Capítulo VII - O fundo da felicidade
Capítulo VII - O fundo da felicidade
Adoravam-se, sim, loucamente o moleiro e a moleira, e até se haveria crido que ela o queria mais a ele do que ele a ela, não obstante ser ele tão feio e ela tão formosa. Digo-o porque a sinhá Frasquita costumava ter ciúmes e pedir contas ao tio Lucas quando este tardava muito em regressar da cidade ou dos povoados aonde ia buscar grão, ao passo que o tio Lucas via até com gosto as atenções de que era objeto a sinhá Frasquita por parte dos senhores que frequentavam o moinho; ufanava-se e regozijava-se de que a todos ela agradasse tanto quanto a ele; e, embora compreendesse que no fundo do coração alguns deles a invejavam, a cobiçavam como simples mortais e teriam dado qualquer coisa para que ela fosse menos mulher de bem, deixava-a sozinha dias inteiros sem o menor cuidado, e nunca lhe perguntava depois o que fizera nem quem estivera ali durante sua ausência...
Não consistia aquilo, entretanto, em que o amor do tio Lucas fosse menos vivo que o da sinhá Frasquita. Consistia em que ele tinha mais confiança na virtude dela do que ela na dele; consistia em que ele a aventajava em penetração, e sabia até que ponto era amado e quanto sua mulher respeitava a si mesma; e consistia principalmente em que o tio Lucas era todo um homem: um homem como o de Shakespeare, de poucos e indivisíveis sentimentos; incapaz de dúvidas; que cria ou morria; que amava ou matava; que não admitia gradação nem trânsito entre a suprema felicidade e o extermínio de sua dita.
Era, enfim, um Otelo de Múrcia, de alpargatas e barrete, no primeiro ato de uma possível tragédia...
Mas para que estas notas lúgubres numa tonadilha tão alegre? Para que estes relâmpagos fatídicos numa atmosfera tão serena? Para que estas atitudes melodramáticas num quadro de gênero?
Vais sabê-lo imediatamente.