Capítulo II - De como vivia então a gente O Chapéu de Três Bicos · Capítulo 4 de 38
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Capítulo II - De como vivia então a gente

Capítulo II - De como vivia então a gente

Na Andaluzia, por exemplo (pois precisamente aconteceu numa cidade da Andaluzia o que ides ouvir), as pessoas de suposição continuavam levantando-se muito cedo; indo à Catedral à missa de prima, embora não fosse dia de preceito; almoçando, às nove, um ovo frito e uma xícara de chocolate com torradas; comendo, de uma a duas da tarde, cozido e prato de entrada, se houvesse caça, e, se não, apenas cozido; dormindo a sesta depois de comer; passeando em seguida pelo campo; indo ao Rosário, entre duas luzes, em sua respectiva paróquia; tomando outro chocolate à hora da Oração (este com biscoitos); assistindo os muito encopetados à tertúlia do corregedor, do deão ou do titular que residia na povoação; recolhendo-se a casa às Ânimas; fechando o portão antes do toque de recolher; ceando salada e guisado por antonomásia, se não haviam entrado anchovas frescas; e deitando-se incontinenti com sua senhora (os que a tinham), não sem antes mandar aquecer a cama durante nove meses do ano...

Felicíssimo tempo aquele em que nossa terra seguia na quieta e pacífica posse de todas as teias de aranha, de todo o pó, de toda a traça, de todos os respeitos, de todas as crenças, de todas as tradições, de todos os usos e de todos os abusos santificados pelos séculos! Felicíssimo tempo aquele em que havia na sociedade humana variedade de classes, de afetos e de costumes! Felicíssimo tempo, digo..., para os poetas especialmente, que encontravam um entremez, um sainete, uma comédia, um drama, um auto sacramental ou uma epopeia atrás de cada esquina, em vez desta prosaica uniformidade e deste insosso realismo que afinal nos legou a Revolução Francesa! Felicíssimo tempo, sim!...

Mas isto é voltar à velha cantilena. Basta já de generalidades e circunlóquios, e entremos resolutamente na história do Chapéu de Três Bicos.

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