No Limiar Crisálidas · Capítulo 10 de 32
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No Limiar

No Limiar (1863)

Caía a tarde. Do infeliz à porta, Onde mofino arbusto aparecia De tronco seco e de folhagem morta,

Ele que entrava e Ela que saía Um instante pararam; um instante Ela escutou o que Ele lhe dizia;

— “Que fizeste? Teu gesto insinuante Que lhe ensinou ? Que fé lhe entrou no peito Ao mago som da tua voz amante? 10

“Quando lhe ia o temporal desfeito De que raio de sol o mantiveste? E de que flores lhe forraste o leito?"–

Ela , volvendo o olhar brando e celeste, Disse: — “Varre-lhe a alma desolada, Que nem um ramo, uma só flor lhe reste!

“Torna-lhe, em vez da paz abençoada, Uma vida de dor e de miséria, Uma morte contínua e angustiada.

“Essa é a tua missão torva e funérea. Eu procurei no lar do infortunado Dos meus olhos verter-lhe a luz etérea.

“Busquei fazer-lhe um leito semeado De rosas festivais, onde tivesse Um sono sem tortura nem cuidado.

“E porque o céu que mais se lhe enegrece, Tivesse algum reflexo de ventura Onde o cansado olhar espairecesse,

“Uma réstia de luz suave e pura Fiz-lhe descer à erma fantasia, De mel ungi-lhe o cálix 11 da amargura.

“Foi tudo vão, – foi tudo vã porfia, A ventura não veio. A tua hora Chega na hora que termina o dia. 12

“Entra" – E o virgíneo rosto que descora Nas mãos esconde. Nuvens que correram Cobrem o céu que o sol já mal colora.

Ambos, com um olhar se compreenderam. Um penetrou no lar com passo ufano; Outra tomou por um desvio. Eram: Ela a Esperança, Ele o Desengano.

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