Capítulo XXII - Garduña se multiplica O Chapéu de Três Bicos · Capítulo 24 de 38
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Capítulo XXII - Garduña se multiplica

Capítulo XXII - Garduña se multiplica

Quando Garduña chegou ao moinho, o Corregedor começava a voltar a si, procurando levantar-se do chão.

No chão também, e ao seu lado, estava o lampião aceso que Sua Senhoria descera do quarto.

-- Ela já foi embora? -- foi a primeira frase de dom Eugenio.

-- Quem?

-- O demônio!... Quero dizer, a Moleira...

-- Sim, senhor... Já foi embora... e não creio que estivesse de muito bom humor...

-- Ai, Garduña! Estou morrendo...

-- Mas o que tem Vossa Senhoria? Pela vida dos homens!...

-- Caí no canal e estou feito uma sopa... Os ossos estão se partindo de frio!

-- Ora, ora! Agora me vem com essa!

-- Garduña!... Veja lá o que diz!...

-- Não digo nada, senhor...

-- Pois bem: tire-me deste aperto...

-- Vou voando... Vossa Senhoria verá como arrumo tudo depressa!

Assim disse o Alguazil, e, num abrir e fechar de olhos, pegou a luz com uma mão e com a outra meteu o Corregedor debaixo do braço; subiu-o ao quarto; pô-lo em pelo; deitou-o na cama; correu ao lagar; reuniu uma braçada de lenha; foi à cozinha; fez um grande fogo; desceu todas as roupas de seu amo; colocou-as nos espaldares de duas ou três cadeiras; acendeu uma lamparina; pendurou-a na espeteira e tornou a subir à câmara.

-- Como vamos? -- perguntou então a dom Eugenio, erguendo bem alto o lampião para lhe ver melhor o rosto.

-- Admiravelmente! Sinto que vou suar! Amanhã eu enforco você, Garduña!

-- Por quê, senhor?

-- E ainda se atreve a me perguntar? Acha você que, seguindo o plano que me traçou, eu esperava me deitar sozinho nesta cama, depois de receber pela segunda vez o sacramento do batismo? Amanhã mesmo eu o enforco!

-- Mas conte-me alguma coisa, Vossa Senhoria... A sinhá Frasquita?...

-- A sinhá Frasquita quis me assassinar. É tudo o que consegui com seus conselhos! Já lhe disse que o enforco amanhã de manhã.

-- Há de ser algo menos, senhor Corregedor! -- tornou o Alguazil.

-- Por que diz isso, insolente? Porque me vê aqui prostrado?

-- Não, senhor. Digo porque a sinhá Frasquita não deve ter se mostrado tão desumana como Vossa Senhoria conta, pois foi à cidade buscar-lhe um médico...

-- Deus santo! Tem certeza de que foi à cidade? -- exclamou dom Eugenio, mais aterrorizado que nunca.

-- Pelo menos, foi o que ela me disse...

-- Corra, corra, Garduña! Ah! Estou perdido sem remédio! Sabe para que a sinhá Frasquita vai à cidade? Para contar tudo à minha mulher!... Para lhe dizer que estou aqui! Oh, meu Deus, meu Deus! Como eu havia de imaginar isso? Eu pensei que ela teria ido ao povoado em busca do marido; e, como o tenho lá bem guardado, nada me importava sua viagem! Mas ir à cidade!... Garduña, corra, corra... você que é andarilho, e evite minha perdição! Evite que a terrível Moleira entre em minha casa!

-- E Vossa Senhoria não me enforcará se eu conseguir? -- perguntou ironicamente o Alguazil.

-- Ao contrário! Eu lhe darei de presente uns sapatos em bom uso, que me ficam grandes. Darei tudo o que quiser!

-- Pois vou voando. Durma tranquilo, Vossa Senhoria. Dentro de meia hora estou de volta, depois de deixar a navarra na cadeia. Para alguma coisa sou mais ligeiro que uma burrica!

Disse Garduña, e desapareceu escada abaixo.

Salta aos olhos que, durante aquela ausência do Alguazil, foi quando o Moleiro esteve no moinho e viu visões pelo buraco da fechadura.

Deixemos, pois, o Corregedor suando em leito alheio, e Garduña correndo para a cidade (para onde tão logo o seguiria o Tio Lucas com chapéu de três bicos e capa de grã), e, transformados também nós em andarilhos, voemos em direção ao povoado, no encalço da valorosa sinhá Frasquita.

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