Os Quartos do Palácio
Nosso grupo foi um dos últimos a deixar o salão. As Mileniuns não participavam de um baile havia muito tempo, e Darca pediu mais uma música.
— As gigantes já derrubaram pessoas, mesas e parte da decoração — falei. — Hermes está seguindo as duas para impedir outro desastre.
Ômega e Lexicos riam de cada tentativa dele. Darca acabou concordando que era hora de sair.
Leiva se aproximou de mim, Raquel e Darca.
— Gostaria de passarmos mais algum tempo juntas — disse. — Só se todas quiserem e quando estivermos sóbrias o suficiente para decidir.
Ninguém respondeu de imediato. Combinamos encontrar os quartos, beber água e conversar outra vez antes de qualquer coisa.
Procurei Hermes. Ele pareceu aliviado ao saber que finalmente levaríamos o grupo.
— No terceiro andar, sigam sempre até a última porta — explicou. — Quando alguém ocupa o quarto, surge outra porta adiante. O palácio continuará criando espaço enquanto houver hóspedes.
Cada ambiente permaneceu escuro até alguém entrar. Então assumia a forma desejada por quem cruzava a entrada. Surgiram quartos de pedra, casas junto a rios, jardins, plataformas abertas para o céu e até um aquário cuja água não atravessava a porta.
O quarto de Darca se abriu como uma mansão cercada por jardins no chão e no ar. Ela olhou ao redor, surpresa com desejos que nunca transformara em palavras.
— Acho que venceu — disse Raquel.
— Não era uma competição — respondeu Darca, embora estivesse satisfeita.
Depois de bebermos água e deixarmos o efeito da festa diminuir, retomamos a conversa. Antes que chegássemos a qualquer conclusão, Raquel apontou para outra porta no corredor. Era feita de metal dourado e coberta por inscrições que nenhuma de nós reconhecia.
— Quero saber quem imaginou aquilo.
— Não vamos invadir o quarto de alguém — falei.
Darca bateu. Ninguém respondeu. Quando se preparava para desistir, a porta se abriu.
Um elfo que lembrava Adwig nos recebeu. Tinha os mesmos traços delicados e a postura de quem fora educado para ocupar salões maiores do que aquele corredor.
— Como posso ajudá-las?
Expliquei que havíamos admirado a porta e pedido desculpas pela curiosidade. Ele se apresentou como Teleret, irmão de Adwig.
— Se me disserem seus nomes, mostro o quarto.
Entramos depois das apresentações. O ambiente reproduzia aposentos de uma época em que Teleret fora príncipe. Além das paredes douradas, havia um jardim muito semelhante ao criado para Darca.
Ela percebeu primeiro.
— Este jardim veio da sua memória?
— Sim. Existia no planeta onde nasci.
Darca descreveu o próprio quarto. Teleret deixou de tratar a coincidência como simples curiosidade. Olhou para o jardim e depois para Darca, sem encontrar explicação.
O entusiasmo que sentíamos perdeu parte da naturalidade. Se o palácio conseguia retirar o mesmo jardim de duas pessoas que nunca se haviam encontrado, não sabíamos onde terminava o desejo de cada uma e começava a influência do lugar.
— Não faremos nada antes de entender isso — falei.
As outras concordaram. Teleret ainda não sabia do que tratávamos.
Raquel perguntou por que ele não estivera no baile.
Teleret olhou para a porta antes de responder.
— Passei anos preso, amarrado e sem conseguir me mover. Quando vi tanta gente reunida, travei. Não consegui entrar no salão.
Ficamos conversando com Teleret enquanto o palácio criava novos quartos pelo corredor.