O Treinamento
Elaryan nos levou para um planeta onde, segundo ela, faríamos um treinamento. Caímos em uma espécie de pântano, numa areia movediça. Começamos a afundar depressa, mas, quando percebi que tinha meus poderes de volta, simplesmente transformei aquele monte de lama em um lago límpido.
Não pareceu que aquilo tivesse sido uma boa ideia. Naquele lugar estavam presos dezenas, talvez centenas de animais que vieram nos atacar. Conseguimos nos livrar deles, mas acabamos mordidas e com pequenos e chatos carrapatos grudados em nós, queimando a pele.
Saí da água, flutuei no ar e invoquei as algas mágicas que, até então, estavam aprisionadas dentro de mim. Elas começaram a destruir os animais que me atacavam. Olhei para Raquel e ela parecia surpresa por eu tê-las como simbiose. Acabei ficando envaidecida, até um pouco exibida.
Desconcentrei-me por alguns segundos ao vê-la sair da água como se levitasse. Dela também saíam algas, parecidas com as minhas e de comportamento semelhante, mas vermelhas e ainda menores. Acima da minha cabeça, pássaros selvagens voavam em alta velocidade, prontos para acabar comigo. Raquel lançou duas algas na direção deles, que caíram fritos na água.
— Obrigada! — agradeci, sem graça.
— Percebeu que eles não desaparecem? Estranhamente estamos em algum planeta de primeira vida. Você conhecia esses animais? — Ela, além de observar, tentou investigar.
— Não, não eram da Terra, com toda a certeza.
— Eu também nunca tinha visto nada parecido, nem os aquáticos, nem os aéreos — ela contou.
— Ótimo! Qual o plano? — perguntei. — Por mim ficamos paradas aqui e esperamos. Ainda não me sinto completamente recuperada.
— Nem eu, mas acho que isso daqui é um tipo de teste e, enquanto não chegarmos a algum desfecho, não sairemos daqui. De qualquer forma, acho que você tem razão. Talvez deitar um pouco e descansar possa ser uma boa ideia. Depois de tanto tempo sem conseguir dormir...
Enquanto ela falava, eu já tinha me aconchegado num gramado macio, próximo de duas árvores. Adormeci.
Acordei com o cheiro de pele queimando. As algas vermelhas de Raquel tentavam conter um monstro que já estava sobre nós. Criei uma lâmina pontiaguda de gelo e tentei atravessar o pescoço do bicho. Ela penetrou em seu couro, mas ele a quebrou antes que atingisse mais fundo.
Raquel, que também estava dormindo e aparentemente tinha tido a brilhante ideia de liberar as algas, deixando-as de guarda, levantou-se num pulo, caiu por trás da cabeça do animal gigantesco e com uma força absurda, segurou-o pelo focinho e girou sua cabeça até quebrar o pescoço.
— Imagino tudo que você passou para conseguir fazer algo assim — constatei, após ela saltar ao meu lado.
— Isso não foi nada, vivi coisas muito piores. Bom, acho que é melhor nós irmos. Fiquei curiosa para olhar de cima, depois que você dormiu, mas a única coisa que dá pra ver é árvore e mais árvore e mais árvore, até o fim do horizonte — ela contou.
— Vamos escolher um lado e ver o que encontramos além do horizonte? — perguntei.
— Sim, mas primeiro, antes de irmos, talvez seja interessante criar uma clareira aqui, derrubar algumas árvores e deixar o espaço bem reconhecível de cima para que, caso acabemos dando a volta no planeta todo, possamos identificar isso e tentar girar no outro eixo. — Raquel me surpreendia cada vez mais com sua habilidade estratégica e visão.
— Você tem razão. — Fomos para o alto e destruímos algumas árvores, o que nos deixou tristes, mas infelizmente era necessário, mesmo. Congelei as pontas criando algumas colunas altas e deixando bem visível o local.
Partimos e voamos muito. Voamos muito mesmo! Horas em linha reta. Fomos atacadas por mais animais, mas dessa vez, nada que fosse muito difícil de lidar. Até que vimos algumas montanhas diferentes por baixo de umas árvores. Nós nos aproximamos um pouco e quando as montanhas se moveram percebemos que eram espécies de rinocerontes gigantes. Ou pelo menos parecia. Fiz a associação instantaneamente quando um deles levantou o chifre que tinha na fronte de sua cabeça e pulou conseguindo me acertar. Eu quase caí, mas me mantive no ar. Percebemos um pouco tarde que eles não só pulavam, mas exerciam uma força contra a gravidade e além de se manterem um tempo no ar, chegavam numa altura impressionante. Raquel tentou escapar de uma investida subindo ainda mais, mas o animal a alcançou e a derrubou.
Ela seria pisoteada e esmagada se eu não tivesse conseguido usar um golpe de ar para tirá-la de onde estava. A pata atingiu o chão e abriu uma cratera no lugar. Voei o mais rápido que pude e a peguei de lá.
— Vamos o mais longe que pudermos daqui, tudo bem para você? — perguntei.
— Parece um bom plano — ela respondeu, já conseguindo voar sozinha novamente, quando percebemos que eles tinham dificuldade para sair daquele trecho cercado de árvores.
Continuamos mais e mais. Já devíamos estar entrando no segundo dia de viagem quando avistamos a clareira que havíamos criado, com as colunas de gelo intactas.
— Vamos tentar a direção do norte ao sul, agora? — perguntei. Raquel assentiu com a cabeça e lá fomos nós de novo.
Dessa vez, não houve ataques. Não encontramos nenhum animal; foi o maior tempo que passamos sem contato com outra criatura.
— Raquel, o que é aquilo à direita? — perguntei vendo algo bem longe no horizonte.
— Parece fumaça? — Ela teve a mesma impressão que eu.
— Vamos lá!
Observamos a comunidade do alto antes de descer. As casas formavam círculos ao redor de uma construção maior. Havia plantações, crianças brincando e pessoas dividindo alimentos.
Homens armados mantinham escravos e violentavam mulheres. Perto da construção maior, uma pessoa foi arrastada até uma fogueira, enquanto os que a cercavam discutiam quem deveria mandar ali.
Vimos também quem escondia fugitivos, quem repartia comida e quem desviava o olhar por medo.
— Eu acho que sei o que Elaryan quer testar em nós — falei.
— O quê? — Raquel pareceu receosa.
— O que faríamos depois de encontrar essa comunidade.
— E quais são as opções?
— Ficarmos aqui e usarmos nosso poder para impor outro modo de vida.
— Qual a segunda?
— Deixá-los aí, como se não tivéssemos encontrado ninguém.
— Parece que tem uma terceira...
— Destruir tudo antes que essa sociedade cresça levando adiante o que estamos vendo.
Raquel olhou de novo para as casas.
— E tentar mudar?
Até pouco tempo antes, eu não teria imaginado Raquel defendendo uma mudança e eu procurando uma razão para desistir dela.
— Um único grupo que não aceite pode levar os outros de volta ao mesmo lugar. E o que nós impusermos também será uma tirania para eles.
Eu falava sem parar. Lá embaixo, alguém puxou uma criança para dentro de casa. Eu a vi, assim como vira os que escondiam fugitivos, e continuei procurando uma resposta que me permitisse ir embora.
— Já vivi decisões assim — disse Raquel. — Desta vez, não serei eu quem escolherá.
Congelei a comunidade antes que alguém pudesse reagir.
O frio atravessou as casas e alcançou culpados, vítimas e quem ainda não tivera tempo de se tornar nenhum dos dois. Quando terminei, a fumaça continuava subindo, mas já não havia vozes.
Elaryan surgiu aplaudindo.
— Agora você compreende. Conseguiria aplicar a mesma lógica ao grupo de Athos?
— Não somos grupos pertencentes a alguém. E nós duas também não pertencemos a você.
— Ainda consegue reconhecer quando meus objetivos parecem corretos. A pergunta é quantos meios aceitará por causa deles.
— Você queria que eu fizesse isso.
— Eu queria saber se faria.
Raquel não disse nada. A fumaça se desfazia sobre o gelo e eu continuava olhando para a casa onde a criança havia entrado. Não tentara uma única das alternativas que acabara de enumerar.
Elaryan mandou que eu partisse para uma nova missão. Raquel ficaria com ela.