Varuna
Raquel e eu havíamos tentado sair do abrigo. Voamos até onde a energia permitiu e encontramos terra, mata e uma floresta sem fim. Elaryan nos alcançaria em qualquer direção. Voltamos antes de desperdiçar mais forças.
Ela apareceu satisfeita com nossa decisão.
— Vocês irão encontrar parte do povo de Néon — disse. — A comunidade saiu para explorar Extern e entrou nos domínios dos crustáceos.
Elaryan contou que transportara as cidades da água antes da destruição de Vésper. Fluxos antes afastados haviam se aproximado, e o planeta não resistira às alterações de força e tempo.
— Athos estava lá? — perguntei.
— Não. Retirei quem consegui antes do fim.
— Quem conseguiu não é o mesmo que todos.
Elaryan não respondeu.
Pensei no Castelo de Água, nas ruas e nos povos que eu conhecera. Vésper não era apenas o planeta de Athos. Era o lugar onde reconstruímos vidas depois de Néon. Mesmo que as comunidades da água tivessem sido transportadas, outras pessoas poderiam ter permanecido. Elaryan escolhera quem seria retirado e agora usava o resgate como prova de que a escolha fora correta.
— Quero os nomes de quem não veio — exigi.
— Eu não os tenho aqui.
— Então encontre.
Ela me observou por alguns segundos. Não prometeu. Pelo menos não tratou o pedido como irrelevante.
Elaryan devolveu a Lança do Destino.
— Precisa aprender a abrir portais com ela. Uma arma mística responde ao que você conhece do destino: nome, posição, povo, arquitetura, qualquer detalhe capaz de separar um lugar de todos os outros.
Ela não descreveu a divisão completa do Universo. Disse apenas que Extern estava distante, reunia comunidades trazidas de muitos planetas e possuía uma região construída para seres ligados a crustáceos gigantes.
— E Raquel? — perguntei.
— Vai com você, se quiser.
Raquel confirmou antes que Elaryan pudesse responder por ela.
Fechei os olhos. Pensei em Extern, nas cidades da água, nas construções arredondadas e nas lagostas que dominavam aquela região. Pedi à lança que abrisse o caminho.
O portal surgiu.
Do outro lado havia edifícios tão grandes que nossas cidades pareceriam miniaturas dentro deles. Encontramos o grupo de Darca acompanhado por seis homens. Ninguém parecia ferido ou amarrado.
Pensei em atacar. Raquel segurou meu braço.
— Foi assim que Elaryan conduziu você no treinamento. Mostrou primeiro o que faria qualquer reação parecer necessária.
Observamos.
Um dos homens perguntou pelas simbioses. As mulheres mostraram escamas de peixes sobre a pele. Ele se transformou numa lagosta gigantesca, agarrou Jafeh e Terna e as colocou na boca.
— Elas não morrerão — disse outro. — Nosso organismo consome parte do tecido e mantém o restante vivo. Depois serão devolvidas.
Interrompi antes que repetissem o processo. Congelei a segunda criatura e avancei com Raquel.
A batalha espalhou água, gelo, descargas elétricas e golpes de ar pelo salão. Darca e as outras se voltaram contra os crustáceos assim que perceberam o que acontecia.
Um homem baixo entrou no centro do conflito e ordenou que todos retomassem a forma humana. Konevan libertou Jafeh e Terna. Antes que chegássemos até elas, uma substância verde nos prendeu às paredes.
Concentrei energia para explodir a prisão. O recém-chegado sacou uma arma de lâmina curva e atingiu todas nós num único movimento. O corte foi superficial, mas meus poderes desapareceram.
— Eu me chamo Varuna — disse. — Esta é a Varunastra. O corte interrompe temporariamente o acesso ao poder. Não permito ataques sem julgamento nos meus domínios.
Ele se voltou para Konevan.
— E o que fizeram com aquelas duas não foi treinamento defensivo.
Konevan tentou explicar que o consumo parcial fazia parte de um costume dos crustáceos. Varuna interrompeu.
— Costume não elimina escolha. Elas não consentiram e não atacaram primeiro.
Mandou que Jafeh e Terna fossem tratadas e suspendeu os testes daquela equipe até que o ocorrido fosse julgado pelo conselho local.
Ele removeu a substância e caímos no chão.
Jafeh e Terna estavam feridas, mas conscientes. Varuna mandou que fossem tratadas e se voltou para mim.
— Agora explique por que chegou armada a uma comunidade que não conhece.
Eu poderia culpar Elaryan, os crustáceos ou o medo. Pela primeira vez, percebi que precisaria separar a manipulação recebida da decisão que ainda era minha.