Saindo da Bolha
— Bom dia, garota sonífera. Hora de acordar.
Uma mão acariciava meus cabelos. Procurei Leiva e Natane sem abrir os olhos, mas não encontrei nenhuma das duas.
Elaryan estava sentada junto à cabeceira.
— O que está fazendo aqui?
— Você parecia um lepoar dormindo. Não precisa se assustar.
Pensei que talvez ela conduzisse minhas reações pela voz.
— Leio sua mente — respondeu. — Não preciso controlar cada ação. Além de trabalhoso, controle mental costuma estragar a pessoa controlada.
O charme dela me incomodava porque funcionava. Elaryan sorriu ao perceber.
— Onde estão Leiva e Natane?
— Deixaram você descansar e foram cuidar da rotina. Acho curioso que seres capazes de viver sem tantas necessidades ainda inventem obrigações diárias.
— Essa é uma diferença entre você e Athos. Ele não trata as pessoas como inferiores por desejarem uma rotina.
Elaryan se acomodou na cama, interessada.
— Athos usa níveis para organizar o Universo e depois constrói um planeta onde promete ignorá-los. Você considera isso suficiente?
— É melhor do que decidir que os vínculos das pessoas são sinais de pouca evolução.
— Esses vínculos causarão uma crise quando todos quiserem procurar quem perderam.
— Eu também quero encontrar meu marido e meus filhos.
Elaryan me olhou com uma compaixão que parecia ensaiada.
— Você divide a vida com duas mulheres e só pensou em sua antiga família ontem. Seu marido pode amar outra pessoa. Seus filhos podem ter vivido com outros pais. O tempo pode ter passado para eles de maneira diferente.
Cada possibilidade atingia um medo real.
— Isso não elimina meu direito de procurá-los. Nem o direito deles de decidir o que fazer quando eu chegar.
— Melhor. Você começou a perceber que reencontro não é posse.
Perguntei por Athos. Elaryan disse que ele estava vivo e envolvido em missões que considerava urgentes.
— Vésper fica numa ruptura do fluxo comum — explicou. — Athos aprendeu a atravessá-la. Existem outras regiões que se comportam de modo semelhante, mas ele ainda não entende o desenho. Dependendo de onde uma passagem se abre e de quem a atravessa, um lugar continua enquanto outro para.
— E você sabe controlar isso?
— Sei me posicionar melhor do que ele. Por enquanto.
Elaryan afirmou que Athos lutava contra acontecimentos que não compreendia e insistia em salvar todos sem questionar o que sua proteção criaria.
— Se sabe fazer melhor, leve-me até o problema e permita que eu tente.
— Era isso que eu pretendia.
Ela segurou minha mão. O quarto desapareceu.
Vi ruas destruídas e casas abandonadas. Grupos de crianças se moviam entre os escombros, acompanhados por poucos adultos. Soldados com armaduras rígidas apareceram e dispararam contra um dos grupos. Os corpos desapareceram depois da morte.
— Que lugar é este?
— Um conjunto de planetas destinado a crianças que morreram antes de completar o desenvolvimento da primeira vida. Elas deveriam esperar pelos responsáveis com quem formaram vínculo e, depois do reencontro, seguir para outro destino.
Elaryan mostrou grupos separados, crianças escondidas e adultos perseguidos.
— Alguém alterou o fluxo. Pais renascem longe dos filhos. Alguns se reencontram e continuam presos. Os soldados matam as crianças para dispersá-las outra vez. Adultos só chegam diretamente aqui quando morrem muito perto da morte dos filhos.
Então vi Carlos.
Clara e Eric estavam com ele, acompanhados por muitas outras crianças.
Corri na direção dos três, chamando seus nomes. Eles não reagiram.
— Não estamos fisicamente aí — disse Elaryan.
O cenário desapareceu. Flutuávamos no espaço diante de um planeta verde.
— Consigo projetar nossa percepção, mas não atravessar a barreira. Portais são desviados e nenhuma nave rompe a atmosfera.
— Então como alguém entrou para alterar tudo?
— Essa é uma das perguntas importantes.
— O que posso fazer?
— Agora, nada. Você voltará a encontrá-los, mas não por uma passagem comum.
Fechei os olhos. Quando abri, estava novamente na cama.
Leiva e Natane entraram com frutas e um pequeno animal de quatro patas.
— Este é Lupin — anunciou Natane.
O animal pulou sobre mim e começou a lamber meu rosto. Chorei sem conseguir explicar.
— Acho que ela não gostou dele — disse Leiva.
Eu só conseguia pensar em Carlos e nas crianças.