A Chegada de Athena
Trovar apareceu enquanto ainda distribuíamos os grupos de defesa. Uma mulher o acompanhava. Era magra, tinha os cabelos compridos e escuros e carregava na cintura um pedaço de madeira que lembrava uma varinha.
— Emma, esta é Athena. Precisamos de você e de Raquel.
Eu quis fazer perguntas sobre a mulher que dera origem a tantos mitos na Terra, mas a urgência na voz dele me conteve.
Poseidon e Hades estavam a caminho do território de Zeus. Se chegassem antes do fim do confronto entre Zeus e André, poderiam mudar o resultado. Trovar precisava que nós três os atrasássemos.
— Elaryan não pode saber que estou envolvido — acrescentou. — Nem que consigo fazer isto.
Abriu um portal sem tocar em qualquer arma.
Raquel e eu nos encaramos. Ela não esperou que eu perguntasse.
— Vamos.
Saímos no céu, diante de Poseidon e Hades. Trovar desapareceu antes que eles pudessem vê-lo.
Poseidon interrompeu o voo quando reconheceu Raquel. Ela avançou sem esperar explicações. Socos e chutes o atingiram, rápidos demais para que eu acompanhasse todos. Ele se defendeu no início, mas logo baixou os braços.
Quando tentou segurá-la, Raquel congelou o corpo dele até o pescoço.
— Não me toque.
Poseidon obedeceu.
Hades avançou para libertá-lo. Eu abri a lança e apontei para seu peito, enquanto Athena ergueu a varinha.
— Não viemos matar ninguém — disse Athena. — Só precisamos que esperem.
Hades reconheceu a voz antes do rosto.
— Athena?
Ela confirmou. Hades perdeu a postura de combate. Por alguns segundos, os dois apenas se olharam. Havia entre eles uma história que eu ainda não conhecia, marcada por mortes e desencontros.
Poseidon manteve os olhos em Raquel.
— Eu sou seu pai.
As nuvens escureceram acima de nós. Relâmpagos se abriram entre elas.
— Você me enganou, me entregou a Elaryan e tentou me levar à força — respondeu Raquel. — Não use essa palavra como se ela apagasse o resto.
— Não apaga.
Ele contou que a mãe de Raquel não era da Terra. Os dois aceitaram participar de uma experiência para que ela pudesse engravidar, mas passaram a ser caçados. Poseidon roubou o Tridente e levou a companheira para a Terra. Partiu com a intenção de afastar os perseguidores. Quando tentou voltar, um dos governantes alados de Paradise já a havia matado de modo definitivo.
Procurou a filha por diferentes planetas. Elaryan foi a primeira a lhe mostrar que Raquel continuava viva e transformou essa informação em condição para sua obediência.
— E o ataque contra nós? — perguntei. — Você sabia quem ela era quando a atingiu.
— Eu queria tirá-la do caminho de Elaryan. Pensei que conseguiria carregá-la antes que reagissem. Quando falhei, continuei atacando. Convenci a mim mesmo de que impedir o plano justificava qualquer coisa.
Lembrei-me de como ele tentara alcançar Raquel em vez de terminar a luta. A explicação dava sentido à hesitação, não a tornava aceitável.
— Você decidiu por mim do mesmo jeito que Elaryan decidiu por você — disse Raquel. — Não vou chamar isso de cuidado.
Poseidon baixou a cabeça.
— Eu sei.
Ela desfez o gelo, mas manteve distância.
Athena se aproximou de Hades. Ele perguntou onde ela estivera durante tantas vidas. Athena respondeu que contaria quando houvesse tempo e que reencontrá-lo não significava retomar tudo como antes.
O intervalo já havia cumprido o objetivo. Ao longe, uma descarga iluminou o céu no território de Zeus.
— A luta começou — disse Athena.
Hades e Poseidon partiram. Nós os seguimos. Raquel manteve-se à frente e não olhou para Poseidon.