Sinceridade
— Meu nome é Emma — comecei. — Elaryan me disse que minhas amigas precisavam ser salvas. Não explicou o que eu encontraria nem o que esperava que eu fizesse. Ela costuma preparar as condições e deixar que a pessoa produza o resultado por conta própria.
Varuna reconheceu o nome.
— Ela já enviou outros aos meus domínios.
— Com uma ordem definida?
— Com informações suficientes para acreditarem que me atacar era necessário.
Mostrei a Lança do Destino. Varuna perdeu parte da tranquilidade.
— Ela devolveu isso a você?
— Disse que eu precisaria usá-la.
Varuna se aproximou para examinar a arma. Movi a lança, cortei o material que ainda prendia meu braço e coloquei a ponta em seu pescoço. Os homens ao redor se prepararam, mas ele pediu que não reagissem.
Soltei-o.
— Se eu quisesse cumprir uma ordem de Elaryan, poderia ter tentado matar você agora.
— E talvez conseguisse — respondeu Varuna. — Uma arma mística pode destruir seres que sobreviveriam a quase qualquer outra morte.
— Inclusive Elaryan?
— Inclusive ela. Alcançá-la é outra questão.
Varuna explicou que Elaryan conhecia sequências que ninguém mais conhecia. Não era um destino imutável. Eram padrões, decisões e encontros que ela aprendera a antecipar. Quando surgia uma diferença, tentava cercá-la antes que crescesse.
— Fomos aliados antes de ela se tornar o centro de tantos povos — contou. — Vi o conhecimento dela crescer e o desejo de preservar vidas se transformar no direito de decidir quais vidas serviriam ao projeto.
A Varunastra era uma das quinze armas místicas e, segundo ele, a única que permanecera com o mesmo portador desde que fora encontrada. Elaryan tentara tomá-la. A morte não bastara: a arma retornara com Varuna.
— Por que me conta isso?
— Porque Extern mudou. Comunidades inteiras foram trazidas para cá, forças antes distantes começaram a se encontrar e Elaryan está recolhendo pessoas e instrumentos. Não sei o que acontecerá, mas sei o que ela pretende fazer com qualquer poder que permaneça isolado.
Ele retirou a Varunastra do suporte e colocou-a diante de mim.
— Não vou entregar outra arma a uma governante — falei.
— Não estou entregando à Prometida, à rainha ou à escolhida de Elaryan. Estou entregando à mulher que teve uma lâmina no meu pescoço e decidiu afastá-la.
— E se eu me tornar outra pessoa concentrando armas e decisões?
— Então ela deverá ser tomada de você. Isto não é uma coroação, Emma. É uma guarda temporária.
A proposta ainda parecia precipitada. Varuna acrescentou que seus domínios dependiam demais de uma única arma e de um único protetor. Mantê-la consigo por medo também era centralizar poder. Se sobrevivêssemos ao que se aproximava, a permanência da Varunastra comigo seria decidida novamente, com participação do conselho e das comunidades que dependiam dela.
Segurei a Varunastra.
Águas distantes surgiram na minha percepção. Rios, mares e líquidos que eu não sabia nomear pareciam ligados pela arma. Não os controlava de imediato; apenas sabia que poderia alcançá-los se aprendesse como.
Konevan e os outros se ajoelharam. Varuna ordenou que se levantassem.
— A arma mudou de portadora, não de dona do povo.
Konevan pediu desculpas a Jafeh e Terna. Elas ouviram sem responder. Varuna garantiu que o julgamento ocorreria mesmo que partissem e ofereceu acesso ao registro quando retornassem.
Darca lembrou que várias mulheres ainda estavam presas. Varuna desfez a substância, e eu senti vergonha por não ter percebido antes.
— Para onde irá? — perguntou.
— Primeiro, levarei meu povo de volta. Depois encontrarei Athos e ouvirei os outros antes de escolher qualquer caminho.
Abri o portal e perguntei quem voltaria conosco. Darca entrou primeiro.