Pesadelo sem fim
Será que eu não tinha morrido? A pergunta surgiu antes de qualquer certeza. Uma dor pequena começou dentro da cabeça e logo se espalhou pelo corpo em formigamentos agudos, semelhantes a cortes finos sob a pele. Tentei respirar e não soube se havia ar. Tentei mover os dedos e encontrei uma resistência pesada, como se cada músculo precisasse reaprender a existir. Então uma garoa fria tocou meu rosto. Pingos mais densos caíram sobre meus olhos até me obrigarem a abri-los.
O desespero tomou conta de mim com uma força que eu jamais havia conhecido em vida. Sombras se moviam depressa demais. Eu estava em uma espécie de santuário macabro, dominado por uma escuridão úmida e por luzes vermelhas que faziam a água das fontes, fendas e paredes parecer sangue. Procurei o céu que conhecia e encontrei dois sóis ardendo em lados diferentes. Aquele mundo tinha detalhes demais para um sonho. Cada gota, pedra e reflexo vermelho insistia que eu estava acordada em um pesadelo sem fim.
As sombras que vagavam perto de mim lembravam nuvens negras, pequenas e baixas, deslocando-se em todas as direções com uma pressa viva. Algumas carregavam chuva dentro de si e se abriam de repente, encharcando o chão, as rochas, as fontes, qualquer coisa que cruzasse seu caminho. Uma delas pairou próxima ao meu corpo como se me vigiasse. A água que derramava parecia escolher meu rosto, meus braços, minhas roupas, e o frio começou a me atravessar com tremores que vinham tanto do ar quanto do medo. Foi então que ouvi um grito agudo, feminino, rasgando a distância, cheio de angústia profunda, dor prolongada e a descoberta tardia de que ainda havia formas de sofrer depois da morte.
Consegui me mexer aos poucos, primeiro arrastando um braço, depois tentando erguer o corpo com uma força que parecia emprestada. Outro barulho se aproximou, mais grave, mais vasto, como se uma represa tivesse sido aberta em algum ponto invisível e toda a água do mundo viesse em minha direção. Gastei o pouco de energia que encontrava para me levantar, rastejar, alcançar um pequeno monte rochoso à frente e tentar escalá-lo, mas a tentativa já nasceu inútil. Uma onda altíssima surgiu trazendo a violência de uma enchente, atingiu meu corpo e me arrancou da pedra. O impacto foi tão brutal que perdi novamente a consciência antes de entender para onde estava sendo levada.
Não sei quanto tempo se passou até a dor voltar em golpes secos no rosto. Eu estava levando tapas fortes, um depois do outro, e cada estalo queimava a pele como se alguém tentasse me expulsar à força de um lugar profundo demais.
— Acorda! — gritou uma voz áspera, tão próxima que parecia morder meu ouvido. — Tá pensando que isso aqui é colônia de férias? Isso aqui não é conto de fadas, não. Não tem principezinho para te acordar com beijo.
Abri os olhos e vi uma mulher em cima de mim, inclinada sobre meu corpo, com o rosto marcado por rugas duras e uma expressão de impaciência quase cruel. Ela me esbofeteava sem cerimônia, e a dor, naquele momento, era a única coisa capaz de provar que eu continuava ali. Levantei os braços para me proteger, virei o corpo com força, tentei me desvencilhar e acabei caindo no chão. Percebi então que estava sobre algo parecido com uma cama, embora a superfície se movesse sob mim como um colchão de água.
Pulei para cima daquela mulher com uma fúria que não reconheci como minha. Talvez fosse medo, talvez fosse instinto, talvez fosse apenas a humilhação de acordar apanhando depois de já ter sido destruída pelo mar. Ela parecia uma bruxa velha e acabada, mas seus olhos tinham uma vitalidade perigosa, e antes que eu conseguisse fazer qualquer coisa além de avançar, outras mulheres vieram sobre mim. Mãos fortes me seguraram, me afastaram dali e me obrigaram a sentar em um banco áspero, enquanto eu respirava como um animal encurralado.
Uma moça mais jovem se aproximou tentando me acalmar. Ela me pediu para respirar, colocou um copo de água em minhas mãos e guiou o primeiro gole com cuidado. A água desceu fria e, de repente, tudo mudou. O terror perdeu força. Meu corpo continuava dolorido e o lugar continuava impossível, porém uma calma estranha tomou conta de mim, próxima da felicidade, e senti um sorriso bobo querendo nascer no rosto.
— Ei, moça, fique aqui comigo — disse a jovem, segurando minha atenção com os olhos. — Preste atenção. Não apague, está bem? O primeiro gole de água é sempre o mais difícil, mas se você deixar sua mente se fechar dentro dela mesma, vai ser muito mais complicado sair. E acredite, ficar presa dentro de si mesma é uma coisa que você não vai querer experimentar.
Eu não sabia onde estava, quem eram aquelas mulheres ou por que uma água aparentemente comum havia mudado meu estado com tanta violência. A jovem tinha pele escura, cabelos pretos presos atrás da cabeça e olhos atentos que mal piscavam enquanto me examinavam. Era linda, mas havia firmeza demais em seu rosto para que eu confundisse beleza com segurança. Segundos antes eu estava furiosa; depois de um gole, minha mente se deixava conduzir por ela.
— Bate nela, sua lesada! — rosnou a velha, ainda perto o bastante para parecer ofendida pela minha recuperação. — Fica aí fazendo carinho e depois reclama quando a novata vira peso morto.
— Você sabe que existem dois jeitos de trazer alguém de volta, Krata — respondeu a moça, sem tirar as mãos da minha cabeça nem desviar os olhos dos meus. — A agressão funciona, mas não faz meu estilo.
— Lá vem você, Leiva, com discurso moralista — insistiu Krata, fazendo pouco caso com uma risada seca. — Bate que resolve logo. Sempre resolveu.
A moça, que agora eu sabia se chamar Leiva, não respondeu. Continuou com o rosto muito próximo do meu. Então fechou os olhos e me beijou. Foi um beijo intenso, longo e sem licença. Fiquei imóvel por choque; em algum momento, talvez tenha retribuído. Minha consciência se afastou e voltou de uma vez. Quando ela me soltou, eu estava desperta e assustada com outro tipo de invasão.
— Onde estou, afinal? — perguntei, ouvindo minha própria voz como se viesse de alguém que eu conhecia pouco. — E o que foi isso?
— Aqui é Neon, o mundo obscuro das águas — respondeu Leiva. — Você foi enviada para cá após morrer. Aprendemos que a morte é uma passagem e que a maneira como se vive e se morre influencia o caminho seguinte. É o que sabemos pelas vidas das quais conseguimos nos lembrar.
— Mas por que me beijou? — interrompi, porque, por algum motivo absurdo, aquela pergunta parecia mais urgente do que a confirmação de que eu estava morta.
Leiva respirou fundo, talvez acostumada ao tipo de confusão que acompanha os recém-chegados. Explicou que a água destilada era a essência daquele mundo, água pura, capaz de estimular a mente e manter as pessoas lúcidas quando o desespero tomava conta. Mas também podia ser letal. Se alguém se perdesse dentro dela, se fechasse a mente em si mesma, ficaria presa ali, sem conseguir voltar, a menos que outra pessoa a puxasse de volta com dor ou com intensidade. Tapas fortes na cabeça, como Krata preferia, ou um beijo capaz de atravessar o bloqueio.
— Foi uma sensação muito estranha — admiti, limpando a boca com as costas da mão. — Acho que preciso agradecer por ter me trazido de volta. Pelo beijo sem aviso, ainda não decidi.
— Talvez seja cedo para agradecer alguém — disse Leiva, e o olhar dela perdeu um pouco da suavidade. — Isso aqui é um inferno. Não posso garantir que não fizeram nada com você enquanto estava desacordada, nem que eu consiga te ajudar no futuro. Ou que eu queira.
Não entendi se aquilo era ironia, ameaça ou sinceridade. Antes que eu respondesse, Leiva apontou para cada mulher e disse seus nomes. Krata era a velha que havia me acordado a tapas. Anna, magra, tinha pele escura e olhos quase cor de mel. Shanera era a loira mais alta; Fanare, a mais baixa. Benita tinha o corpo musculoso e mantinha os braços cruzados. Kinerta, ruiva, me encarava com olhos vermelhos. Recebi todos os nomes de uma vez e soube que esqueceria parte deles.
Antes que eu tivesse tempo de me apresentar, um som de ondas se quebrando começou a se aproximar. Meu corpo reagiu antes da razão. Arrepiei-me inteira só de imaginar a chegada da água outra vez. Leiva se levantou de imediato, e todas as outras mulheres responderam à sua postura com uma prontidão que deixava claro que aquele grupo era muito mais do que um bando de sobreviventes.
— Todas preparadas! — gritou Leiva, e as mulheres se ergueram ao mesmo tempo, formando um círculo ao meu redor.
Elas vestiam proteções curtas de um material que lembrava couro molhado e carregavam lanças de pedra. Fiquei no meio delas sem saber o que fazer. Então todo o ar à nossa volta se transformou em água. O espaço onde respirávamos virou líquido de uma só vez, e senti-me afogar novamente, tomada por uma angústia maior porque eu já sabia o que a água podia roubar de mim.
As guerreiras permaneceram firmes. Começaram a mover os braços em círculos, cada uma conduzindo o próprio gesto com precisão. Era como se retirassem a água da frente e trouxessem o ar de volta, abrindo espaço dentro daquilo que tentava nos engolir. Eu me debatia sem entender, os pulmões queimando, até que a pressão cedeu. A água se dissipou em fios, vapor, queda, e o ar retornou tão abruptamente que caí no chão quando consegui respirar. Uma mulher surgiu diante de nós, atravessando aquela tormenta como quem entra em um salão que já lhe pertence.
— Ora, ora, ora, vocês estão melhorando, guerreiras da água — disse a recém-chegada, e sua voz tinha a leveza de quem elogia apenas para lembrar que continua acima de todas.
A essa altura, as mulheres já estavam ajoelhadas, os olhos baixos, os corpos imóveis. Eu continuei caída onde estava, incapaz de acompanhar a velocidade com que o horror mudava de forma. A mulher usava uma roupa imponente, mistura de traje de gala e uniforme de proteção, em um azul-noite que se confundia com as nuvens negras e, em certos reflexos, brilhava como uma lâmina molhada. Carregava um cetro com uma pedra verde na ponta, e não precisei que ninguém me explicasse sua importância. Tudo nela exigia obediência antes mesmo de revelar seu nome.
— Hoje acordei de bom humor e resolvi visitá-las — continuou ela, caminhando devagar entre as guerreiras ajoelhadas. — Na verdade, Leiva, vim propor uma troca.
Leiva ergueu o rosto apenas o suficiente para olhar a Rainha. Eu percebi, pela tensão discreta em seus ombros, que aquele nome e aquela presença significavam perigo em uma escala que eu ainda não compreendia.
— Pode se levantar — ordenou a Rainha, e Leiva obedeceu sem pressa, como alguém que conhece o preço de cada movimento.
— Minha rainha, sabe que nunca me oponho a qualquer coisa que me peça — disse Leiva, escolhendo as palavras com cuidado.
— Então deve saber também que, apesar de muitos me acharem maligna, sou muito justa e nunca peço nada sem oferecer algo em troca — respondeu a Rainha com um sorriso falso, polido demais para esconder prazer.
— Sim, minha rainha — disse Leiva. A boca pronunciou obediência; os ombros continuaram tensos.
A Rainha passeou o olhar pelo grupo com uma satisfação calculada. Então anunciou que trazia a boa nova da morte para uma delas. Para meu espanto, todas sorriram. Algumas chegaram a vibrar, embora permanecessem paradas, tentando conter a alegria diante da Rainha. Eu as observei sem entender como alguém poderia reagir daquela forma ao aviso de morte. Naquele lugar, porém, a morte parecia ter outro significado, e talvez eu já estivesse atrasada demais para compreender qualquer coisa.
— Oh, Senhora das Águas que nos abençoa, o que preciso fazer para compensar tal generosidade? — perguntou Leiva, e a cena inteira pareceu se deslocar diante dos meus olhos, porque a mesma mulher que havia me salvado agora agradecia por uma morte prometida.
— Desta vez é algo muito simples, Leiva — disse a Rainha, apontando o cetro em minha direção. — Quero a eternidade daquela mulher.
O terror que eu sentia ganhou uma forma nova. Até então eu temia a dor, a água, as sombras, a possibilidade de ter morrido e acordado em um lugar impossível. Agora a palavra eternidade se abriu diante de mim como uma prisão sem paredes visíveis. Leiva pareceu surpresa de verdade. Seu semblante era o de alguém que recebera uma missão absurda, dessas que nas lendas exigem enfrentar monstros com as mãos vazias.
— Minha rainha, se eu puder pedir algo, gostaria de conversar com as guerreiras para decidirmos quem será contemplada — disse Leiva, e as outras olharam para ela com espanto quase imediato.
— Muito bem — respondeu a Rainha, dando de ombros com uma generosidade teatral. — Sei que essa decisão poderia ser exclusivamente sua, ou mesmo minha, mas farei como prefere. Como eu disse, acordei de muito bom humor.
A Rainha riu alto, quase engasgada. Disse que recuperaria algumas algas mágicas que haviam escapado e retornaria ao Castelo, ordenando que me levassem até lá. Comentou que às vezes gostaria de não ser a única capaz de pegá-las e logo desfez a ideia. Em seguida, uma onda se ergueu no ar, envolveu seu corpo e a carregou dali.
— O que você está fazendo, Leiva? — perguntou Anna assim que a Rainha desapareceu. — E se essa mulher muda de ideia?
— Anna, já se esqueceu que as trocas proporcionadas pela Rainha sempre significam duas vantagens apenas para ela? — respondeu Leiva, virando-se para o grupo com uma calma que parecia construída sobre muitos anos de desconfiança.
— Saber negociar com a Rainha foi o que lhe permitiu ser nossa líder — disse Benita, cruzando os braços. — Então diga logo o que tem em mente.
Leiva olhou para mim, e aquele olhar carregava uma gravidade que me fez desejar voltar à ignorância de poucos minutos antes. Disse às outras que a Rainha jamais havia pedido uma delas daquele modo e que entregar minha eternidade significaria condenar-me ao inferno permanente daquele mundo, vivendo ao lado da Rainha para sempre. A conversa se movia ao meu redor como se eu fosse ao mesmo tempo pessoa, moeda de troca e problema estratégico. Eu já não gostava de nada daquilo.
— Espere — interrompi, tentando levantar a voz acima do medo e da conversa que parecia decidir meu destino sem me incluir. — Como assim viver para sempre?
Leiva voltou-se para mim com uma paciência triste. Explicou que todos nasciam uma única vez e, depois disso, a cada morte seguiam para outro planeta. Algo essencial de cada pessoa atravessava a passagem e reconstruía o corpo no auge da vitalidade. Neon era uma exceção terrível. Ali, de qualquer maneira que morressem, reapareciam no mesmo mundo e com a mesma condição de antes. Eram imortais naquela realidade, presas a ela, e a única saída conhecida dependia da Rainha.
Ela continuou, e cada informação parecia pior que a anterior. Por algum motivo, a Rainha controlava algas mágicas capazes de fazer muito mais do que mover a água; podiam transformar qualquer matéria em líquido, incluindo o próprio ar. Quando a Rainha destruía um corpo dessa forma, aquela morte escapava à reconstrução de Neon e permitia que a pessoa seguisse adiante. Ou ao menos era nisso que elas acreditavam, apoiadas na experiência de quem já morrera mais de uma vez e lembrava de outros lugares.
— Mas o que garante a vocês que, explodindo seus corpos, vocês vão para outro planeta? — perguntei, agarrando-me à pergunta como se encontrar uma falha na lógica delas pudesse me devolver algum controle.
— A maioria de nós já morreu mais de uma vez e veio de outros mundos — respondeu Leiva. — O corpo termina, mas alguma coisa continua e encontra outro lugar. Pelas experiências que trocamos, quem sofre e é brutalmente assassinada costuma despertar em um mundo muito melhor. Pelo menos foi o que aconteceu com quase todas antes de chegarem aqui.
Fiquei olhando para ela, sem saber qual daquelas informações rejeitar primeiro. Passamos a vida inteira aprendendo tantas coisas e ninguém nos preparava para acordar em um inferno aquático onde a morte podia ser prêmio, moeda e ameaça.
— Entendi — comecei, sentindo a compreensão chegar atrasada e horrível. — Então o que está em jogo aqui é eu permanecer para sempre neste lugar. Para sempre de verdade, não modo de dizer.
— Exatamente — respondeu Leiva, e o peso da palavra não precisou de grito, ameaça ou cerimônia. Ela sabia que eu não tinha escolha, e talvez o mais terrível fosse perceber que, naquele momento, ela também não tinha.