I. Opportunidade de leval-a a efeito. - Tratado do Brasil com a Bolívia - Abertura do Amazonas. - Navegação a vapor no baixo Madeira até a primeira das Cachoeiras. - Falta transpol-as para lançar o vapor no alto Madeira e nos seus afluentes navegáveis da Bolívia e do Brasil. Apontamentos sobre a Via de Comunicação do Rio Madeira · Capítulo 2 de 7
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I. Opportunidade de leval-a a efeito. - Tratado do Brasil com a Bolívia - Abertura do Amazonas. - Navegação a vapor no baixo Madeira até a primeira das Cachoeiras. - Falta transpol-as para lançar o vapor no alto Madeira e nos seus afluentes navegáveis da Bolívia e do Brasil.

I.

Opportunidade de leval-a a efeito. — Tratado do Brasil com a Bolívia — Abertura do Amazonas. — Navegação a vapor no baixo Madeira até a primeira das Cachoeiras. — Falta transpol-as para lançar o vapor no alto Madeira e nos seus afluentes navegáveis da Bolívia e do Brasil.

Dois grandes acontecimentos, desses que fazem época na história das nações, se realizárão no decurso do ano de 1867, ambos de influencia transcendente no sentido de estreitar as relações amistosas de dois estados sul-americanos, resolvendo as divergencias, que por acaso entre eles existissem, e predispondo a comunidade dos interesses comerciais, que no estado da civilisação actual é o mais seguro penhor da paz e da amizade dos povos e tambem dos governos que a estes representão.

Um foi o tratado de amizade, limites, navegação e comércio entre o Imperio do Brasil e a republica da Bolívia, celebrado em La Paz aos 27 de Março e definitivamente concluido pela troca das ratificações dos dois governos a 22 de Setembro do ano passado; o outro o decreto do governo imperial de 7 de Dezembro de 1866 abrindo as águas do Amazonas aos navios mercantes de todas as nações, o que já se verificou no memoravel dia 7 de Setembro daquelle mesmo ano.

Corollario de tão importantes factos será sem duvida o desenvolvimento rapido das transações comerciais entre o Brasil e a Bolívia, as quaes, iniciadas desde muitos anos, têm sido até hoje peadas em seu incremento pela barreira ingente, que intercepta a via de comunicação natural existente entre os dois países. São as cachoeiras, que obstruem o curso dos rios Madeira e Mamoré entre os 8 1/2 e 11 gráos de latitude sul, oppondo difficuldades quasi insuperaveis ao trânsito do comércio da Bolívia para o Atlantico pelas águas francamente navegáveis do baixo Madeira e do grandioso Amazonas.

Romper este obstaculo ou desvial-o, é abrir as portas da vasta bacia do alto Madeira; é juntar a navegação do immenso valle do maior dos rios, cujo tronco se estende desde o centro do Perú até o Oceano, abrangendo por seus innumeraveis ramos terras do Equador, da Colombia, de Venezuela e do Brasil, desde seus confins septentrionaes e ocidentaes até o próprio coração, com a navegação do Mamoré e seus afluentes, que de um lado tambem se interna no territorio brasileiro até encontrar na serra dos Parecis as vertentes do rio Paraguai, e de outro irradia em diversas direcções até às encostas, e inda além até aos cumes dos Andes, regando com placida corrente as dilatadas planicies da parte mais rica da Bolívia; finalmente, é completar praticamente o grande pensamento de paz e de união internacional, há pouco formulado e consagrado no referido tratado de navegação e comércio e no decreto da abertura do Amazonas.

Desde muito o governo e o povo da Bolívia mirão a navegação a vapor dos tributarios do Alto Madeira e a comunicação facil daí com o Atlantico como uma necessidade indeclinavel do progresso moral e material da republica e como a base da prosperidade futura de suas ferteis províncias do Oriente.

Já nos fins do seculo passado, em 1792, quando ainda dominava o regimen colonial, o sabio naturalista Tadeu Haenke, apresentou ao governo hespanhol o projecto de navegar os rios da Bolívia. Em 1833, o governo da republica instituia premios para os primeiros barcos a vapor que sulcassem seus rios; em 1843 e 1851, o congresso autorisava o poder executivo a despender até a somma de 200. 000 pesos nos serviços concernentes à mesma navegação e em 1853, declarando-a livre ao comércio e aos navios de todas as nações, renovava a offerta de premios aos que primeiro a emprehendessem, accrescendo a isto largas concessões de terras.

A opinião publica, manifestada quér na imprensa periodica e nos escriptos dos homens mais illustrados da Bolívia, quér por meio de obras praticas, tem sempre acompanhado neste assumpto às vistas do governo. Assim é que não faltão memorias e outras publicações demonstrando as innumeras vantagens da comunicação do Madeira e muitas explorações e até alguns trabalhos de construção hão sido executados tanto nos rios que della fazem parte, como nas vias terrestres que a eles conduzem. Testemunhão-no, entre muitos outros factos, as explorações do naturalista francez Alcide de Orbigni, patrocinadas pelo governo da Bolívia; as do parocho de Exaltacion, Dr. D. Ramon Eustaquio Duran e de D. José Agustin Palacios, governador de Mojos, que ambos navegárão as cachoeiras do Madeira; a tentativa do cidadão Tudela para abrir um caminho breve de Cochabamba ao Beni e recentemente, em 1864, os trabalhos da companhia Securé, a fim de realizar o mesmo objecto ligando aquela capital às margens do affluente do Mamoré, cujo nome a sociedade tomou.

Estes poucos factos bastão para provar que a ideia da utilisação effectiva da via do Madeira tem sido a aspiração constante da Bolívia desde os primeiros anos de sua independencia e parece indubitavel que, se o vapor já não cursa hoje as águas de seus rios, é porque seria quasi impossivel transportal-o subindo as 17 arriscadas cachoeiras, que os separão das águas accessiveis do baixo Madeira.

De sua parte o Brasil, de alguns anos a esta parte, não tem poupado trabalho e capital a fim de chegar à realização da mesma ideia. Desde 1851 que a companhia do Amazonas, generosamente subvencionada pelo governo imperial, percorre as águas do maximo rio, cruzando em seu trajecto a embocadura do Madeira.

Em 1864, o engenheiro J. M. da Silva Coutinho chegou em um vapor brasileiro ao pé da cachoeira de Santo Antônio e dahi, embarcado em canôa, explorou na subida e na descida este e todos os outros empecilhos que se succedem até chegar ao de Guajaramirim no rio Mamoré.

No ano proximo findo, por decreto de 22 de Junho, o governo imperial subvencionou a uma companhia que se propõe estabelecer uma linha regular de vapores no baixo Madeira até áquella primeira cachoeira[1], e quasi ao mesmo tempo mandava uma expedição scientifica, dirigida por dois distinctos engenheiros, no intuito de averiguar, por meio de medições hidrograficas exactas, a possibilidade de canalisar a secção das cachoeiras, ou, em caso negativo, de abrir-lhes um desvio por terra.

[1] Estamos scientes pelos ultimos jornaes do Brasil que o Sr. Brito e Amorim, concessionario desta navegação, já conseguiu reunir na praça do Pará o capital necessário à mesma empresa.

Há pois, tanto na Bolívia como no Brasil, o mais vivo empenho de comunicar-se facil e effectivamente pela via do Madeira, e ainda que lentamente, a execução desta empresa vai caminhando a seu desejado fim.

Os successos do ano de 1867 tendem sobretudo a imprimir-lhe mais vitalidade. A politica e a diplomacia a estipulárão por actos solemnes e a iniciativa individual, auxiliada pelo governo do Brasil, promette que em breve o vapor percorrerá todo o baixo Madeira e aportará junto ao degráo inferior da região das cachoeiras.

Conseguido isto, restará sómente franqueal-as artificialmente por agua ou por terra, a fim de ir tambem lançar o poderoso motor nas águas superiores do Madeira.

Esta é a obra, que cumpre atacar com vigor desde logo, não deixando escapar a opportunidade presente em que acontecimentos diversos parecem promovel-a e apressal-a.

A utilidade, que della resultará no sentido de crear e desenvolver a industria e o comércio nos países a que vai servir, é incontestavel. Não há que discutil-a quanto a seus efeitos sociaes e civilizadores. Falta sómente apresental-a por sua face pratica, propagal-a como empresa lucrativa, revelar suas vantagens economicas, demonstrar sua exequibilidade immediata e attrahir sobre ela a attenção de emprehendedores e capitalistas. É sob tal ponto de vista que nestes apontamentos nos propomos estudal-a, posto que baldos de informações suficientes e conscios de nossa incapacidade para preencher a tarefa que emprehendemos como conviria à importancia subida do assumpto.

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