Um Destino Inesperado
Quando a alga tocou meu nariz, o barulho das quedas acabou dentro de mim. A água continuava rodando, eu sabia, porque meu corpo ainda era empurrado de um lado para outro, meus braços batiam em espuma, minhas pernas procuravam chão, e a correnteza mordia meus tornozelos com a força calma de quem já tinha vencido. O som ficou longe. Leiva, Benita, Shanera, todas desapareceram atrás de uma parede verde. Tentei gritar, e a boca recebeu água de novo, muita água, limpa demais, entrando por mim com uma educação irritante. Meu peito abriu sozinho. Respirei. Aquilo me deu mais medo que a queda.
A alga se prendeu ao meu rosto sem ferir. Outras subiram das pedras e enrolaram meus pulsos, minha cintura, meu cabelo, os pedaços de roupa colados ao corpo. Tinham luz por dentro, uma luz verde e azul que acendia e apagava de acordo com algum acordo delas. Fui levada para o fundo, passando por frestas estreitas, pedras lisas, raízes brancas que saíam da rocha e voltavam para dentro dela. Quanto mais descíamos, mais quente a água ficava. Pensei em forno. Pensei em barriga. Pensei em sepultura. Nenhuma palavra serviu direito, e eu já estava cansada de procurar nome para coisa que queria me engolir.
— Emma.
A voz veio encostada no ouvido, baixa, feminina, multiplicada em várias bocas. Virei a cabeça de um lado para outro, procurando uma pessoa. Só havia alga. Algumas roçavam meu rosto, outras se abriam em folhas compridas, outras batiam uma na outra, fazendo estalos pequenos. A voz insistiu no meu nome, e eu senti raiva. Meu nome, naquele mundo, era sempre usado antes de alguma cobrança. Leiva tinha me chamado de novata. A Rainha, pelo medo das outras, parecia chamar todo mundo de propriedade. Agora aquelas plantas acesas falavam meu nome com intimidade de parente que chega tarde no velório.
— Soltem meu corpo — consegui dizer. Minha voz saiu estranha dentro da água, mais grossa, quebrada, cheia de bolhas. — Eu não pertenço a vocês.
As algas apertaram menos. Foi pouco, o bastante para mostrar que tinham entendido. Fui colocada no chão de uma gruta larga, com teto baixo e paredes cobertas por uma claridade viva. A pedra sob meus pés era lisa, riscada por sinais, números, mãos abertas, rostos sem olho. Havia marcas de faca em certos pontos. Havia também dentes presos em buracos pequenos, dentes de tamanhos diferentes, alguns humanos, outros grandes demais. A gruta tinha o asseio cruel dos lugares usados por muita gente e lavados logo depois.
— A Rainha mandou buscar você — disse a voz.
— Então me levem para ela e acabem logo com isso.
— Ela mandou buscar para tomar. Nós trouxemos para falar.
A frase ficou parada entre nós. Eu passei a língua nos dentes, procurando sangue, procurando ar, procurando qualquer coisa conhecida. A Rainha queria tomar. As algas queriam falar. Em Neon, até planta entrava em disputa antes de uma pessoa entender onde estava. Olhei para as paredes e vi uma sequência de desenhos: uma mulher de joelhos, um corpo aberto, uma criatura presa dentro de uma forma oval, uma cabeça coroada cercada por plantas. A história estava ali, feita em risco e ferida. Ninguém precisava gostar de mim para querer me usar.
— Eu não sou soldado de ninguém — falei. — Morri, acordei aqui, fui puxada por mulheres armadas, jogada em queda d'água e agora estou conversando com mato luminoso. Se isso é escolha, vocês têm um jeito muito feio de oferecer.
As luzes da gruta piscaram juntas. Por um momento, achei que as algas iam me queimar. Elas ficaram quietas. O silêncio delas me incomodou mais que qualquer ameaça. Lembrei do meu marido rindo quando eu dizia que planta também fazia birra. Lembrei da varanda de casa, dos vasos tortos, da terra grudada embaixo da unha. Eu cuidava mal das plantas, quase sempre. Regava demais ou esquecia. Mesmo assim, quando alguma vingava, eu me sentia perdoada por uma coisa pequena. Ali, as plantas tinham memória, boca e rancor.
— Muitos chegaram antes de você — disse a voz. — Muitos aceitaram a Rainha. Muitos foram abertos por ela. A Rainha aprendeu nosso corpo e fez de nós ferramenta. Ela nos usa para prender, curar, castigar, manter as mulheres vivas quando elas pedem fim.
— E vocês querem que eu faça o quê? Mate ela?
— Queremos saber se você consegue nos ouvir sem ser dona.
A palavra dona me bateu de um jeito ruim. Na Terra, eu tinha ouvido essa palavra com muitas roupas. Dona da casa. Dona do marido. Dona dos filhos. Dona do próprio destino, diziam algumas pessoas com a cara limpa de quem nunca precisou escolher entre aluguel e comida. Depois da morte dos meus meninos, dona virou uma piada. Eu nem era dona do meu sono. Agora, em outro mundo, plantas acesas me pediam uma virtude que eu nunca tinha prometido a ninguém.
Uma abertura se fez no fundo da gruta. As algas se separaram e revelaram uma forma oval presa entre três pedras. Tinha parentesco com ovo, berço e armadilha. A superfície era leitosa, cheia de veios vermelhos e azuis, e alguma coisa se mexia lá dentro. Cheguei mais perto apesar do medo. A criatura encostou uma pata na membrana. Vi garras, penas molhadas, uma cabeça estreita, olhos roxos abertos. Aquele bicho me olhou com um cansaço tão humano que eu parei de respirar por distração.
— Namos — disseram as algas. — Foi guardado para aquela que pudesse ficar com ele sem quebrá-lo.
— Eu mal consigo ficar comigo.
— Por isso talvez consiga.
A resposta me irritou. Queria uma frase simples, um aviso, uma ameaça clara. Em vez disso, deram-me uma criatura presa e uma obrigação enfiada na mão. Namos arranhou a membrana por dentro. A ponta da garra abriu um corte pequeno, e um líquido azul saiu, grosso, brilhante. A gruta inteira recuou na luz. Eu senti o cheiro antes de entender que havia cheiro debaixo d'água: sal, ferrugem, fruta passada, pele depois de febre. Minha mão se levantou sozinha, e eu odiei meu corpo por continuar aceitando convite sem minha licença.
Toquei a membrana. Namos bateu contra mim.
A dor veio intensa, estranha, cheia de dentes pequenos. Entrou pelos dedos, subiu pelo braço, mordeu o ombro, alcançou o peito. Abri a boca, e a gruta bebeu meu grito. A membrana se rompeu em pedaços claros. Namos saiu dela e grudou em mim com as patas abertas, o rosto colado ao meu pescoço, as garras tomando cuidado demais para uma criatura tão desesperada. O corpo dele tinha frio por fora e febre por dentro. Senti suas lembranças em pedaços: escuro, espera, fome contida, uma mão que tentou arrancá-lo antes da hora, a voz da Rainha, o cheiro de metal, séculos medidos pela luz das algas.
Caí de joelhos. Minhas mãos mudaram primeiro. A pele escureceu em azul vivo sobre os dedos, depois abriu manchas brancas e riscos vermelhos perto das veias. As unhas engrossaram, viraram garras curtas. O couro das costas ardeu, endureceu, e alguma coisa se acomodou ao longo da minha espinha. Namos desapareceu contra meu corpo, mas continuei sentindo o frio e o medo dele ao longo da coluna. Depois veio uma alegria pequena, bruta, quase infantil. Ele se agarrara a mim porque também havia sido deixado para trás.
— Tira ele de mim — pedi, sem força. — Tira.
— Se tirarmos agora, ele morre — disse a voz.
— Vocês sabiam.
— Sim.
A honestidade delas foi pior que mentira. Apoiei a testa na pedra, tremendo, tentando separar meu pensamento do pensamento de Namos. Ele não falava em palavras. Mandava imagens, cheiros, sustos. Quando eu respirava rápido, ele encolhia. Quando eu fechava a mão, ele mostrava água aberta. Aos poucos, entendi que ele também estava com medo de mim. A palavra Salvadora voltou a parecer ridícula.
As algas abriram uma trilha de luz até a parede maior. Ali, três figuras estavam riscadas acima de todas as outras. A primeira segurava um tridente e tinha o mar saindo dos ombros. A segunda parecia mulher e árvore ao mesmo tempo, com galhos de cristal nas costas. A terceira trazia estrelas ao redor da cabeça e fogo preso nas mãos. A voz disse os nomes devagar, Poseidon, Anysia, Astraeus. Em Neon, aquelas figuras tinham virado deuses de gelo, contadas por mulheres que chegavam de vários mundos com pedaços de lembranças dentro da boca. Talvez tivessem existido de outro jeito. Talvez fossem gente aumentada pela saudade de quem precisava acreditar em alguma ordem.
— Eles deixaram sinais — disse a voz. — A Rainha tomou os sinais para si. Nós guardamos o resto.
— E eu entro nessa história em que parte?
— Na parte que ainda pode sangrar.
Eu ri sem querer. Foi um riso feio, curto, quase tosse. Sangrar eu sabia. Perder eu sabia. Agir sem entender nada também era uma especialidade recente. A gruta clareou mais forte, e duas algas se soltaram da parede. Elas ficaram diante de mim, eriçadas, emitindo pequenos estalos. A voz pediu que eu mandasse uma atacar a outra. Olhei para as duas. Eram plantas, sim, e ao mesmo tempo tinham expectativa. Namos se mexeu dentro de mim, tenso, pronto para obedecer por hábito. A Rainha devia ter ensinado obediência a muita coisa viva naquele mundo.
— Ataquem — falei.
As duas se lançaram uma contra a outra. A água estourou em faíscas verdes. Uma delas cortou a outra no meio, e uma dor alheia entrou na minha língua, amarga, vegetal, absurda. Dei um passo para trás, enjoada. Namos endureceu junto de mim. Eu tinha dado a ordem. A violência era pequena para aquele mundo, um teste, uma amostra. Bastou. Bati a mão na pedra e gritei antes que a segunda investida começasse.
— Chega!
As algas pararam. A que tinha sido cortada juntou suas partes devagar, com ajuda das outras. Nenhuma delas me agradeceu. Ainda bem. Eu não queria gratidão de planta ferida por ordem minha. A luz da gruta diminuiu. Minha ordem também podia ser interrompida.
— A Rainha vai sentir Namos em você — disse a voz. — As guerreiras precisam ver antes dela. Precisam decidir ao lado de quem ficam quando a coroa chamar.
— Elas têm medo dela.
— Todas têm.
Pensei em Leiva, na força treinada dela, no cuidado duro com as outras, na forma como dizia Rainha sem baixar o rosto e mesmo assim mudava de respiração. Pensei em Benita erguendo a lança quando a água me fechou. Pensei em Shanera rindo antes do perigo virar sério. Eram mulheres que tinham perdido o direito de morrer. Eu tinha acabado de ganhar um bicho dentro do corpo e uma palavra absurda sobre a cabeça. Ninguém ali estava em boa posição para exigir pureza de escolha.
As algas me ergueram outra vez. Desta vez, não me prenderam com tanta força. Namos se acomodou em minha pele, deixando no braço uma marca viva, parecida com tatuagem molhada. Quando me movi, a marca se mexeu junto. Subimos rápido. A gruta ficou para trás, depois as pedras, depois a escuridão verde. O barulho das quedas voltou aos poucos, primeiro nos ossos, depois no ouvido, por fim no peito. Antes de romper a superfície, senti Namos olhar por meus olhos. Ele reconheceu o céu de Neon com um susto dolorido.
Quando minha cabeça saiu da água, Leiva estava na margem com a lança erguida. Benita vinha atrás dela. Shanera segurava Kinerta pelo braço. Todas pararam ao mesmo tempo. Eu devia estar horrível, azul em partes demais, marcada, com os olhos ardendo e garras no lugar das unhas. Quis explicar. Quis pedir uma toalha, uma bebida, uma cama, qualquer coisa comum. Minha boca ficou aberta, sem coragem para nenhuma dessas necessidades pequenas.
Leiva abaixou a lança primeiro. A voz dela saiu baixa, quebrada, cheia de uma fé que me deu vontade de fugir.
— Salvadora.