Capítulo V - Um homem visto por fora e por dentro O Chapéu de Três Bicos · Capítulo 7 de 38
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Capítulo V - Um homem visto por fora e por dentro

Capítulo V - Um homem visto por fora e por dentro

O tio Lucas era mais feio que Pício. Fora-o a vida inteira, e já tinha perto de quarenta anos. Contudo, poucos homens tão simpáticos e agradáveis terá Deus lançado ao mundo. Encantado com sua vivacidade, seu engenho e sua graça, o falecido bispo o pediu a seus pais, que eram pastores, não de almas, mas de verdadeiras ovelhas. Morto Sua Ilustríssima, e tendo o moço deixado o seminário pelo quartel, o General Caro distinguiu-o entre todo o seu exército e o fez seu ordenança mais íntimo, seu verdadeiro criado de campanha. Cumprido, enfim, o empenho militar, foi tão fácil ao tio Lucas render o coração da sinhá Frasquita como fácil lhe fora captar o apreço do general e do prelado. A navarra, que tinha então vinte primaveras e era a menina dos olhos de todos os rapazes de Estella, alguns deles bastante ricos, não pôde resistir aos contínuos donaires, às chistosas ocorrências, aos olhinhos de macaco enamorado e ao sorriso bufão e constante, cheio de malícia, mas também de doçura, daquele murciano tão atrevido, tão loquaz, tão avisado, tão disposto, tão valente e tão gracioso, que acabou por transtornar o juízo não só da cobiçada beldade, mas também de seu pai e de sua mãe.

Lucas era então, e continuava sendo na data a que nos referimos, de pequena estatura (ao menos em relação à mulher), um pouco curvado de ombros, muito moreno, imberbe, narigudo, orelhudo e marcado de bexigas. Em compensação, sua boca era regular e sua dentadura, inigualável. Dir-se-ia que só a casca daquele homem era tosca e feia; que, tão logo se começava a penetrar dentro dele, apareciam suas perfeições, e que essas perfeições principiavam nos dentes. Depois vinha a voz, vibrante, elástica, atraente; varonil e grave algumas vezes, doce e melosa quando pedia algo, e sempre difícil de resistir. Chegava depois o que aquela voz dizia: tudo oportuno, discreto, engenhoso, persuasivo... E, por último, na alma do tio Lucas havia valor, lealdade, honradez, senso comum, desejo de saber e conhecimentos instintivos ou empíricos de muitas coisas, profundo desdém pelos néscios, qualquer que fosse sua categoria social, e certo espírito de ironia, de burla e de sarcasmo, que o faziam passar, aos olhos do acadêmico, por um D. Francisco de Quevedo em bruto.

Tal era por dentro e por fora o tio Lucas.

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