Uma Longa Noite de Festa Fúria das Águas · Capítulo 34 de 51
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Uma Longa Noite de Festa

Gente, muita gente, muita gente mesmo! Por todos os lados. Não era possível aquilo. Aquele lugar era gigantesco; eu nem conseguia ver seus limites. Exceto a parede da entrada, não enxergava nenhuma outra, nem nas laterais, muito menos na ponta oposta. O teto eu via por pouco, dava pra saber que tinha, mas era muito alto. A fumaça espalhada por ele criava um efeito bastante interessante na iluminação, que mudava constantemente de cor.

Mas mal se podia andar. Ainda assim, Elaryan me puxava por uma mão e Raquel pela outra. As pessoas tocavam na gente. Apertavam, passavam a mão, de forma incisiva e com a clara intenção de sentirem uns aos outros. Todos faziam isso em todos.

— O que significa isso? — gritei para Elaryan.

— Contato, estamos num lugar de contato! — foi tudo o que Elaryan respondeu.

A única coisa que eu conseguia pensar era que nunca tinha visto, depois de minha morte, um planeta inteiro com tanta gente, quem dirá um único lugar.

Ali no meio daquelas pessoas, eu já não sabia se íamos em linha reta ou para outro lado, nem onde Elaryan pretendia chegar. Nunca imaginei que pudesse me sentir tão bolinada na vida.

Até que chegamos a uma parede com uma entrada e controladores de acesso. Elaryan se aproximou e eles não só deram passagem como se postaram em posição de sentido, com os braços esticados ao lado do corpo. Assim que passamos, voltaram ao normal. Subimos uma escadaria e chegamos a uma espécie de pista transparente, de onde podíamos ver todos embaixo.

Esse andar também tinha bastante gente, mas era muito mais tranquilo. Agora eu conseguia enxergar longe e perceber a extensão do lugar. Era gigantesco mesmo. Ainda assim, estava lotado. Quem estava embaixo não nos enxergava, mas nós podíamos ver tudo que acontecia lá.

Elaryan fez um gesto e a música mudou. Antes estava tocando uma música de batidas repetitivas e rápidas, um som muito eletrônico. Depois que ela agiu, automaticamente a música baixou de volume, parou e iniciou um som mais metalizado, entre cordas e bateria. Lembrava um pouco o que eu conhecia por um rock mais pesado. Nenhum dos dois ritmos tinha letra, apesar de em alguns momentos parecer que houvesse sons vocalizados.

— Venham dançar! — Ela se movia como se estivesse tendo uns espasmos, com o corpo torto e levantando uma das pernas sem que combinasse de forma alguma com o ritmo. Raquel me olhou como se perguntasse se em algum mundo aquilo poderia ser uma dança. Pela minha reação, ela riu e eu também não pude conter a gargalhada.

— Ei! Do que estão rindo? — ela perguntou. — Já conquistei muita gente com a sensualidade da minha dança.

— Elaryan, percebe-se que você não tem amigos. Isso daí não seria dança do acasalamento nem das mais estranhas espécies de animais. E olha que estudei muitas. Minha profissão na minha primeira vida era estudar seres exóticos da natureza — respondeu Raquel.

Ela já a pegou pela mão, abraçou-a por trás e começou a conduzir o movimento do quadril de Elaryan com o próprio, no ritmo da música. Agora sim, estavam seguindo e sentindo a música. Comecei a dançar junto e a movimentar meus cabelos, balançando a cabeça. Afinal, metal era meu ritmo preferido e aquele som de que ela gostava era bem parecido.

Elas adoraram o movimento e começaram a me imitar. Em pouco tempo, o salão inteiro dançava como nós. Quando o ritmo ficou mais intenso, comecei a pular e a entrar em contato com as pessoas. Eu tinha me transformado em um padrão de dança, todos enlouqueceram. Não chegava a ser um bate-cabeça, mas todo mundo estava descontrolado, se encontrando.

— Isso é muito bom! — Raquel gritou.

— Tem alguma forma de eu cantar? — perguntei para Elaryan.

— Como eu disse, aqui a gente pode o que quiser! — Enquanto ela fazia surgir uma espécie de tiara do nada eu pensei que seria muito bom se ela tivesse dito que a gente podia qualquer coisa lá embaixo, para abrir um caminho entre a multidão.

— Sim, podia... — ela disse, demonstrando que leu meus pensamentos. — Não é na cabeça que coloca isso não, é na nuca — ela me corrigiu.

A música tocava e Elaryan me ergueu no ar. Eu fiquei um pouco tímida, com todos olhando, quase perdi o fôlego, mas esperei a nova entrada de notas que me faziam lembrar uma música e comecei a cantar.

Imediatamente todos pararam de dançar e começaram a prestar atenção apenas na minha performance. Era uma letra forte numa melodia mais harmoniosa, até lenta. Mas encaixou no ritmo melhor que na versão original. Elaryan aparentemente gostou tanto que afastou as pessoas da parte central e me deixou bem no meio de todos. Ali, criou um efeito de estilhaçar o chão como se fosse vidro, transformando-o em uma fina areia transparente, bem na hora do refrão. Nem um show de grandes efeitos especiais, muito bem planejado, seria tão perfeito.

Quando a música subiu, encaixei outra letra. Parecia que quem estava tocando conseguia ler minha mente. A música ficou muito mais acelerada e empolgante, e todos começaram a dançar como se não houvesse amanhã.

— Não tem mesmo amanhã! O amanhã sempre é uma ilusão! — gritou Elaryan.

O final foi apoteótico. A multidão foi à loucura e Elaryan deixou de me sustentar no ar. Nem tive tempo de pensar em continuar flutuando: caí nos braços da multidão e fui levada novamente para aquela escadaria, que para mim era uma espécie de ala VIP. Eu estava acabada. Ao me aproximar delas, notei algo estranho. Havia uma fila na frente de Raquel e uma faixa pendurada acima dela. Ela estava beijando as pessoas, uma após a outra.

— O que é isso? — perguntei inocentemente.

— Raquel queria beijar na boca, mas estava tímida, não sabia o que fazer. Perguntei quem ela queria beijar, ela falou que todos. Eu simplesmente fiz uma faixa em cima dela com as palavras: Venha me beijar. Agora ela está ali, aproveitando. Você também quer? — Elaryan não tinha muito senso de limites.

— Meu amor, se eu não tivesse senso de limites estavam todos nus agora aqui. — Nessa hora seu rosto se iluminou, como se eu tivesse dado uma grande ideia para ela. — Eu quero que todos tirem suas roupas, agora! — gritou Elaryan.

Em poucos segundos, a pista mudou outra vez. Ela fez cair uma espuma branca, perfumada, que lembrava sabão.

Alguns obedeceram antes da espuma. Outros hesitaram, riram ou tentaram sair da área central. A substância alcançou todos sem distinguir quem aceitara a proposta de quem apenas estava na festa.

O efeito chegou antes de qualquer explicação. Minha pele ardeu e o desejo aumentou. Elaryan me beijou. Por alguns segundos, não consegui parar nem saber se queria continuar.

Quando tentei recuar, Elaryan ainda segurava meu rosto. Eu queria Carlos, Natane ou Leiva; não queria estar ali, cercada por desconhecidos, tentando me soltar de um beijo ao qual meu corpo insistia em responder.

Afastei-a quando recuperei controle suficiente.

— Você alterou todas essas pessoas sem perguntar.

— Ninguém será ferido.

— Você não pode saber o que fere cada pessoa daqui.

Voei até perto do teto e atravessei uma abertura. Saí numa cobertura com piscinas, esculturas e mesas de comida. Elaryan veio atrás carregando Raquel.

— Aqui era para nós três fecharmos a noite com chave de ouro — disse.

— Primeiro tire isso de nós.

Ela desfez o efeito da substância. Precisei me apoiar na borda da piscina enquanto o ardor diminuía.

— Eu queria que se sentissem livres — disse.

Raquel sentou numa das espreguiçadeiras. Perguntei se queria sair comigo.

— Ainda não. Quero ficar um pouco.

Elaryan se aproximou dela. Eu não esperei para ver o que fariam. Tirei o vestido molhado e entrei na piscina, debaixo de uma pequena cascata. Deixei a água cair sobre meu corpo sem tentar conduzi-la.

Fiquei sob a água até não sentir mais espuma na pele. A música continuou do outro lado das paredes.

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