Sétimo Quadro O Pássaro Azul · Capítulo 20 de 33
Obra Menu

Sétimo Quadro

SÉTIMO QUADRO

O CEMITÉRIO

É noite. Luar. Um cemitério de aldeia. Numerosas tumbas, montículos de relva, cruzes de madeira, lajes funerárias, etc.

* * * * *

[Tyltyl e Mytyl estão de pé junto a um cipo funerário.]

MYTYL

Tenho medo.

TYLTYL, [bem pouco tranquilo.]

Eu nunca tenho medo...

MYTYL

São maus, os mortos, dize?...

TYLTYL

Ora não, já que não vivem...

MYTYL

Tu já viste algum?...

TYLTYL

Sim, uma vez, antigamente, quando eu era muito pequeno...

MYTYL

Como são, dize?...

TYLTYL

São todos brancos, muito quietos e muito frios, e não falam...

MYTYL

Vamos vê-los, dize?...

TYLTYL

Claro, já que a Luz prometeu...

MYTYL

Onde é que estão, os mortos?...

TYLTYL

Aqui, sob a relva ou sob estas grandes pedras.

MYTYL

Ficam aí o ano inteiro?...

TYLTYL

Sim.

MYTYL, [mostrando as lajes.]

Estas são as portas de suas casas?...

TYLTYL

Sim.

MYTYL

Eles saem quando faz bom tempo?...

TYLTYL

Só podem sair à noite...

MYTYL

Por quê?...

TYLTYL

Porque estão de camisola...

MYTYL

Saem também quando chove?...

TYLTYL

Quando chove, ficam em casa...

MYTYL

É bonito na casa deles, dize?...

TYLTYL

Dizem que é muito estreita...

MYTYL

Eles têm criancinhas?...

TYLTYL

Claro; têm todas as que morrem...

MYTYL

E de que vivem?...

TYLTYL

Comem raízes...

MYTYL

Nós os veremos?...

TYLTYL

Claro, já que se vê tudo quando o Diamante é girado.

MYTYL

E que dirão?...

TYLTYL

Não dirão nada, já que não falam...

MYTYL

Por que não falam?...

TYLTYL

Porque não têm nada a dizer...

MYTYL

Por que não têm nada a dizer?...

TYLTYL

Tu me aborreces...

[Um silêncio.]

MYTYL

Quando girarás o Diamante?...

TYLTYL

Bem sabes que a Luz disse para esperar até meia-noite, porque então os incomodamos menos...

MYTYL

Por que os incomodamos menos?...

TYLTYL

Porque é a hora em que saem para tomar ar.

MYTYL

Não é meia-noite?...

TYLTYL

Vês o mostrador da igreja?...

MYTYL

Sim, vejo até o ponteirinho...

TYLTYL

Pois bem! Vai soar meia-noite... Pronto!... Exatamente... Ouves?...

Ouvem-se soar as doze badaladas da meia-noite.

MYTYL

Quero ir embora!...

TYLTYL

Não é o momento... Vou girar o Diamante...

MYTYL

Não, não!... Não faças isso!... Quero ir embora!... Tenho tanto medo, irmãozinho!... Tenho um medo terrível!...

TYLTYL

Mas não há perigo...

MYTYL

Não quero ver os mortos!... Não quero vê-los!...

TYLTYL

Está bem, não os verás; fecharás os olhos...

MYTYL, [agarrando-se às roupas de Tyltyl.]

Tyltyl, não posso!... Não, não é possível!... Eles vão sair da terra!...

TYLTYL

Não tremas assim... Eles só sairão por um momento...

MYTYL

Mas tu também estás tremendo!... Eles serão assustadores!...

TYLTYL

É tempo, a hora passa...

[Tyltyl gira o Diamante. Um minuto terrível de silêncio e imobilidade; depois, lentamente, as cruzes vacilam, os montículos entreabrem-se, as lajes se erguem.]

MYTYL, [aninhando-se contra Tyltyl.]

Eles saem!... Estão aqui!...

[Então, de todas as tumbas escancaradas sobe gradualmente uma floração, a princípio tênue e tímida como um vapor de água, depois branca e virginal e cada vez mais densa, cada vez mais alta, superabundante e maravilhosa, que pouco a pouco, irresistivelmente, invadindo todas as coisas, transforma o cemitério numa espécie de jardim feérico e nupcial, sobre o qual não tardam a erguer-se os primeiros raios da aurora. O orvalho cintila, as flores desabrocham, o vento murmura nas folhas, as abelhas zumbem, os pássaros despertam e inundam o espaço com os primeiros arroubos de seus hinos ao sol e à vida. Estupefatos, deslumbrados, Tyltyl e Mytyl, de mãos dadas, dão alguns passos entre as flores, procurando o rastro das tumbas.]

MYTYL, [procurando na relva.]

Onde estão eles, os mortos?...

TYLTYL, [procurando igualmente.]

Não há mortos...

PANO

1/1
Menu

Fazer anotação