Enquanto Isso…
Creteas e Darca assumiram a condução da comunidade durante a ausência de Emma. No início, o maior problema foram as crises de ansiedade provocadas pelo desaparecimento da rainha. Depois, todos perceberam que a cidade também havia sumido de Vésper.
As casas, os rios e as estruturas construídas para o povo da água continuavam nos mesmos lugares. O céu, porém, obedecia a outro ritmo. Creteas descartou a hipótese de ilusão: Elaryan havia transportado a comunidade inteira para outro planeta.
Com o tempo, esperar deixou de parecer prudência. As Mileniuns mais experientes queriam conhecer o território. Darca convocou uma assembleia e partiu com Jafeh, Terna, Hilda, um grupo de guerreiras conduzido por Kreta e as gigantes Ômega e Lexicos. Creteas permaneceria responsável pela cidade.
— Quase como nos velhos tempos — comentou Kreta.
— Não — respondeu Hilda. — Naquela época, sobrevivíamos em Néon. Agora escolhemos sair.
A diferença importava. Algumas haviam aprendido a controlar o ar e conseguiam voar por pequenas distâncias. Todas carregavam simbioses e técnicas que não possuíam antes. Mesmo assim, decidiram caminhar para preservar energia e observar o mundo.
Seguiram o rio na direção do maior sol. A cidade visível no horizonte parecia próxima, mas não aumentava, embora percorressem quilômetros.
— Talvez este planeta não tenha a forma que estamos acostumadas a imaginar — disse Lexicos.
No alto de uma região montanhosa, viram que a cidade ficava cercada por uma extensão de água muito maior do que esperavam. Mergulharam.
Ômega e Lexicos seguiram pelo fundo; as guerreiras alternaram a superfície e as regiões intermediárias. Foi Ômega quem encontrou uma passagem aberta no leito, iluminada por baixo.
— A chance de entrarmos e encontrarmos alguma coisa boa é pequena — disse Zenia.
— Quer voltar? — perguntou Darca.
— Não. Só quero que todas se lembrem de que eu avisei.
Jafeh mergulhou primeiro. As outras a acompanharam.
A passagem levou a uma câmara rasa, cercada por outras aberturas luminosas. Lagostas enormes surgiram pelas paredes e bloquearam cada saída.
Relâmpagos atingiram a água. As mulheres tentaram formar uma proteção eletromagnética, mas as descargas mantiveram seus pés presos ao chão. Quando algumas conseguiram flutuar, um líquido transparente caiu do teto e queimou a pele de quem tocava.
Kreta criou uma película de água ao redor do grupo. Uma das guerreiras começou a evaporar o líquido. As lagostas absorveram o vapor antes que alcançasse as passagens externas.
Quando a câmara secou, vieram rajadas de fogo. Darca tentou puxar água do lado de fora enquanto as demais a protegiam. A estrutura resistia à entrada de qualquer corrente.
Ela insistiu até gotas atravessarem as paredes. Uma onda de energia partiu de seu corpo e derrubou parte do teto.
Ômega e Lexicos avançaram para retirar as companheiras dos escombros. Antes que alcançassem todas, as lagostas assumiram formas humanas e reconstruíram a câmara. Em seguida, curaram as feridas que haviam provocado.
Uma criatura menor saiu por uma das passagens reconstruídas. Tinha o corpo baixo, pele úmida e barbatanas finas ao redor do pescoço. Parou entre os dois grupos e emitiu uma vibração grave. A eletricidade que ainda corria pelas paredes perdeu força. Algumas mulheres acertaram a respiração no ritmo do som, sem deixar de olhar para as saídas fechadas.
— Pedimos desculpas — disse um deles. — Esta é uma área de treinamento. Vocês chegaram quando iniciaríamos os testes e decidimos observar como reagiriam.
Darca não aceitou a mão oferecida.
— Atacar visitantes faz parte do treinamento?
— Faz parte da defesa.
O homem apresentou-se como Konevan e indicou Verdix, Narin, Sax, Mordecnum, Vamiric e Droud. As roupas escuras variavam apenas em pequenos detalhes de cor.
Konevan percebeu os olhares voltados para a criatura.
— É um Marul. Ele sente alterações na água e nos corpos antes de nós.
— Então percebeu que não viemos atacar — disse Darca.
— Percebeu.
— E vocês atacaram mesmo assim.
Konevan olhou para os companheiros antes de responder.
— O treinamento foi uma escolha nossa, não dele.
— Sejam bem-vindas aos domínios de Varuna.
Darca olhou para as passagens fechadas. A saudação não esclarecia se ainda eram visitantes ou prisioneiras.