Os Problemas das Soluções
— O que aconteceu? — perguntou Leiva.
— Eu morri. Vocês viram meu corpo desaparecer?
— Vimos — respondeu Natane. — Depois disso, Elaryan refez o que havia destruído e sumiu.
Contei que despertara numa região que Elaryan chamava de terceiro lado. Disse também que ela afirmava conhecer a experiência de perceber o Universo de fora e que tratava minha chegada ali como uma falha nas regras.
— Não sei quanto disso é verdade — concluí. — Ela me deixou imóvel sob um sol que queimava minha pele. Quando consegui me levantar, trouxe-me de volta.
— E isso é o resumo? — perguntou Natane.
— É o resumo que consigo dar.
O tempo continuava avançando em Vésper. Não sabíamos se Elaryan permanecia no planeta ou se alguma passagem aberta por Athos mantinha o fluxo ativo.
— Existe outro problema — disse Leiva. — Pessoas de várias regiões querem procurar parentes e amigos de vidas anteriores. Um homem chamado Dash veio falar pelo povo do Vento. Como você é a única rainha que Athos deixou aqui, todos procuram você.
— Isso não me torna autoridade sobre Vésper.
— Não, mas torna você a pessoa poderosa que eles conseguem encontrar — respondeu Leiva. — Precisamos dar alguma resposta antes que grupos tentem abrir caminhos sozinhos.
O teletransporte transformava saudade em uma possibilidade concreta. Ainda assim, encontrar alguém no Universo seria difícil. Essa pessoa poderia ter vivido por séculos, construído outras relações ou não desejar retomar a vida anterior. Fazer buscas em larga escala exigiria muito mais do que poder.
Foi então que pensei em Carlos, Clara e Eric.
Até aquele momento, eu não considerara procurá-los. A constatação trouxe culpa, mas não significava que os tivesse esquecido. Desde que morrera, eu mal tivera tempo para compreender onde estava. Só agora sabia que atravessar planetas era possível.
— Diremos que estamos organizando as informações — decidi. — Cada comunidade pode registrar quem procura e o que sabe. Ninguém parte sem entender que o reencontro também depende da vontade de quem for encontrado.
Saí para a área aberta. Meu corpo parecia diferente desde o retorno.
Olhei para o Castelo e movi suas paredes com facilidade. Congelei parte da estrutura, transformei o gelo em vapor e fiz a água retornar ao mesmo lugar. Depois ergui o riacho próximo sem interromper a corrente e o devolvi ao leito.
— Como você evoluiu tanto? — perguntou Leiva.
— Acho que aquela morte não seguiu o caminho normal.
Havia outra sensação, distante e familiar. Fechei os olhos. Não enxerguei um planeta, mas reconheci o chamado das algas.
Respondi.
O ar acima de mim se transformou em água. As algas surgiram aos poucos, vindas de algum lugar que eu não sabia alcançar. Dezenas se tornaram centenas. Elas cercaram meu corpo antes de tocar minha pele.
Namos se assustou. As algas não avançaram até que ele se acalmasse. Então entraram em mim, uma por uma, como haviam feito antes.
— Você as teletransportou? — perguntou Leiva.
— Eu as encontrei. Foram elas que atravessaram o caminho.
Levantei os braços. As algas saíram pelas pontas dos dedos e produziram um jato de água antes de retornar.
— Você não se cansa de novidades? — perguntou Natane.
Creteas se aproximou.
— Consegue encontrar outros animais?
Fechei os olhos outra vez. Percebi peixes, anfíbios, répteis e mamíferos ligados à água. Alguns responderam ao chamado das algas. Abri uma passagem, mas me lembrei dos casulos rompidos e da advertência de Athos.
Poucos animais chegaram. Alguns estavam protegidos em casulos; outros nadaram para o rio assim que apareceram.
— Ninguém toca nos casulos — determinei. — Primeiro vamos observar. Uma simbiose não pode ser tratada como recompensa.
Fechei a passagem antes que o impulso se tornasse outra decisão grande demais. Caí de joelhos, esgotada.
— Por hoje, já causei novidades suficientes.
Leiva e Natane me levaram para o quarto. Deitaram-se comigo, uma de cada lado, e dormimos abraçadas.