Alpujarra Crisálidas · Capítulo 28 de 32
Obra Menu

Alpujarra

ALPUJARRA 10 (Mickiewicz- 1862)

Jaz em ruínas o torrão dos mouros; Pesados ferros o infeliz arrasta; Inda resiste a intrépida Granada; Mas em Granada a peste assola os povos.

C’um punhado de heróis sustenta a luta Fero Almansor nas torres de Alpujarra; Flutua perto a hispânica bandeira; Há-de o sol d’amanhã guiar o assalto.

Deu sinal, ao romper do dia, o bronze; Arrasam-se trincheiras e muralhas; No alto dos minaretes erguem-se as cruzes; Do castelhano a cidadela é presa.

Só, e vendo as coortes destroçadas, O valente Almansor após a luta Abre caminho entre as imigas lanças, Foge e ilude os cristãos que o perseguiam.

Sobre as quentes ruínas do castelo, Entre corpos e restos da batalha, Dá um banquete o Castelhano, e as presas E os despojos pelos seus reparte.

Eis que o guarda da porta fala aos chefes: “Um cavaleiro, diz, de terra estranha Quer falar-vos; – notícias importantes Declara que vos traz, e urgência pede."

Era Almansor, o emir dos Cauçulmanos, Que, fugindo ao refúgio que buscara, Vem entregar-se às mãos do castelhano, A quem só pede conservar a vida.

“Castelhanos, exclama, o emir vencido No limiar do vencedor se prostra; Vem professar a vossa fé e culto E crer no verbo dos profetas vossos.

Espalhe a fama pela terra toda Que um árabe, que um chefe de valentes, Irmão dos vencedores quis tornar-se, E vassalo ficar de estranho cetro!"

Cala no ânimo nobre ao Castelhano Um ato nobre... O chefe comovido, Corre a abraçá-lo, e à sua vez os outros Fazem o mesmo ao novo companheiro.

Às saudações responde o emir valente Com saudações. Em cordial abraço Aperta ao seio o comovido chefe, Toma-lhe as 25 mãos e pende-lhe dos lábios.

Súbito cai, sem forças, nos joelhos; Arranca do turbante, e com a mão trêmula O enrola aos pés do chefe admirado, E junto dele arrasta-se por terra.

Os olhos volve em torno e assombra a todos: Tinha azuladas, lívidas as faces, Torcidos lábios por feroz sorriso, Injetados de sangue ávidos olhos.

“Desfigurado e pálido me vedes, Ó infiéis! Sabeis o que vos trago? Enganei-vos: eu volto de Granada, E a peste fulminante aqui vos trouxe."

Ria-se ainda – morto já – e ainda Abertos tinha as pálpebras e os lábios: Um sorriso infernal de escárnio impresso Deixara a morte nas feições do morto.

Da medonha cidade os castelhanos Fogem. A peste os segue. Antes que a custo Deixado houvessem de Alpujarra a serra, Sucumbiram os últimos soldados.

1/1
Menu

Fazer anotação