O Livro Derradeiro: Frêmitos O Livro Derradeiro · Capítulo 209 de 246
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O Livro Derradeiro: Frêmitos

Frêmitos

I

Ó pombas luminosas

Que passais neste mundo eternamente

Só a cantar os madrigais de rosas,

Atravessados de um luar veemente,

Inundados de estrelas e esplendores,

De carinhos, de bênçãos e de amores.

II

Ó virgens peregrinas,

De meigo olhar banhado de esperanças,

Que perfumais com lírios e boninas

A aurora de cristal das louras tranças,

Que atravessais constantemente a vida

Do sol eterno, da visão florida.

III

Amadas e felizes

Gêmeas da luz das frescas alvoradas,

Vós que trazeis nas almas as raízes

Do que é são, do que é puro -- ó vós amadas

Prendas gentis do paternal tesouro,

Iriados corações de fluidos de ouro.

IV

É para vós que eu quero

Engrinaldar de tropos e de rimas,

Num doce verso artístico e sincero,

Esgrimir com belíssimas esgrimas

A estrofe e dar-lhe os golpes mais seguros

Para que brilhe como uns astros puros.

V

É só a vós, apenas,

Que eu me dirijo, límpidas auroras,

Que pelas tardes plácidas, serenas,

Passais, galantes como ingênuas Floras,

Coroadas de flor de laranjeira,

Noivas, sorrindo à mocidade inteira.

VI

Porque é de vós que deve,

De vós que o sonho eterno dulcifica,

Partir o lume quando cai a neve,

Surgir a crença poderosa e rica.

Porque afinal, o que se chama crença,

Senão o amor e a caridade imensa?

VII

Os tristes e os pequenos

Em quem descansam brandamente os olhos,

Esses humildes, rotos Nazarenos

Que vivem, morrem suportando abrolhos,

Senão nos grandes entes piedosos

Que dão-lhes força aos transes dolorosos?

VIII

Oh, sim que a força eterna

Parte dos corpos rijos da saúde,

Perante a lei da vida que governa,

O nobre, o rei, o proletário rude;

Parte dos seres fartos de carinhos

Como de paz e de alegria os ninhos.

IX

Eu peço para todos

E peço a vós que sois as fortalezas

Da esperança, da fé -- a vós que os lodos

Da miséria, do vício, das baixezas,

Não denegriram essas consciências

Castas e brancas como as inocências.

X

Nem se esperar devia

Que eu tentasse bater a outras portas,

Quando vós sois o exemplo de Maria;

Não andais mudas, regeladas, mortas

Pela noite voraz da sepultura

E escutareis os dramas da amargura.

XI

Não julgueis que eu vos peça,

Uma alvorada feita de um sorriso;

A minh'alma garante e vos confessa

Que se crê nas mansões do Paraíso,

É porque vós reinais por sobre a terra

E o Paraíso dentro em vós se encerra.

XII

A vós, a vós compete

A glória do dever -- porque assim como

A luz do sol na lua se reflete,

Também das aflições no duro assomo,

Da pobreza refletem-se nas almas,

Vossas imagens, como auroras calmas.

XIII

Portanto, a mocidade

Vossa, terá de ser de hoje em diante,

Enquanto a esmagadora atrocidade

Da peste -- nos vorar d’instante a instante,

Quem se há-de encarregar desta manobra

Do galeão da vida que sossobra.

XIV

E para isso, ó rainhas

Da juventude -- tendes as quermesses

Que dão bons frutos assim como as vinhas;

As matinées de cânticos e preces,

Os cintilantes, pródigos bazares

Onde a luz salta extravasando em mares.

XV

Enquanto a mim, na arena

Da heroicidade humana que consola,

Oh, faz-me bem a vibração da pena,

Pelo amor, pelo afago, pela esmola,

Como um radiante e fulgido estilhaço

De sol febril no mármore do Espaço!

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