Pequeno Momento de Felicidade
Todas estavam reunidas outra vez. As guerreiras tentavam contar ao mesmo tempo o que lhes acontecera depois de Neon. Para mim, a separação havia durado tempo demais; para elas, tinha sido ainda mais longa. Tinham despertado em Paros com corpos adaptados ao frio, pele mais espessa e necessidades que Neon mantinha suspensas. Precisavam comer. O ar daquele planeta carregava gases que as adoeceram, e uma guerra as obrigou a lutar antes que entendessem onde estavam.
Mesmo feridas, haviam permanecido juntas sempre que conseguiam. Disseram que a lembrança do meu último ato as ajudara a não se dispersar. Quando alguém pensava em desistir, outra repetia a frase que se tornou o lema delas:
— Por Emma.
Ouvir aquilo me emocionou e me envergonhou. Elas me ofereciam como símbolo uma coragem que eu não lembrava de ter sentido. Contei que também havia ficado sozinha, que Namos se recolhera e que Athos aparecera para transformar uma parte do planeta. As estruturas deixadas por ele tinham exatamente o que precisávamos: remédios, curativos, alimentos, lugares para descanso e ar respirável para aqueles novos corpos.
As Mileniuns chegaram nas piores condições. Uma perdera um braço, outra tinha parte do rosto deformada, e várias traziam cortes e queimaduras. O sorriso de algumas parecia mais cansaço que alegria. Ainda assim, respiravam sem os gases de Paros e recebiam atendimento. A única ausente era Raquel. Ela não havia despertado com as outras, talvez porque seu estágio de evolução conduzisse a passagem de forma diferente.
Enquanto eu escutava relatos da guerra, Natane atravessou o grupo na minha direção. Reconheci o modo decidido de andar antes de reconhecer o rosto transformado. Ela chegou perto, passou um braço pelas minhas costas e me beijou. Fiquei sem reação. O beijo durou tempo suficiente para que o choque desse lugar à vontade de retribuir, e foi isso que fiz. Quando ela me soltou, eu ainda tentava entender o que acabara de acontecer diante de todas.
— Prometi que faria isso se encontrasse você de novo — disse Natane. — Desculpe não ter perguntado antes. Durante todo esse tempo, pensei em como poderia chegar até você. Quis morrer para tentar, mas as outras diziam que seria mais provável você conseguir o milagre de nos encontrar. Pensar nisso me manteve de pé. Eu me apaixonei por você, Emma.
A declaração veio carregada pelo tempo que ela vivera e pelo tempo que eu não conhecia. Para mim, Natane ainda era a guardiã que quase impedira nossa entrada no Castelo.
— Eu gostei do beijo — respondi. — Mas, se houver outro, quero saber antes. Sobre tudo o mais, preciso de tempo. Muita coisa aconteceu e eu ainda estou tentando entender quem nós duas somos agora. Podemos conversar de novo?
Natane sorriu, concordou e se afastou. Anna esperou que ela estivesse longe o bastante antes de se aproximar.
— Não sei bem o que acabou de acontecer, mas foi impressionante.
As outras riram. Leiva permaneceu séria.
— Vocês não têm jeito — falei. — Eu realmente não consigo pensar nisso agora. Athos pode voltar a qualquer momento.
As brincadeiras recomeçaram, e o olhar de Leiva continuou preso em mim. Talvez fosse preocupação com a guerra. Também podia ser ciúme. Eu quis perguntar, porém havia uma decisão coletiva mais urgente.
— Athos salvou vocês de uma morte quase certa, mas isso não nos obriga a participar da guerra dele — continuei. — Precisamos entender o que está acontecendo e decidir se vamos apoiá-lo. Ninguém acabou de sair de uma prisão para receber outra ordem minha.
— Uma Rainha que ouve as súditas — comentou uma voz envelhecida. — Não esperava nada diferente de você.
Demorei alguns segundos para reconhecer Krata. O novo corpo deixara sua aparência próxima à das Mileniuns, mas a impaciência continuava igual.
— Não me reconheceu, né? Continua lesada.
As mulheres riram, e eu também. Quando começamos a seguir para a praça central, hesitei. Leiva percebeu e veio atrás de mim.
— O que houve?
— Não sei se devo aceitar esse papel de liderança. Muito menos o de Rainha. Eu ordenei a morte de todas vocês acreditando que seria uma libertação. Depois vocês se tornaram prisioneiras em outro planeta. De que forma isso me faz Salvadora?
— Você encerrou uma vida em que não tínhamos possibilidade de seguir adiante — respondeu Leiva. — Não pode controlar o lugar para onde cada uma vai depois. E não precisa aceitar tudo o que dizem sobre você. Se for nossa líder, será porque confiamos nas decisões que tomar conosco, não porque uma profecia escolheu seu nome.
A resposta não eliminou minha culpa, mas me permitiu caminhar até a praça. Quando todas se reuniram, subi na borda da fonte e contei o que Athos havia dito. Expliquei que ele pretendia voltar, que existia uma guerra maior e que nossa ajuda seria esperada. Depois desci e deixei que os grupos conversassem.
Creteas falou pelas Gigantes, Darca pelas Mileniuns e Natane pelas antigas guardiãs e guerreiras. A maioria desejava apoiar Athos, por gratidão e porque o poder que atuara através de Raquel continuava livre. Também houve quem quisesse permanecer naquele planeta, cuidar das feridas e compreender a nova vida antes de escolher outra batalha. A decisão precisava comportar as duas vontades.
— Quando Athos retornar, ouviremos o que ele propõe — anunciei. — Quem quiser ajudá-lo poderá fazê-lo. Quem decidir ficar não será tratada como covarde nem como devedora. Enquanto vocês me aceitarem como líder, vou tentar honrar essa confiança sem transformar gratidão em obrigação.
Uma voz surgiu no meio da multidão:
— Majestade, podemos festejar um pouco? Conseguimos trazer instrumentos que desenvolvemos em Paros.
— Instrumentos? Isso é literalmente música para os meus ouvidos. Mostrem o que conseguiram fazer.
Uma melodia semelhante à de uma flauta começou perto da fonte. Logo recebeu uma batida acompanhada por palmas e, depois, o som prolongado de cordas. Benita começou a cantar. A voz forte surpreendeu quem só a conhecia com uma lança nas mãos. A música acelerou, e as mulheres abriram espaço para dançar.
Vi feridas cobertas por faixas, corpos que ainda aprendiam a sentir fome e pessoas que haviam passado séculos sem acreditar em futuro pulando juntas ao redor da água. Eu não sabia quanto tempo aquela felicidade duraria. Naquela noite, porém, ninguém precisava chamá-la de destino para que fosse real.