O Livro Derradeiro: Arte O Livro Derradeiro · Capítulo 219 de 246
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O Livro Derradeiro: Arte

Arte

Como eu vibro este verso, esgrimo e torço,

Tu, Artista sereno, esgrime e torce;

Emprega apenas um pequeno esforço

Mas sem que a Estrofe a pura idéia force.

Para que surja claramente o verso,

Livre organismo que palpita e vibra,

É mister um sistema altivo e terso

De nervos, sangue e músculos, e fibra.

Que o verso parta e gire -- como a flecha

Que d’alto do ar, aves, além, derruba;

E como os leões, ruja feroz na brecha

Da Estrofe, alvoroçando a cauda e a juba.

Para que tenhas toda a envergadura

De asa e o teu verso, de ampla cimitarra

Turca, apresente a lâmina segura,

Poeta, é mister, como os leões, ter garra.

Essa bravura atlética e leonina

Só podem ter artistas deslumbrado:

Que souberam sorver pela retina

A luz eterna dos glorificados.

Busca palavras límpidas e castas,

Novas e raras, de clarões radiosos,

Dentre as ondas mais pródigas, mais vastas

Dos sentimentos mais maravilhosos.

Busca também palavras velhas, busca,

Limpa-as, dá-lhes o brilho necessário

E então verás que cada qual corusca

Com dobrado fulgor extraordinário.nódoa

Que as frases velhas são como as espadas

Cheias de nódoa, de ferrugem, velhas

Mas que assim mesmo estando enferrujadas

Tu, grande Artista, as brunes e as espelhas.

Faz dos teus pensamentos argonautas

Rasgando as largas amplidões marinhas,

Soprando, à lua, peregrinas flautas,

Louros pagãos sob o dossel das vinhas.

Assim, pois, saberás tudo o que sabe

Quem anda por alturas mais serenas

E aprenderás então como é que cabe

A Natureza numa estrofe apenas.

Assim terás o culto pela Forma,

Culto que prende os belos gregos da Arte

E levará no teu ginete, a norma

Dessa transformação, por toda a parse.

Enche de estranhas vibrações sonoras

A tua Estrofe, majestosamente...

Põe nela todo o incêndio das auroras

Para torná-la emocional e ardente.

Derrama luz e cânticos e poemas

No verso e torna-o musical e doce

Como se o coração, nessas supremas

Estrofes, puro e diluído fosse.

Que as águias nobres do teu verve esvoacem

Alto, no Azul, por entre os sóis e as galas,

Cantem sonoras e cantando passem

Dos Anjos brancos através das alas...

E canta o amor, o sol, o mar e as rosas,

E da mulher a graça diamantina

E das altas colheitas luminosas

A lua, Juno branca e peregrine.

Vibra toda essa luz que do ar transborda

Toda essa luz nos versos vai vibrando

E na harpa do teu Sonho, corda a corda,

Deixa que as Ilusões passem cantando.

Na alma do artista, alma que trina e arrulha

Que adora e anseia, que deseja e que ama

Gera-se muita vez uma fagulha

Que se transforma numa grande chama.

Faz estrofes assim! E após na chama

Do amor, de fecundá-las e acendê-las,

Derrama em cima lágrimas, derrama,

Como as eflorescências das Estrelas...

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