Capítulo XVII - Um alcaide de monterilla O Chapéu de Três Bicos · Capítulo 19 de 38
Obra Menu

Capítulo XVII - Um alcaide de monterilla

Capítulo XVII - Um alcaide de monterilla

O senhor Juan López, que como particular e como alcaide era a tirania, a ferocidade e o orgulho personificados (quando tratava com seus inferiores), dignava-se, no entanto, àquelas horas, depois de despachar os assuntos oficiais e os de sua lavoura e de dar em sua mulher a surra cotidiana, a beber um cântaro de vinho em companhia do secretário e do sacristão, operação que já ia mais da metade naquela noite quando o moleiro compareceu à sua presença.

-- Olá, Tio Lucas! -- disse-lhe ele, coçando a cabeça para excitar nela a veia das mentiras. -- Como vai de saúde? Vejamos, secretário; sirva um copo de vinho ao Tio Lucas! E a senhora Frasquita? Conserva-se tão bonita? Faz tempo que não a vejo! Mas, homem..., como a moagem anda saindo bem agora! O pão de centeio parece de trigo branco! Portanto... vamos... sente-se e descanse; graças a Deus, não temos pressa.

-- De minha parte, maldita seja ela! -- respondeu o Tio Lucas, que até então não havia descolado os lábios, mas cujas suspeitas eram cada vez maiores ao ver a recepção amistosa que lhe faziam depois de uma ordem tão terrível e urgente.

-- Pois então, Tio Lucas -- continuou o alcaide --, visto que o senhor não tem grande pressa, dormirá aqui esta noite, e amanhã cedo despacharemos o nosso assuntinho...

-- Parece-me bem... -- respondeu o Tio Lucas, com uma ironia e uma dissimulação que em nada ficavam devendo à diplomacia do senhor Juan López. -- Visto que a coisa não é urgente..., passarei a noite fora de casa.

-- Nem urgente, nem perigosa para o senhor -- acrescentou o alcaide, enganado por aquele que julgava enganar. -- Pode ficar completamente tranquilo. Escute, Toñuelo... Puxe para cá essa meia-fanega, para que o Tio Lucas se sente.

-- Então... venha outro trago! -- exclamou o moleiro, sentando-se.

-- Pois venha! -- replicou o alcaide, estendendo-lhe o copo cheio.

-- Está em boa mão... Beba a metade.

-- Pois à sua saúde! -- disse o senhor Juan López, bebendo metade do vinho.

-- À sua, senhor alcaide -- replicou o Tio Lucas, esgotando a outra metade.

-- Vejamos, Manuela! -- gritou então o alcaide de monterilla. -- Diga à sua ama que o Tio Lucas fica aqui para dormir. Que lhe ponha um travesseiro no celeiro...

-- Nada disso... De modo nenhum! Eu durmo no palheiro como um rei.

-- Veja que temos travesseiros...

-- Ora, acredito! Mas para que incomodar a família? Eu trouxe meu capote...

-- Pois, senhor, como quiser. Manuela! Diga à sua ama que não ponha nada...

-- O que o senhor vai me permitir -- continuou o Tio Lucas, bocejando de modo atroz -- é que eu me deite em seguida. Ontem à noite tive muita moagem, e ainda não preguei os olhos...

-- Concedido! -- respondeu majestosamente o alcaide. -- Pode recolher-se quando quiser.

-- Creio que também é hora de nos recolhermos -- disse o sacristão, espiando dentro do cântaro de vinho para calcular o que restava. -- Já devem ser dez horas... ou pouco menos.

-- Quinze para as dez... -- notificou o secretário, depois de repartir nos copos o resto do vinho correspondente àquela noite.

-- Pois a dormir, cavalheiros! -- exclamou o anfitrião, esgotando sua parte.

-- Até amanhã, senhores -- acrescentou o moleiro, bebendo a sua.

-- Espere que o alumiem... Toñuelo! Leve o Tio Lucas ao palheiro.

-- Por aqui, Tio Lucas!... -- disse Toñuelo, levando também o cântaro, caso lhe restassem algumas gotas.

-- Até amanhã, se Deus quiser -- acrescentou o sacristão, depois de escorrer todos os copos.

E saiu cambaleando e cantando alegremente o De profundis.

*

-- Pois, senhor... -- disse o alcaide ao secretário quando ficaram a sós. -- O Tio Lucas não suspeitou de nada. Podemos nos deitar descansados, e... bom proveito faça ao Corregedor!

1/1
Menu

Fazer anotação