A Última Travessia
Leiva foi a primeira a perguntar o que eu faria se, na formação seguinte, pudesse impedir nosso reencontro.
— Não sei — respondi. — Se eu conservar alguma coisa, quero que seja suficiente para procurar vocês, não para decidir a vida de vocês antes que ela aconteça.
Ela me abraçou. Ben, já adulto, esperou a vez.
Natane pediu que eu não tentasse reproduzir cada detalhe do que vivemos.
— Se tudo tiver de ser idêntico para estarmos juntos, então não estaremos escolhendo nada.
Carlos segurou meu rosto entre as mãos.
— Eu preferia ter mais tempo.
— Eu também.
— Mas prefiro ainda mais que você vá porque quer.
Nossos filhos nos cercaram. Nenhuma despedida foi suficiente. Recomeçamos várias vezes, sempre lembrando algo que ainda precisava ser dito.
Raquel não me pediu que procurasse Poseidon. Pediu apenas que eu não deixasse ninguém transformar sua história em profecia outra vez.
Quando Trovar voltou, as outras pessoas compatíveis já o aguardavam. Adwig, Móretar, Silency, Sussurro, André, Henri, Magno, Lúcifer, Athena, Afrodite e Hagar seguiriam comigo.
Trovar nos recebeu em sua estrutura sem apagar nossa consciência. Eu ainda sentia a mão de Carlos quando deixei de enxergar o castelo.
Fomos levados para perto do ponto final, protegidos da percepção de Elaryan. A massa dos planetas convergia para o mesmo eixo. A distância entre tudo diminuía, e a luz parecia não encontrar espaço para escapar.
Athos e Elaryan estavam um diante do outro. Entre eles, a arma formada pelas quinze peças.
Não ouvimos toda a conversa. Trovar nos manteve longe o bastante para que Elaryan não identificasse a alteração. Vi Athos avançar no instante em que ela acreditou reconhecer o resultado. Houve um clarão. A lâmina que deveria atravessá-lo mudou de direção.
Elaryan caiu.
Athos apareceu ao lado de Trovar pouco depois. Não explicou o que ocorrera entre os dois, nem de onde vinham suas lembranças. Disse somente que haviam conseguido produzir uma diferença que Elaryan não preparara.
— Isso garante que venceremos na próxima formação? — perguntou André.
— Não — respondeu Athos. — Garante apenas que ela não começará sozinha com todas as respostas.
Não tínhamos garantia alguma. Pela primeira vez, porém, havia uma oportunidade que não dependia de obedecer ao roteiro de outra pessoa.
O colapso nos alcançou.
Pensei no mar da Terra, na água de Finiti, no gelo criado por Raquel e nos canais que havíamos aberto em Paradise. A água nunca me pedira que fosse rainha. Mudava de forma, encontrava passagem e continuava sendo água.
Eu não era a Prometida.
Era Emma.
Levei meu nome comigo.