Saindo da Bolha Fúria das Águas · Capítulo 24 de 51
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Saindo da Bolha

— Bom dia, garota sonífera. Hora de acordar.

Uma mão acariciava meus cabelos. Procurei Leiva e Natane sem abrir os olhos, mas não encontrei nenhuma das duas.

Elaryan estava sentada junto à cabeceira.

— O que está fazendo aqui?

— Você parecia um lepoar dormindo. Não precisa se assustar.

Pensei que talvez ela conduzisse minhas reações pela voz.

— Leio sua mente — respondeu. — Não preciso controlar cada ação. Além de trabalhoso, controle mental costuma estragar a pessoa controlada.

O charme dela me incomodava porque funcionava. Elaryan sorriu ao perceber.

— Onde estão Leiva e Natane?

— Deixaram você descansar e foram cuidar da rotina. Acho curioso que seres capazes de viver sem tantas necessidades ainda inventem obrigações diárias.

— Essa é uma diferença entre você e Athos. Ele não trata as pessoas como inferiores por desejarem uma rotina.

Elaryan se acomodou na cama, interessada.

— Athos usa níveis para organizar o Universo e depois constrói um planeta onde promete ignorá-los. Você considera isso suficiente?

— É melhor do que decidir que os vínculos das pessoas são sinais de pouca evolução.

— Esses vínculos causarão uma crise quando todos quiserem procurar quem perderam.

— Eu também quero encontrar meu marido e meus filhos.

Elaryan me olhou com uma compaixão que parecia ensaiada.

— Você divide a vida com duas mulheres e só pensou em sua antiga família ontem. Seu marido pode amar outra pessoa. Seus filhos podem ter vivido com outros pais. O tempo pode ter passado para eles de maneira diferente.

Cada possibilidade atingia um medo real.

— Isso não elimina meu direito de procurá-los. Nem o direito deles de decidir o que fazer quando eu chegar.

— Melhor. Você começou a perceber que reencontro não é posse.

Perguntei por Athos. Elaryan disse que ele estava vivo e envolvido em missões que considerava urgentes.

— Vésper fica numa ruptura do fluxo comum — explicou. — Athos aprendeu a atravessá-la. Existem outras regiões que se comportam de modo semelhante, mas ele ainda não entende o desenho. Dependendo de onde uma passagem se abre e de quem a atravessa, um lugar continua enquanto outro para.

— E você sabe controlar isso?

— Sei me posicionar melhor do que ele. Por enquanto.

Elaryan afirmou que Athos lutava contra acontecimentos que não compreendia e insistia em salvar todos sem questionar o que sua proteção criaria.

— Se sabe fazer melhor, leve-me até o problema e permita que eu tente.

— Era isso que eu pretendia.

Ela segurou minha mão. O quarto desapareceu.

Vi ruas destruídas e casas abandonadas. Grupos de crianças se moviam entre os escombros, acompanhados por poucos adultos. Soldados com armaduras rígidas apareceram e dispararam contra um dos grupos. Os corpos desapareceram depois da morte.

— Que lugar é este?

— Um conjunto de planetas destinado a crianças que morreram antes de completar o desenvolvimento da primeira vida. Elas deveriam esperar pelos responsáveis com quem formaram vínculo e, depois do reencontro, seguir para outro destino.

Elaryan mostrou grupos separados, crianças escondidas e adultos perseguidos.

— Alguém alterou o fluxo. Pais renascem longe dos filhos. Alguns se reencontram e continuam presos. Os soldados matam as crianças para dispersá-las outra vez. Adultos só chegam diretamente aqui quando morrem muito perto da morte dos filhos.

Então vi Carlos.

Clara e Eric estavam com ele, acompanhados por muitas outras crianças.

Corri na direção dos três, chamando seus nomes. Eles não reagiram.

— Não estamos fisicamente aí — disse Elaryan.

O cenário desapareceu. Flutuávamos no espaço diante de um planeta verde.

— Consigo projetar nossa percepção, mas não atravessar a barreira. Portais são desviados e nenhuma nave rompe a atmosfera.

— Então como alguém entrou para alterar tudo?

— Essa é uma das perguntas importantes.

— O que posso fazer?

— Agora, nada. Você voltará a encontrá-los, mas não por uma passagem comum.

Fechei os olhos. Quando abri, estava novamente na cama.

Leiva e Natane entraram com frutas e um pequeno animal de quatro patas.

— Este é Lupin — anunciou Natane.

O animal pulou sobre mim e começou a lamber meu rosto. Chorei sem conseguir explicar.

— Acho que ela não gostou dele — disse Leiva.

Eu só conseguia pensar em Carlos e nas crianças.

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