Coloquei os olhos para fora da casa, Para tentar ver um rosto amigo. Vi as paredes de tijolos descascados, Com panfletos colados, clamando pelo povo, Recobertos pela fuligem das esteiras dos Panzer.
Tentei espiar algum movimento: Agucei os ouvidos para tentar escutar Se diziam algo aqueles velhos homens de casaco A dar miolos de pão aos cães na calçada; Se ainda havia sons na Dom Sprzyja Onde as antigas prostitutas se engalfinhavam Pelas carícias e moedas dos clientes. Tentei abrir as narinas Para captar o cheiro doce das broas de milho, O cheiro acre da peixaria às sextas O cheiro da urina dos gatos, a passear na guia.
Não consegui: o único movimento Vinha das ratazanas a arrastar pedaços Das carcaças dos Bohaterowie, ainda pelo chão. O mais alto som ainda vinha Do gorgulhar das pombas a entrar e sair Dos telhados arrancados pelas bombas, E dos buracos arrombados nos tijolos descascados. As narinas só puderam captar O resto de enxofre da pólvora, Da carne queimada dos mieszkańców, E do esperma alemão, sobre o sangue já seco Das damas da Dom Sprzyja.
Coloquei os olhos para fora da alma Para tentar ver um olhar de volta Vindo de outra alma perdida. E apenas vi olhares dispersos Dos antigos soldados, a servir de cama Para as moscas varejeiras, A lembrar-se do fim das nossas vidas, Da nossa Polska, No dia primeiro e último, em Westerplatte.
Os que destruíram já se foram; Não queriam nada aqui, apenas a destruição Pela simples destruição. O pó ainda revoa ao vento, Sem achar lugar para repousar, Nublando ainda mais o dia já nublado. Zmiłuj!... Vernichtung. Os que destruíram não destruíram Apenas casas, lojas e pessoas. Destruíram a mim. Destruíram a si mesmos. Não sou mais nada. Nem eles, tampouco.
Coloquei os olhos para fora da vida, Para tentar não ver mais; Para olhar com os olhos da saudade Aquelas tardes alegres de sol Amarelando os vermelhos tijolinhos descascados...
(Gdansk era o antigo nome da cidade polonesa de Danzig, antes da sua destruição na II Guerra. Preferi me referir ao noe original, como lembrança dos moradores mortos)
Não mereces um poema; Nenhuma palavra no Mundo poderá dar A real dimensão da tua grandeza; A verdadeira descrição da tua beleza: És bela, somente, na sua pele fresca como a manhã; Expiras alegria e paz por todos os poros, E teu sorriso contido no canto dos lábios espessos, E teu olhar suave, e teus olhos grandes e serenos Falam-me n’alma mais que qualquer jura de amor.
Por isso não mereces um poema; Qualquer poema que este tolo trovador pudesse compor, Por mais perfeito que fosse, Seria uma ofensa brutal à tua singeleza, À tua graciosidade. És divina, és muito mais do que A sabedoria humana consegue definir.
Não mereces, Amor, um poema; Mereces muito mais que isso: mereces um Amor, Que é a melhor forma que o Homem encontrou De dizer: “Muito obrigado por existires” E que, também, é o único sentimento Verdadeiramente digno de habitar o teu peito.
Não mereces poemas; E nem precisa deles; já és por demais elevada És mais que qualquer poesia; és uma oração Que a mim, pobre mortal, cabe apenas repetir, em ladainha: És, por excelência, senhora de todos os corações do Mundo Ao mesmo tempo em que és tão simples, tão pura, Qual uma criança na sua inocência; tal qual uma flor.
Não mereces poesias; Mereces ser feliz; mereces amar Mereces que a própria Criação se curve ante seus pés Para reverenciar-te, com emoção, e abençoar-te; Mereces que a própria vida que emanas do teu olhar Seja tua escrava, tua ama, a lhe fazer as vontades.
Mereces alguém que te faça feliz Mereces alguém que te sinta na pele; que te faça se sentires viva. Mereces mais que palavras, mais que gestos de carinho: Mereces um Amor Sincero.
Já não há mais poemas; Há a simples constatação de estar aqui. Há a penúria de mais detalhes; e estar sem ti Já serve de motivo para todos os temas.
Já não há mais beleza; Ou, por outra, nada é mais belo do que nada: As coisas simplesmente diferem; tu, minha amada, Não é maior que uma vadia nem menor que uma princesa.
Já não há mais poemas: Qual a razão de trovar o que já criou Deus? Tudo já existe: as loucas madrugadas, os lábios teus, Todas as respostas e todos os novos dilemas.
Já não há mais melodia: Qual o som ainda não soprado? Qual a essência Da flauta dos anjos? Não; não há ciência Que a tudo não explique, e não há, portanto, poesia.
Já não há mais nada; Mais nada: nada vale a pena Nem teu olhar escuro, nem tua pele morena, Nem teu cabelo solto nem tua boca molhada.
Já nada mais há – mas... não temas: As palavras moram sob os meus cabelos E ainda há espaço para os mais belos Poemas.
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O poema de hoje é grande. BEM grande. E complexo. BEEEM COMPLEXO. São páginas e páginas de poema em diversas línguas, rimado e estruturado. Há rimas com palavras de idiomas diferentes (são "mais-que-preciosas", eu diria). É um dos que mais gosto, mas é pra poucos. Estejam preparados... Tem muitas citações de outros poetas, alguns em português, outros na língua original, e outros, ainda, em uma terceira língua. Quem será que vai descobrir o maior número de referências?
Sou homem de uma mulher só; não sou daqueles Que às primeiras aventuras mancham o amor... Fazem do amor como que uma reles Farra de verão, sem amanhã, nem dor;
Não, não sou assim... necessito ser fiel Para estar feliz, pra me satisfazer: E apenas uma alma me levará ao céu E por ela, somente por ela, irei viver.
Só se deve ter uma mulher na vida, E é a ela que viverei a cada instante: Não se serve a dois senhores, nesta lida,
Sem que se traia ambos - este não sou eu! Sou homem de uma só mulher, e, não obstante, Sou teu.
*Para o poema a seguir, eu sugiro o seguinte: Em algum lugar desse post, eu inseri o vídeo de uma música chamada "Cantabile", de um pianista de jazz chamado Michel Peteucciani. Coloquem para ouvir, e, depois que começar, leiam o poema... Foi assim que o fiz, e percebi que, sem a conexão com a música, o poema muda um pouco o clima...
O vídeo é de 1998, uma de suas últimas apresentações.
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Brumas que se movem sobre a superfície, Dançante união dos três mundos de Escher, Flutuando no sal que há demais no Morto. O sal.
Passos que flutuam sobre a areia clara, Elefantes que se movem nas pontas dos dedos, Abanando as orelhas aos ventos do sul. O sul.
Sombras que se apoiam nas copas das árvores, Árvores ao vento, a balançar, fugazes. Folhas que planam e secam sob o sol. O sol.
Cores que se mesclam a dançar nas nuvens. Olhos que repousam sobre a sombra fresca. Asas abertas a siar no cio. O cio.
Nuvens que naufragam no azul celeste, Horizonte de eventos de onde não há mais volta. Almas de dois amantes a galgar o céu. O céu.
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Michael Peteucciani foi um pianista de jazz, um dos mais notáveis da sua geração. Ele nasceu com uma deformidade chamada "Síndrome dos ossos de vidro", que causa fragilidade óssea e impede o crescimento. Ele chegava a quebrar as falanges dos dedos ao tocar piano. Apesar disso, sempre superou a dor, e, usando um piano adaptado ao seu tamanho, nos deu interpretações maravilhosas como "Cantabile". No último dia 06, rememoramos 26 anos de sua morte; morreu aos 38 anos, por complicações da síndrome.
De repente, levantou-se da cama. Há muito não sentia o chão sob os pés. Andou sem dor; alcançou na mesa uma foto. Olhou para a cama, lar dos últimos anos, onde a foto chorava. Por fim, viu a sombra de uma velha conhecida o chamar da janela, e, sem medo, deu-lhe o braço rumo à longa viagem.