Livro II - Capítulo 16
Livro II - Capítulo 16
De manhã estava chovendo. Uma névoa viera do mar sobre as montanhas. Não se viam os cumes das montanhas. O planalto estava apagado e sombrio, e as formas das árvores e das casas tinham mudado. Caminhei para além da cidade para ver o tempo. O mau tempo vinha do mar sobre as montanhas.
As bandeiras na praça pendiam molhadas dos mastros brancos, e os estandartes estavam molhados e pendiam úmidos contra a fachada das casas, e entre uma garoa constante e outra a chuva caía e empurrava todos para debaixo das arcadas e fazia poças de água na praça, e deixava as ruas molhadas e escuras e desertas; ainda assim a festa continuava sem pausa alguma. Apenas fora levada para debaixo de abrigo.
Os assentos cobertos da praça de touros estavam cheios de gente abrigada da chuva, assistindo à reunião de dançarinos e cantores bascos e navarros, e depois os dançarinos de Val Carlos, com suas roupas, dançaram pela rua abaixo sob a chuva, os tambores soando ocos e úmidos, e os chefes dos grupos indo à frente montados em seus cavalos grandes, de patas pesadas, suas roupas molhadas, os pelos dos cavalos molhados pela chuva. A multidão estava nos cafés, e os dançarinos também entraram e sentaram-se, as pernas brancas apertadamente enfaixadas debaixo das mesas, sacudindo a água de seus gorros com guizos e estendendo suas jaquetas vermelhas e roxas sobre as cadeiras para secar. Chovia forte lá fora.
Deixei a multidão no café e fui até o hotel para me barbear antes do jantar. Eu estava me barbeando no quarto quando bateram à porta.
“Entre”, chamei.
Montoya entrou.
“Como vai?”, disse ele.
“Bem”, eu disse.
“Sem touros hoje.”
“Não”, eu disse, “nada além de chuva.”
“Onde estão seus amigos?”
“No Iruña.”
Montoya sorriu seu sorriso constrangido.
“Olhe”, disse ele. “Você conhece o embaixador americano?”
“Sim”, eu disse. “Todo mundo conhece o embaixador americano.”
“Ele está aqui na cidade, agora.”
“Sim”, eu disse. “Todo mundo já os viu.”
“Eu também os vi”, disse Montoya. Ele não disse mais nada. Continuei me barbeando.
“Sente-se”, eu disse. “Deixe-me mandar vir uma bebida.”
“Não, preciso ir.”
Terminei de me barbear, abaixei o rosto na bacia e o lavei com água fria. Montoya estava ali de pé, parecendo ainda mais constrangido.
“Olhe”, disse ele. “Acabo de receber um recado deles no Grand Hotel dizendo que querem que Pedro Romero e Marcial Lalanda apareçam para tomar café hoje à noite depois do jantar.”
“Bem”, eu disse, “não pode fazer mal a Marcial.”
“Marcial passou o dia todo em San Sebastian. Foi de carro esta manhã com Marquez. Não acho que voltem hoje à noite.”
Montoya continuou de pé, constrangido. Queria que eu dissesse alguma coisa.
“Não dê o recado a Romero”, eu disse.
“Você acha?”
“Absolutamente.”
Montoya ficou muito satisfeito.
“Quis perguntar a você porque você é americano”, disse ele.
“É o que eu faria.”
“Olhe”, disse Montoya. “As pessoas pegam um rapaz assim. Não sabem quanto ele vale. Não sabem o que ele significa. Qualquer estrangeiro pode bajulá-lo. Começam com esse negócio de Grand Hotel, e em um ano estão acabados.”
“Como Algabeno”, eu disse.
“Sim, como Algabeno.”
“São um belo bando”, eu disse. “Há uma americana aqui agora que coleciona toureiros.”
“Eu sei. Só querem os jovens.”
“Sim”, eu disse. “Os velhos engordam.”
“Ou ficam loucos como Gallo.”
“Bem”, eu disse, “é fácil. Tudo o que você tem de fazer é não lhe dar o recado.”
“Ele é um rapaz tão bom”, disse Montoya. “Deve ficar com sua própria gente. Não deveria se meter nessas coisas.”
“Não quer tomar uma bebida?”, perguntei.
“Não”, disse Montoya, “preciso ir.” Ele saiu.
Desci e saí pela porta, e dei uma volta sob as arcadas ao redor da praça. Ainda chovia. Olhei no Iruña à procura do grupo e eles não estavam lá, então continuei andando ao redor da praça e voltei ao hotel. Eles estavam jantando na sala de refeições do térreo.
Eles estavam bem à minha frente e não adiantava tentar alcançá-los. Bill estava comprando engraxates para Mike. Os engraxates abriam a porta da rua e cada um que aparecia Bill chamava e punha para trabalhar em Mike.
“É a décima primeira vez que engraxam minhas botas”, disse Mike. “Eu digo, Bill é um burro.”
Os engraxates evidentemente tinham espalhado a notícia. Entrou outro.
“¿Limpia botas?”, disse ele a Bill.
“Não”, disse Bill. “Para este señor.”
O engraxate ajoelhou-se ao lado do que já estava trabalhando e começou no sapato livre de Mike, que já brilhava à luz elétrica.
“Bill é uma gargalhada”, disse Mike.
Eu bebia vinho tinto, e estava tão atrasado em relação a eles que me senti um pouco desconfortável com toda aquela engraxação. Olhei em torno da sala. Na mesa ao lado estava Pedro Romero. Ele se levantou quando fiz um sinal com a cabeça, e me pediu que fosse até lá conhecer um amigo. A mesa dele ficava ao lado da nossa, quase encostando. Conheci o amigo, um crítico taurino de Madrid, um homenzinho de rosto contraído. Disse a Romero o quanto eu gostava de seu trabalho, e ele ficou muito contente. Falávamos espanhol e o crítico sabia um pouco de francês. Estendi a mão para a nossa mesa para pegar minha garrafa de vinho, mas o crítico me segurou pelo braço. Romero riu.
“Beba aqui”, disse ele em inglês.
Ele ficava muito acanhado com seu inglês, mas na verdade estava muito satisfeito com ele, e, à medida que continuávamos a conversar, soltava palavras das quais não tinha certeza e me perguntava sobre elas. Estava ansioso por saber o equivalente em inglês para Corrida de toros, a tradução exata. Desconfiava de bull-fight. Expliquei que bull-fight em espanhol era a lidia de um toro. A palavra espanhola corrida significa em inglês a corrida dos touros, e a tradução francesa é Course de taureaux. O crítico acrescentou isso. Não há palavra espanhola para bull-fight.
Pedro Romero disse que aprendera um pouco de inglês em Gibraltar. Nascera em Ronda. Isso não fica muito acima de Gibraltar. Começara a tourear em Málaga, na escola taurina de lá. Estava nisso havia apenas três anos. O crítico taurino brincou com ele por causa da quantidade de expressões malagueñas que usava. Tinha dezenove anos, disse. Seu irmão mais velho estava com ele como banderilheiro, mas não morava naquele hotel. Morava num hotel menor, com as outras pessoas que trabalhavam para Romero. Ele me perguntou quantas vezes eu o vira na arena. Disse-lhe que apenas três. Na verdade foram só duas, mas não quis explicar depois de ter cometido o engano.
“Onde o senhor me viu da outra vez? Em Madrid?”
“Sim”, menti. Eu tinha lido as notícias sobre suas duas apresentações em Madrid nos jornais taurinos, então estava tudo bem.
“Na primeira ou na segunda vez?”
“Na primeira.”
“Eu estava muito mal”, disse ele. “Na segunda vez estive melhor. O senhor se lembra?” Virou-se para o crítico.
Ele não ficou nem um pouco embaraçado. Falava de seu trabalho como de algo inteiramente separado de si mesmo. Não havia nada de vaidoso nem de fanfarrão nele.
“Gosto muito que o senhor goste do meu trabalho”, disse ele. “Mas o senhor ainda não o viu. Amanhã, se eu pegar um bom touro, vou tentar mostrá-lo ao senhor.”
Quando disse isso, sorriu, preocupado para que nem o crítico taurino nem eu pensássemos que ele estava se gabando.
“Estou ansioso para ver”, disse o crítico. “Gostaria de me convencer.”
“Ele não gosta muito do meu trabalho.” Romero virou-se para mim. Estava sério.
O crítico explicou que gostava muito, mas que até então tinha sido incompleto.
“Espere até amanhã, se sair um bom.”
“O senhor viu os touros de amanhã?”, perguntou-me o crítico.
“Vi. Vi quando os descarregaram.”
Pedro Romero inclinou-se para a frente.
“O que achou deles?”
“Muito bonitos”, eu disse. “Umas vinte e seis arrobas. Chifres muito curtos. O senhor não os viu?”
“Ah, sim”, disse Romero.
“Não vão pesar vinte e seis arrobas”, disse o crítico.
“Não”, disse Romero.
“Têm bananas no lugar dos chifres”, disse o crítico.
“O senhor chama aquilo de bananas?”, perguntou Romero. Virou-se para mim e sorriu. “O senhor não chamaria aquilo de bananas?”
“Não”, eu disse. “São chifres, sem dúvida.”
“São muito curtos”, disse Pedro Romero. “Muito, muito curtos. Mas ainda assim não são bananas.”
“Escute, Jake”, Brett chamou da mesa ao lado, “você nos abandonou.”
“Só temporariamente”, eu disse. “Estamos falando de touros.”
“Você é superior.”
“Diga a ele que touros não têm bolas”, gritou Mike. Estava bêbado.
Romero olhou para mim, interrogativo.
“Bêbado”, eu disse. “Borracho! Muy borracho!”
“Você podia apresentar seus amigos”, disse Brett. Ela não tinha parado de olhar para Pedro Romero. Perguntei a eles se gostariam de tomar café conosco. Ambos se levantaram. O rosto de Romero era muito moreno. Ele tinha modos muito agradáveis.
Apresentei todos uns aos outros, e eles começaram a se sentar, mas não havia espaço suficiente, então todos nos mudamos para a mesa grande junto à parede para tomar café. Mike pediu uma garrafa de Fundador e copos para todos. Houve muita conversa de bêbados.
“Diga a ele que acho escrever uma porcaria”, disse Bill. “Vá, diga a ele. Diga a ele que tenho vergonha de ser escritor.”
Pedro Romero estava sentado ao lado de Brett e a escutava.
“Vá. Diga a ele!”, disse Bill.
Romero ergueu os olhos, sorrindo.
“Este senhor”, eu disse, “é escritor.”
Romero ficou impressionado. “Este outro também”, eu disse, apontando para Cohn.
“Ele parece Villalta”, disse Romero, olhando para Bill. “Rafael, ele não parece Villalta?”
“Não vejo isso”, disse o crítico.
“De verdade”, disse Romero em espanhol. “Parece muito com Villalta. O que faz o bêbado?”
“Nada.”
“É por isso que bebe?”
“Não. Está esperando para se casar com esta senhora.”
“Diga a ele que touros não têm bolas!”, gritou Mike, muito bêbado, da outra ponta da mesa.
“O que ele diz?”
“Está bêbado.”
“Jake”, chamou Mike. “Diga a ele que touros não têm bolas!”
“Você entende?”, eu disse.
“Sim.”
Eu tinha certeza de que ele não entendia, então estava tudo bem.
“Diga a ele que Brett quer vê-lo vestir aquelas calças verdes.”
“Cale a boca, Mike.”
“Diga a ele que Brett está morrendo de vontade de saber como ele consegue entrar naquelas calças.”
“Cale a boca.”
Enquanto isso, Romero mexia no copo com os dedos e conversava com Brett. Brett falava francês e ele falava espanhol e um pouco de inglês, e ria.
Bill enchia os copos.
“Diga a ele que Brett quer entrar...”
“Ah, cale a boca, Mike, pelo amor de Deus!”
Romero ergueu os olhos, sorrindo. “Cale a boca! Eu sei essa”, disse ele.
Foi então que Montoya entrou na sala. Começou a sorrir para mim, depois viu Pedro Romero com um copo grande de conhaque na mão, sentado rindo entre mim e uma mulher de ombros nus, numa mesa cheia de bêbados. Nem sequer inclinou a cabeça.
Montoya saiu da sala. Mike estava de pé, propondo um brinde. “Vamos todos beber a...” começou. “Pedro Romero”, eu disse. Todos se levantaram. Romero levou aquilo muito a sério, e tocamos os copos e bebemos, eu um pouco depressa, porque Mike tentava deixar claro que não era aquilo, de modo algum, que ele ia brindar. Mas tudo saiu bem, e Pedro Romero apertou a mão de todos, e ele e o crítico saíram juntos.
“Meu Deus! Ele é um rapaz lindo”, disse Brett. “E como eu gostaria de vê-lo entrar naquela roupa. Deve usar uma calçadeira.”
“Eu comecei a dizer a ele”, começou Mike. “E Jake ficava me interrompendo. Por que você me interrompe? Acha que fala espanhol melhor do que eu?”
“Ah, cale a boca, Mike! Ninguém interrompeu você.”
“Não, eu gostaria de resolver isso.” Ele se virou, afastando-se de mim. “Você acha que é alguma coisa, Cohn? Acha que pertence aqui entre nós? Gente que saiu para se divertir? Pelo amor de Deus, não seja tão barulhento, Cohn!”
“Ah, deixa disso, Mike”, disse Cohn.
“Você acha que Brett quer você aqui? Acha que acrescenta alguma coisa à festa? Por que não diz nada?”
“Eu disse tudo o que tinha a dizer na outra noite, Mike.”
“Não sou um desses sujeitos literários.” Mike ficou de pé, cambaleante, e se apoiou na mesa. “Não sou esperto. Mas sei quando não sou querido. Por que você não percebe quando não é querido, Cohn? Vá embora. Vá embora, pelo amor de Deus. Leve essa cara triste de judeu daqui. Não acham que estou certo?”
Ele olhou para nós.
“Claro”, eu disse. “Vamos todos ao Iruña.”
“Não. Não acham que estou certo? Eu amo essa mulher.”
“Ah, não comece de novo com isso. Anda logo com isso, Michael”, disse Brett.
“Você não acha que estou certo, Jake?”
Cohn continuava sentado à mesa. Seu rosto tinha aquele tom amarelado, pálido, que ficava quando era insultado, mas de algum modo ele parecia estar gostando. Aquelas bravatas infantis de bêbado. Era o caso dele com uma dama de título.
“Jake”, disse Mike. Estava quase chorando. “Você sabe que estou certo. Escute aqui, você!” Virou-se para Cohn: “Vá embora! Vá embora agora!”
“Mas eu não vou, Mike”, disse Cohn.
“Então eu faço você ir!” Mike começou a dar a volta na mesa na direção dele. Cohn levantou-se e tirou os óculos. Ficou esperando, o rosto pálido, as mãos bastante baixas, esperando o ataque com orgulho e firmeza, pronto para lutar por sua amada.
Agarrei Mike. “Vamos ao café”, eu disse. “Você não pode bater nele aqui no hotel.”
“Ótimo!”, disse Mike. “Ótima ideia!”
Saímos. Olhei para trás enquanto Mike tropeçava ao subir a escada e vi Cohn pondo os óculos de novo. Bill estava sentado à mesa, servindo mais um copo de Fundador. Brett estava sentada, olhando fixamente para o nada.
Lá fora, na praça, a chuva tinha parado e a lua tentava atravessar as nuvens. Soprava um vento. A banda militar tocava, e a multidão se concentrava do outro lado da praça, onde o especialista em fogos de artifício e seu filho tentavam soltar balões de fogo. Um balão começava a subir aos arrancos, muito inclinado, e era rasgado pelo vento ou levado contra as casas da praça. Alguns caíam na multidão. O magnésio flamejava e os fogos explodiam e corriam pela multidão. Não havia ninguém dançando na praça. O cascalho estava molhado demais.
Brett saiu com Bill e se juntou a nós. Ficamos na multidão e observamos Don Manuel Orquito, o rei dos fogos de artifício, de pé numa pequena plataforma, acendendo cuidadosamente os balões com varas, acima da cabeça da multidão, para lançar os balões ao vento. O vento derrubava todos, e o rosto de Don Manuel Orquito estava suado à luz de seus fogos complicados, que caíam na multidão e avançavam e corriam, crepitando e estalando, por entre as pernas das pessoas. As pessoas gritavam a cada nova bolha luminosa de papel que oscilava, pegava fogo e caía.
“Estão zombando de Don Manuel”, disse Bill.
“Como sabe que ele é Don Manuel?”, disse Brett.
“O nome está no programa. Don Manuel Orquito, o pirotécnico de esta ciudad.”
“Globos illuminados”, disse Mike. “Uma coleção de globos illuminados. Foi o que dizia o jornal.”
O vento levava para longe a música da banda.
“Olhe, eu queria que um deles subisse”, disse Brett. “Esse tal Don Manuel está furioso.”
“Provavelmente trabalhou semanas preparando aquilo para explodir, soletrando ‘Viva San Fermín’”, disse Bill.
“Globos illuminados”, disse Mike. “Um bando de malditos globos illuminados.”
“Vamos”, disse Brett. “Não podemos ficar aqui.”
“Sua senhoria quer beber”, disse Mike.
“Como você sabe das coisas”, disse Brett.
Lá dentro, o café estava lotado e muito barulhento. Ninguém notou nossa entrada. Não conseguimos achar uma mesa. Havia um barulho enorme.
“Vamos, vamos sair daqui”, disse Bill.
Lá fora, o paseo seguia sob a arcada. Havia alguns ingleses e americanos vindos de Biarritz, com roupas esportivas, espalhados pelas mesas. Algumas mulheres olhavam as pessoas que passavam com lornhões. Em algum momento, tínhamos adquirido uma amiga de Bill de Biarritz. Ela estava hospedada com outra moça no Grand Hotel. A outra moça estava com dor de cabeça e tinha ido para a cama.
“Aqui está o boteco”, disse Mike. Era o Bar Milano, um bar pequeno e bruto onde se podia comer e onde dançavam no salão dos fundos. Sentamo-nos todos a uma mesa e pedimos uma garrafa de Fundador. O bar não estava cheio. Não acontecia nada.
“Este lugar é dos infernos”, disse Bill.
“É cedo demais.”
“Vamos pegar a garrafa e voltar mais tarde”, disse Bill. “Não quero ficar sentado aqui numa noite como esta.”
“Vamos olhar os ingleses”, disse Mike. “Adoro olhar os ingleses.”
“São horríveis”, disse Bill. “De onde saíram todos eles?”
“Vêm de Biarritz”, disse Mike. “Vêm ver o último dia da pequena e pitoresca festa espanhola.”
“Eu dou festa a eles”, disse Bill.
“Você é uma moça extraordinariamente bonita.” Mike virou-se para a amiga de Bill. “Quando chegou aqui?”
“Pare com isso, Michael.”
“Eu digo, ela é uma moça linda. Onde eu estava? Para onde eu estava olhando todo esse tempo? Você é uma coisa linda. Nós já nos conhecemos? Venha comigo e Bill. Vamos fazer uma festa com os ingleses.”
“Eu dou festa a eles”, disse Bill. “Que diabos eles estão fazendo nesta festa?”
“Vamos”, disse Mike. “Só nós três. Vamos fazer uma festa com os malditos ingleses. Espero que você não seja inglesa. Eu sou escocês. Odeio os ingleses. Vou fazer uma festa com eles. Vamos, Bill.”
Pela janela nós os vimos, os três de braços dados, indo em direção ao café. Foguetes subiam na praça.
“Vou ficar aqui sentada”, disse Brett.
“Fico com você”, disse Cohn.
“Ah, não!”, disse Brett. “Pelo amor de Deus, vá para algum lugar. Você não vê que Jake e eu queremos conversar?”
“Não vi”, disse Cohn. “Pensei em sentar aqui porque estou um pouco alto.”
“Que razão infernal para se sentar com alguém. Se você está alto, vá para a cama. Vá logo para a cama.”
“Fui rude o suficiente com ele?”, perguntou Brett. Cohn tinha ido embora. “Meu Deus! Estou tão cansada dele!”
“Ele não acrescenta muita alegria.”
“Ele me deprime tanto.”
“Ele se comportou muito mal.”
“Mal pra diabo. Teve a chance de se comportar tão bem.”
“Provavelmente está esperando logo do lado de fora da porta agora.”
“Sim. Ele faria isso. Sabe, eu sei como ele se sente. Ele não consegue acreditar que não significou nada.”
“Eu sei.”
“Ninguém mais se comportaria tão mal. Ah, estou tão cansada dessa história toda. E Michael. Michael também tem sido adorável.”
“Tem sido terrivelmente difícil para Mike.”
“Sim. Mas ele não precisava ser um porco.”
“Todo mundo se comporta mal”, eu disse. “Basta dar a oportunidade certa.”
“Você não se comportaria mal.” Brett olhou para mim.
“Eu seria tão burro quanto Cohn”, eu disse.
“Querido, não vamos falar um monte de bobagens.”
“Está bem. Fale do que quiser.”
“Não seja difícil. Você é a única pessoa que eu tenho, e me sinto bastante horrível esta noite.”
“Você tem Mike.”
“Sim, Mike. Ele não tem sido bonito?”
“Bem”, eu disse, “tem sido terrivelmente difícil para Mike, com Cohn por perto e vendo-o com você.”
“Eu não sei disso, querido? Por favor, não me faça sentir pior do que já me sinto.”
Brett estava nervosa como eu nunca a tinha visto antes. Continuava desviando os olhos de mim e olhando para a parede à frente.
“Quer dar uma caminhada?”
“Sim. Vamos.”
Coloquei a rolha na garrafa de Fundador e a dei ao barman.
“Vamos tomar mais uma dose disso”, disse Brett. “Meus nervos estão podres.”
Cada um de nós bebeu um copo do brandy amontillado suave.
“Vamos”, disse Brett.
Quando saímos pela porta, vi Cohn sair de sob a arcada.
“Ele estava lá”, disse Brett.
“Ele não consegue ficar longe de você.”
“Pobre-diabo!”
“Não tenho pena dele. Eu o odeio.”
“Eu também o odeio”, ela estremeceu. “Odeio aquele sofrimento maldito dele.”
Seguimos de braço dado pela rua lateral, afastando-nos da multidão e das luzes da praça. A rua estava escura e molhada, e fomos por ela até as fortificações na beira da cidade. Passamos por tabernas, com luz saindo das portas para a rua preta e molhada, e súbitas explosões de música.
“Quer entrar?”
“Não.”
Atravessamos a relva molhada e subimos ao muro de pedra das fortificações. Estendi um jornal sobre a pedra e Brett se sentou. Do outro lado da planície estava escuro, e podíamos ver as montanhas. O vento passava no alto e levava as nuvens por diante da lua. Abaixo de nós estavam os fossos escuros das fortificações. Atrás ficavam as árvores e a sombra da catedral, e a cidade recortada contra a lua.
“Não fique mal”, eu disse.
“Estou um inferno”, disse Brett. “Não vamos falar.”
Ficamos olhando a planície. As longas fileiras de árvores estavam escuras ao luar. Havia as luzes de um carro na estrada que subia a montanha. Lá em cima, no topo da montanha, vimos as luzes do forte. Abaixo, à esquerda, ficava o rio. Estava cheio por causa da chuva, preto e liso. As árvores estavam escuras ao longo das margens. Ficamos sentados, olhando. Brett encarava em frente. De repente, ela estremeceu.
“Está frio.”
“Quer voltar andando?”
“Pelo parque.”
Descemos. O céu tornava a se cobrir. No parque estava escuro sob as árvores.
“Você ainda me ama, Jake?”
“Amo”, eu disse.
“Porque estou perdida”, disse Brett.
“Como?”
“Estou perdida. Estou louca pelo rapaz Romero. Acho que estou apaixonada por ele.”
“Eu não estaria, se fosse você.”
“Não posso evitar. Estou perdida. Isso está me rasgando toda por dentro.”
“Não faça isso.”
“Não posso evitar. Nunca consegui evitar nada.”
“Você devia parar com isso.”
“Como posso parar? Eu não consigo parar as coisas. Sente?”
A mão dela tremia.
“Estou assim por inteira.”
“Você não devia fazer isso.”
“Não posso evitar. Agora estou perdida de qualquer maneira. Não vê a diferença?”
“Não.”
“Tenho que fazer alguma coisa. Tenho que fazer alguma coisa que eu realmente queira fazer. Perdi o respeito por mim mesma.”
“Você não precisa fazer isso.”
“Oh, querido, não seja difícil. O que você acha que significou ter aquele maldito judeu por perto, e Mike agindo daquele jeito?”
“Claro.”
“Não posso simplesmente ficar bêbada o tempo todo.”
“Não.”
“Oh, querido, por favor, fique comigo. Por favor, fique comigo e me ajude a passar por isto.”
“Claro.”
“Não digo que seja certo. Mas para mim é certo. Deus sabe, nunca me senti tão vadia.”
“O que você quer que eu faça?”
“Venha”, disse Brett. “Vamos procurar por ele.”
Juntos descemos pelo caminho de cascalho do parque, no escuro, sob as árvores; depois saímos de debaixo das árvores, passamos pelo portão e entramos na rua que levava para a cidade.
Pedro Romero estava no café. Sentava-se a uma mesa com outros toureiros e críticos de tourada. Fumavam charutos. Quando entramos, levantaram os olhos. Romero sorriu e inclinou-se. Nós nos sentamos a uma mesa no meio da sala.
“Peça para ele vir tomar uma bebida.”
“Ainda não. Ele vem.”
“Não consigo olhar para ele.”
“É bonito de se olhar”, eu disse.
“Sempre fiz exatamente o que eu queria.”
“Eu sei.”
“Eu me sinto tão vadia.”
“Bem”, eu disse.
“Meu Deus!”, disse Brett, “as coisas pelas quais uma mulher passa.”
“É?”
“Oh, eu me sinto tão vadia.”
Olhei para a outra mesa. Pedro Romero sorriu. Disse alguma coisa às outras pessoas em sua mesa e se levantou. Veio até a nossa mesa. Levantei-me e apertamos as mãos.
“Não quer tomar alguma coisa?”
“O senhor precisa tomar alguma coisa comigo”, disse ele. Sentou-se, pedindo permissão a Brett sem dizer nada. Tinha modos muito bons. Mas continuou fumando o charuto. Combinava bem com o rosto dele.
“Você gosta de charutos?”, perguntei.
“Oh, sim. Sempre fumo charutos.”
Fazia parte do sistema de autoridade dele. Fazia-o parecer mais velho. Reparei em sua pele. Era limpa e lisa e muito morena. Havia uma cicatriz triangular no osso da face. Vi que ele observava Brett. Sentia que havia alguma coisa entre eles. Deve ter sentido quando Brett lhe deu a mão. Estava sendo muito cuidadoso. Acho que tinha certeza, mas não queria se enganar.
“Você toureia amanhã?”, eu disse.
“Sim”, ele disse. “Algabeno se feriu hoje em Madri. Soube?”
“Não”, eu disse. “Grave?”
Ele balançou a cabeça.
“Nada. Aqui”, mostrou a mão. Brett estendeu a sua e abriu-lhe os dedos.
“Oh!”, disse ele em inglês, “você lê a sorte?”
“Às vezes. Você se importa?”
“Não. Gosto.” Ele abriu a mão sobre a mesa. “Diga que vou viver para sempre e ser milionário.”
Ainda era muito cortês, mas estava mais seguro de si. “Olhe”, disse ele, “você vê touros na minha mão?”
Ele riu. A mão dele era muito bonita e o pulso era pequeno.
“Há milhares de touros”, disse Brett. Ela já não estava nem um pouco nervosa. Estava linda.
“Bom”, riu Romero. “A mil duros cada um”, disse-me em espanhol. “Diga mais.”
“É uma boa mão”, disse Brett. “Acho que ele vai viver muito tempo.”
“Diga isso para mim. Não para o seu amigo.”
“Eu disse que você viveria muito tempo.”
“Eu sei”, disse Romero. “Nunca vou morrer.”
Bati com as pontas dos dedos na mesa. Romero viu. Balançou a cabeça.
“Não. Não faça isso. Os touros são meus melhores amigos.”
Traduzi para Brett.
“Você mata seus amigos?”, ela perguntou.
“Sempre”, ele disse em inglês, e riu. “Para que não me matem.” Olhou para ela do outro lado da mesa.
“Você sabe bem inglês.”
“Sim”, ele disse. “Bem, às vezes. Mas não devo deixar ninguém saber. Seria muito ruim, um toureiro que fala inglês.”
“Por quê?”, perguntou Brett.
“Seria ruim. As pessoas não gostariam. Ainda não.”
“Por que não?”
“Elas não gostariam. Toureiros não são assim.”
“Como são os toureiros?”
Ele riu, baixou o chapéu sobre os olhos, mudou o ângulo do charuto e a expressão do rosto.
“Como ali na mesa”, disse. Dei uma olhada. Ele havia imitado exatamente a expressão de Nacional. Sorriu, o rosto natural outra vez. “Não. Preciso esquecer o inglês.”
“Não esqueça ainda”, disse Brett.
“Não?”
“Não.”
“Muito bem.”
Ele riu de novo.
“Eu gostaria de um chapéu desses”, disse Brett.
“Bom. Vou arranjar um para você.”
“Certo. Veja se arranja.”
“Vou. Vou arranjar um hoje à noite.”
Levantei-me. Romero levantou também.
“Sente-se”, eu disse. “Preciso ir procurar nossos amigos e trazê-los para cá.”
Ele olhou para mim. Foi um olhar definitivo para perguntar se estava entendido. Estava entendido, sim.
“Sente-se”, disse Brett a ele. “Você precisa me ensinar espanhol.”
Ele se sentou e olhou para ela do outro lado da mesa. Saí. As pessoas de olhos duros na mesa dos toureiros me viram sair. Não foi agradável. Quando voltei e olhei dentro do café, vinte minutos depois, Brett e Pedro Romero tinham ido embora. Os copos de café e nossos três copos vazios de conhaque estavam sobre a mesa. Um garçom veio com um pano, recolheu os copos e limpou a mesa.