Parte Primeira - Capítulo III Pindorama · Capítulo 3 de 22
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Parte Primeira - Capítulo III

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quadragésimo terceiro dia da expedira C ção, uma voz inopinada interrompeu os pensamentos e sonhos do moço fidalgo.

O piloto descera do castello ás pressas, e trepando ao chapitéo, clamava para o almirante :

— Senhor capitão-mór, senhor capitãomór, vejo signaes de terra!....

— Terra?! perguntou o capitão, erguendo a comprida barba luzidia para encarar o piloto.

Tripulação, officiaes, homens d'armas, todos se volveram para o chapitéo, repetindo a palavra magica, num rapto de alegria incoercível.— Quaes eram esses signaes, quiz saber o almirante, sem demora.

— A loeste, senhor... continuou o piloto, af firmando.

A face de Cerveira illuminou-se. — Acaso mais uma surpreza do Oceano? perguntava entre si. Escutava, entretanto, no meio do borborinho que os besteiros, degradados e marujos levantavam na tolda, nos castellos, no convez, em todos os recessos da capitanea.

— Olhas, senhor capitão-mór, se não são aves, assim a modo de alcatrazes ou caláos?

O capitão mirou fixamente o espaço. No fundo azul, onde já se accentuavam as tonalidades sombrias do crepúsculo, esvahiam-se uns como pequenos frocos, voando, voando. Nenhuma, duvida poz.

— Aves, de certo.

O piloto convidou-o a chegar á mareagem do navio. Acompanharam-no ofhciaes, o capellão, o escrivão, o meirinho e Fernão Cerveira. Debruçados á borda, interrogavam as ondas, emquanto o piloto, convencido, mostrava no borbulhão torrencial outros indícios , flagrantes de terra propinqua. Eram, de facto, vegetações marinhas, a bodelha conhecida dos marujos abalisados. — Mas que terra seria essa, ao occidente?!

Ia o sol mergulhando na magnifica apotheose do occaso, e como um fanal divino seus últimos raios, pegando fogo a larga faixa de stratus, ficaram ainda por muito tempo orientando a caravella com essa chamma de rubis ardentes e ouro derretido.

Por fim, apagou-se toda a luz do céo. A noite alastrou. Scintillaram estrellas, bordando no velludo negro do firmamento asterismos imprevistos, nunca dantes contemplados pelo olhar dos velhos mareantes.

Extrema anciedade reinava a bordo, espancando o somno dos camarins. Grupos de chimeras, sonhos cambiantes bailaram toda a noite á volta dos cérebros insomnes ou mal dormidos da matalotagem e do capitão-mór.

Mas que terra era essa? repetia, acordado, sobre a sua camilha, o aventureiro fidalgo. Seria uma nova Africa, infestada de bandidos negros, disformes e intratáveis, a cujas atrocidades teriam os portuguezes que responder com o arco das bestas e o trovão das bombardas? Seria outra índia povoada de castas gentias e traiçoeiras, aonde as quinas deveriam, a ferro e fogo, embora, levar o baptismo da civilisaçâo christan ?

Sua fantasia navegava adeante da frota,

e emquanto os companheiros de expedição ardiam de impaciência pelo alvorecer da manhan, elle traçava no espaço a configuração de um paiz imaginário a emergir lento e lento das sombras do cariz, e adivinhava nessa terra occidental um theatro de próximas conquistas para o sceptro do seu rei e para a cruz do seu Deus.

Até que, emfim, começou a aurora a desdobrar, risonha e fresca, as suas purpuras e os seus brocados multicores.

Era na oitava de Paschoa. Tinham cessado os echos das trombetas, que rasgaram saudações á alvorada; a bordo da capitanea ia um referver de anciedades. O meirinho dava-se a perros para impor a disciplina. Os olhos não se cansavam de fitar naquelle segmento do vasto circulo verde e azul, naquella zona celeste por onde se afundira o sol, na véspera, com aquelle esplendor e solennidade de arauto.

Amanheceu.

A voz do capellão congregou em torno da Cruz a guarnição mal soffrida, a quem edificou, longamente, com a lição uos Evangelhos. Finda a homilia, velejando a armada, sempre com o favor do Galerno, reapparece-

ram no espaço, como gageiros alados, as mesmas aves marítimas. O sol a pino chapeava o oceano. A maruja irrequieta, falava, gesticulava, na espectativa cTaquella terra incógnita, cujas miragens entrevia no prisma allucinatorio das ondas.

Continuavam os navios a demandar rumo de oeste, farejando praias. O capitão, o escrivão, Cerveira e officiaes, no alto do chapitéo viam subir ao topo do mastro um grumete mandado a explorar o horisonte.

O astrolábio medira a latitude e a lonçitude. As sondas preparavam-se para cahir n'agua. O sonho da levantina esvaecera por então no cérebro do cavalleiro.

Mais uma vez o almirante verificou as distancias entre a capitanea e a conserva. Poz-se a nomear as caravellas, apontando-as — Annunciatq... . Victoria... . Espirito Santo... . Flor de la Mar.... E com o piloto ventilava hypotheses, quando lá de cima do mastro rompeu o grito sonoro do grumete, ann iniciando:

— Terra !

Desta vez a emoção da equipagem foi de espanto. O brado repercutiu no bojo do navio e transbordou pelo espaço como um

IMNDORAMA

carrilhão de Alleluia. — «Terra!» «Terra!» Terra!» Ao clamor dos homens em delirio respondeu o hymno das trombetas e charamelas.

O sol baixava lentamente.

Da extrema occidental, no claro -escuro da tarde, ia subindo, aboleado, o cabeço de um monte longínquo.

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