A Jovem Cativa
A JOVEM CATIVA 2 (André Chenier - 1861)
— Respeita a foice a espiga que desponta; Sem receio ao lagar o tenro pâmpano Bebe no estio as lágrimas da aurora; Jovem e bela também sou; turvada A hora presente de infortúnio e tédio Seja embora: morrer não quero ainda!
De olhos secos o estóico abrace a morte; Eu choro e espero; ao vendaval que ruge Curvo e levanto a tímida cabeça. Se há dias maus, também os há felizes! Que mel não deixa um travo de desgosto? Que mar não incha a um temporal desfeito?
Tu, fecunda ilusão, vives comigo. Pesa em vão sobre mim cárcere escuro, Eu tenho, eu tenho as asas da esperança: Escapa da prisão do algoz humano, Nas campinas do céu, mais venturosa, Mais viva canta e rompe a filomela.
Deve acaso morrer ? Tranqüila durmo, Tranqüila velo; e a fera do remorso Não me perturba na vigília ou sono; Terno afago me ri nos olhos todos Quando apareço, e as frontes abatidas Quase reanima um desusado júbilo.
Desta bela jornada é longe o termo. Mal começo; e dos olmos do caminho Passei apenas os primeiros olmos. No festim em começo da existência Um só instante os lábios meus tocaram A taça em minhas mãos ainda cheia.
Na primavera estou, quero a colheita Ver ainda, e bem como o rei dos astros, De sazão em sazão findar meu ano. Viçosa, sobre a haste, honra das flores, Hei visto apenas da manhã serena Romper a luz, – quero acabar meu dia.
Morte, tu podes esperar; afasta-te! Vai consolar os que a vergonha, o medo, O desespero pálido devora. Pales inda me guarda um verde abrigo, Ósculos o amor, as musas harmonias; Afasta-te, morrer não quero ainda!" –
Assim, triste e cativa, a minha lira Despertou escutando a voz magoada De uma jovem cativa; e sacudindo O peso de meus dias langorosos, Acomodei à branda lei do verso Os acentos da linda e ingênua boca.
Sócios meus de meu cárcere, estes cantos Farão a quem os ler buscar solícito Quem a cativa foi; ria-lhe a graça Na ingênua fronte, nas palavras meigas; De um termo à vida, há de tremer, como ela, Quem aos seus dias for casar seus dias.