No Limiar
No Limiar (1863)
Caía a tarde. Do infeliz à porta, Onde mofino arbusto aparecia De tronco seco e de folhagem morta,
Ele que entrava e Ela que saía Um instante pararam; um instante Ela escutou o que Ele lhe dizia;
— Que fizeste? Teu gesto insinuante Que lhe ensinou ? Que fé lhe entrou no peito Ao mago som da tua voz amante? 10
Quando lhe ia o temporal desfeito De que raio de sol o mantiveste? E de que flores lhe forraste o leito?"–
Ela , volvendo o olhar brando e celeste, Disse: — Varre-lhe a alma desolada, Que nem um ramo, uma só flor lhe reste!
Torna-lhe, em vez da paz abençoada, Uma vida de dor e de miséria, Uma morte contínua e angustiada.
Essa é a tua missão torva e funérea. Eu procurei no lar do infortunado Dos meus olhos verter-lhe a luz etérea.
Busquei fazer-lhe um leito semeado De rosas festivais, onde tivesse Um sono sem tortura nem cuidado.
E porque o céu que mais se lhe enegrece, Tivesse algum reflexo de ventura Onde o cansado olhar espairecesse,
Uma réstia de luz suave e pura Fiz-lhe descer à erma fantasia, De mel ungi-lhe o cálix 11 da amargura.
Foi tudo vão, – foi tudo vã porfia, A ventura não veio. A tua hora Chega na hora que termina o dia. 12
Entra" – E o virgíneo rosto que descora Nas mãos esconde. Nuvens que correram Cobrem o céu que o sol já mal colora.
Ambos, com um olhar se compreenderam. Um penetrou no lar com passo ufano; Outra tomou por um desvio. Eram: Ela a Esperança, Ele o Desengano.