aproximadamente cinquenta anos — continuou. — Mas eu sou milenar. Vim para este planeta para esperar você. Sei mais sobre você do que você mesma. Meu poder é maior do que qualquer sonho que você ainda nem teve coragem de sonhar.
Ela ergueu a mão direita e fez um movimento suave com o indicador apontado para cima. As algas que eu havia espalhado pelas paredes acenderam, só que a luz delas mudou. Não era o brilho conhecido, frio e vivo. Pareciam chamas alaranjadas, fogo dentro da água. Juntavam-se e avançavam, diminuindo nosso espaço como se as paredes ganhassem espessura e se aproximassem de nós. O calor aumentou. As paredes de água se tornaram flamejantes sem evaporar, uma contradição física que eu sentia na pele antes de conseguir pensar.
Tentei controlar as algas. Elas não obedeceram. Ou melhor, algumas tentaram. Senti o esforço delas, a resistência, a mensagem confusa atravessando os choques. Aos poucos, entendi o motivo. Durante todos aqueles anos, a Rainha havia capturado algas e submetido suas estruturas a chamas criadas por um gás aquático. A transformação molecular permitia que Raquel, com seu nível de desenvolvimento, controlasse especificamente aquelas algas modificadas. Elas já estavam pelo Castelo antes de chegarmos, escondidas por toda parte, e sua influência se espalhava sobre as algas naturais, obrigando-as a seguir ordens contrárias à própria vontade.
— Eu não consigo controlá-las — avisei às guerreiras, sentindo a garganta apertar. — Elas estão sob comando das outras algas, as modificadas, que seguem as ordens da Rainha. Eu realmente não sei o que fazer.
As guerreiras se aproximaram de mim, formando instintivamente um grupo menor. A parede de água flamejante já havia passado pela Rainha, deixando-a livre do cerco que nos prendia. Ficávamos cada vez mais acuadas. O plano havia virado armadilha dentro de poucos segundos, e a Rainha olhava para nós com a paciência de quem assistia uma porta se fechar.
Sem encontrar alternativa melhor, toquei a imagem de Namos em minha pele e pedi mentalmente que ele se unisse a mim. A resposta foi imediata. A tatuagem se abriu, o calor dele percorreu meu corpo e, em um fôlego, estávamos em simbiose. A pele azul-marinho cobriu meus braços, as garras surgiram, as asas-nadadeiras se ajustaram nas costas, e o medo diminuiu o suficiente para virar fúria.
Saltei em mergulho contra a parede e atravessei a água flamejante na direção da Rainha. Ela não teve tempo de reagir. Derrubei-a de novo e comecei a golpeá-la. Meus socos atingiam o rosto dela em sequência, com uma força que fazia a água tremer ao redor. A sensação de estar submersa quase desapareceu. Eu era movimento, raiva, Namos, Emma, justiça, vingança, tudo misturado de um jeito perigoso. A Rainha tentava se proteger, mas meus golpes não davam espaço.
As algas pararam de empurrar as paredes e tentaram me atacar. Choques atravessaram meu corpo, fortes o bastante para iluminar a água, mas não me derrubaram. Talvez fosse alguma resistência adquirida na simbiose. Talvez fosse a pele de Namos. Talvez eu estivesse enfurecida demais para entender a dor no momento certo. Continuei golpeando, dominada pela certeza terrível de que, se parasse, todas nós estaríamos perdidas.
Então senti o golpe. Uma dor seca, funda, atravessou minha barriga como lança. Olhei para baixo e vi uma parte do vestido da Rainha solta do braço dela, revelando-se uma espécie de osso pontiagudo que me perfurava. Aquele vestido era também simbiose, ou algo próximo disso, uma criatura disfarçada de tecido esperando o momento certo de mostrar os dentes. A descoberta chegou junto com o sangue.
Caí de lado. O sangue saiu quente pela minha boca, e a força de Namos já não conseguia manter meu corpo em pé. Vi Leiva por entre manchas de luz e água. A dúvida havia desaparecido do rosto dela. Restavam horror, raiva e decisão.
Leiva repetiu meu salto em direção à Rainha. Agarrou a ponta que havia me ferido e a puxou com violência. Com um movimento desesperado, apunhalou-a de baixo para cima, perfurando o pescoço até a arma surgir dentro da boca.
As algas atacaram Leiva. A luz explodiu diante de mim, branca, intensa, engolindo a sala, o Castelo, a Rainha e o rosto da mulher que havia decidido me levar até ali mesmo sabendo que esperança também podia ser armadilha. Depois do clarão, eu não vi mais nada.