VI. Que circulação é necessária para retribuir ao capital da empresa - Deducção do trafego de que precisa a estrada das cachoeiras. - O mesmo trafego é mais que suficiente para sustentar a navegação a vapor. - Probabilidades de que ele se verifique na linha do Madeira. - Necessidade de auxílios à empresa por parte dos governos interessados. - Em que podem consistir. - Solução a mais simplificada do melhoramento da comunicação do Madeira. - Conclusão. Apontamentos sobre a Via de Comunicação do Rio Madeira · Capítulo 7 de 7
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VI. Que circulação é necessária para retribuir ao capital da empresa - Deducção do trafego de que precisa a estrada das cachoeiras. - O mesmo trafego é mais que suficiente para sustentar a navegação a vapor. - Probabilidades de que ele se verifique na linha do Madeira. - Necessidade de auxílios à empresa por parte dos governos interessados. - Em que podem consistir. - Solução a mais simplificada do melhoramento da comunicação do Madeira. - Conclusão.

VI.

Que circulação é necessária para retribuir ao capital da empresa — Deducção do trafego de que precisa a estrada das cachoeiras. — O mesmo trafego é mais que suficiente para sustentar a navegação a vapor. — Probabilidades de que ele se verifique na linha do Madeira. — Necessidade de auxílios à empresa por parte dos governos interessados. — Em que podem consistir. — Solução a mais simplificada do melhoramento da comunicação do Madeira. — Conclusão.

Das duas obras, que tem de efetuar a empresa da comunicação regular do Madeira, a de mais monta e cujo valor é menos susceptivel de reducção é a estrada das cachoeiras. Para ser viavel por carros, ela difficilmente poderá ser mais barata do que foi avaliada, e a condição de prestar-se ao transporte sobre rodas é imprescindivel para obter-se o baixo preço dos transportes e para que a via possa aperfeiçoar-se para diante sem mudar de direcção, mas sómente por modificações mais ou menos profundas em seu estado primitivo.

A navegação a vapor, ao contrario, exigindo para seu estabelecimento sómente um terço da importancia da estrada, sem haver tamanha desigualdade entre os fretes respectivos, evidentemente poderá sustentar-se e até auferir lucro de um trafego menos avultado do que o que aquela necessita para os mesmos efeitos. E quando tal não acontecesse, a empresa da navegação, não tendo como a da estrada a necessidade forçosa de construir e conservar uma via apropriada a seu serviço, pois que aproveita a natural dos rios, gosa da faculdade de proporcionar até certo ponto seus gastos à grandeza do trafego, reduzindo o numero dos seus vapores ao estrictamente preciso ou mesmo estabelecendo que, em vez de serem as viagens mensaes ou em curtos periodos, tenhão lugar sómente quando haja carregamento completo para os barcos, num ou em outro sentido.

É, pois, presumivel que o trafego, que bastar para cobrir o custeio e o interesse do capital da estrada, em todo o caso chegará para as mesmas despesas concernentes à navegação a vapor; asserto que se evidencia melhor dos calculos em que vamos entrar, principiando por deduzir a quantidade de mercadorias, que deve transitar na estrada das cachoeiras para cobrir a despesa annual que lhe compete, e mostrando em seguida que a mesma frequentação dá tambem rendimento suficiente para equilibrar as despesas das carreiras de vapores, organisadas no pé em que as supozemos.

A despesa annual de uma empresa qualquer de viação, em estado de serviço normal, consta em geral de duas parcellas em que se podem incluir todos os differentes desembolsos.

Uma é a do custeio, comprehendendo quaesquer quantias que se empreguem na direcção e administração da empresa, na conservação e reparação da via e do material de transporte, nos salarios do pessoal e em outros fins semelhantes.

A outra parcella é a do serviço do capital, que consiste na importancia de seu juro, à qual se junta ordinariamente uma quota, ou para fundo de reserva, a fim de ocorrer a futuras reformas ou melhoramentos na via ou no material, ou para a amortisação progressiva do capital desde que se decide começal-a. A esta parte deve satisfazer a renda liquida da empresa, que não é senão a differença entre a renda bruta ou o rendimento total dos transportes e as despesas do custeio.

Se, como é de crer, sendo uma companhia que tome a si estabelecer a estrada e a navegação do Alto Madeira, attenta a escassez de capitaes e ao pouco espirito emprehendedor que há nos países mais interessados nessas obras, ela se constituir com capitaes europeus, o juro de 7% ao ano, pode ser considerado como bastante remunerativo.

Supondo que alem deste interesse se destine annualmente 1% do capital, seja para sua amortisação paulatina, seja para fundo de reserva, vem a ser de 8% do mesmo capital a quantia a que deve montar a renda liquida da empresa ou a sobra de sua renda bruta, feita a deducção das despesas do custeio.

Quanto a estas despesas, para cada especie de caminho, evidentemente varião com a quantidade do trafego; porém, tem-se observado que nas empresas de viação, administradas regular e economicamente, e onde a circulação não é inferior nem excede à capacidade do sistema de transporte, dá-se uma certa relação entre o importe do custeio e a renda bruta, a qual não varia notavelmente embora o trafego cresça ou decresça dentro de certos limites.

Assim é que em todas as vias férreas, em estado de exploração normal, cujo trafego é bastante avultado para tirar um partido proficuo da locomoção a vapor, o importe do custeio oscilla nas immediações do valor de 50% ou metade da renda bruta, sendo por conseguinte igual à renda liquida que a outra metade representa.

Este dado nos servirá de fundamento para arbitrarmos um valor aproximado à despesa do custeio do madeiro carril das cachoeiras, onde em razão de ser mais onerosa a conservação do que numa via férrea, assim como a tracção de animaes relativamente à de locomotivas, é razoavel supor que o custeio absorverá, em vez de 50% ou metade, 66, 6% ou 2/3 do rendimento total do trafego.

Em tal hipothese, o terço restante será a quantia correspondente à renda liquida, igual por conseguinte à metade do importe do custeio.

E, pois que a dita renda liquida equivale, como supozemos, a 8% do capital, e sendo ele no caso presente de 1. 500 contos ou 750. 000 pesos; eis como se comporá a renda bruta annual:

Renda liquida, 8% do capital de 750. 000 pesos $60. 000

Despezas do custeio $120. 000

Renda bruta $180. 000

Ora, ficou dito que o frete de uma arroba de carga em todo o trajecto das 60 leguas do madeiro-carril das cachoeiras pagaria 60 centavos ou 1$200, à razão de 20 réis ou um centavo por legua.

Como o trafego em geral cursará toda a linha, não levando em conta senão o de mercadorias, facil é deduzir sua grandeza em arrobas dividindo a importancia do rendimento total pelo preço do transporte da mesma unidade de carga.

Deste modo acha-se que é necessária a circulação de 300. 000 arrobas de mercadorias nos dois sentidos do trajecto, para que a empresa do madeiro-carril em questão consiga manter-se com sua propria renda, dando demais o lucro liquido de 8% do capital empregado em sua fundação.

Agora na condição de ser de 300. 000 arrobas o trafego do desvio das cachoeiras, é possivel averiguar por meio de uma estimativa aproximada que é suficiente a quantia de 120. 000 pesos ou 240 contos de réis para cobrir as despesas annuaes do custeio. Com efeito, a nosso ver, estas despesas podem ser orçadas da fórma que se segue:

Conservação da via.

Em 60 leguas à razão de 1. 000 pesos ou 2 contos de réis por legua 60. 000

Serviço dos transportes, etc.

100 jornaleiros, carroceiros, carregadores, serventes, etc., pagos à razão do preço medio de 200 pesos ou 400$000 por ano 20. 000

Conservação, reparo e renovação de todo o material, carros, estações, etc., 10 por cento de seu valor orçado em 50. 000 pesos 5. 000

Sustento de 200 animaes à razão de 100 pesos por ano para cada um 120. 000

Remonta dos mesmos de 5 em 5 anos, 20 por cento de seu custo avaliado em 10. 000 pesos 2. 000

Somma 107. 000

Saldo para gastos de administração 13. 000

Total 120. 000

quantia que, portanto, satisfaz a todas as exigencias do custeio.

Cumpre em seguida ver como o mesmo trafego de 300. 000 arrobas tambem será lucrativo para a navegação a vapor.

Não levando em conta senão as duas carreiras principais que propuzemos; a 1. ^a que, servindo a Exaltacion, Trinidad e Loreto termina em Vinchuta, porto que será a saída da cidade de Cochabamba e por ela do centro e do norte da Bolívia; e a 2. ^a, que fazendo escala tambem naquellas povoações, se destina a conduzir o comércio da cidade de Santa Cruz de la Sierra e por intermedio della o de Sucre, capital da republica, e a de suas províncias meridionaes, suporemos que em cada uma das citadas linhas haja movimento igual de negocios, e recordaremos que de Guajaramirim, termo da estrada das cachoeiras, a Vinchuta o frete foi avaliado em 25 cents. ou 500 rs. e que o daquelle porto ao do Rio Grande, fronteiro a Santa Cruz, o foi em 45 cents. ou 900 rs.

O termo medio destes fretes sóbe a 35 cents. ou 700 rs., preço que na hipothese que indicamos de haver trafego igual nas duas linhas, representa o valor medio do frete da navegação a vapor.

Reduzil-o-hemos porem a 30 centavos ou 600 rs. atendendo que na frequentação, quer da linha de Guajaramirim a Vinchuta, quer na que vae a Santa Cruz, terá alguma parte o comércio de Trinidad, Loreto, Exaltacion etc., cujos fretes rasoavelmente devem ser inferiores aos citados, de cuja fusão resultou aquela media.

Sendo pois de 30 centavos ou 600 rs. o frete geral de cada arroba de carga na navegação do alto Madeira, o trafego annual de 300. 000 arrobas vem a produzir a renda bruta de 90. 000 pesos ou 180 contos de réis, somma que facil é demonstrar, excede à necessária para equilibrar o custeio e deixar o lucro liquido de 8 por cento ao capital, aplicado no material da navegação e em todos os seus acessórios, que admittimos fosse quando muito de 250. 000 pesos ou 500 contos.

De facto, subtrahidos os 8 por cento desta somma, que montão a 20. 000 pesos ou 40 contos, de 90. 000 pesos ou 180 contos, total do rendimento dos transportes, sobrão 70. 000 pesos ou 140 contos para cubrir as despesas do custeio.

Na suposição de que se faça uma viagem redonda por mês em cada uma das linhas referidas, estimamos como segue os gastos respectivos:

1. ^a Linha de Guajaramirim a Vinchuta.

Distancia 500 milhas. Subida em 72 horas.

Descida em 48. Viagem redonda 120 horas.

Despeza mensal de um vapor da força de 50 cavallos e porte de 150 a 200 toneladas:

Tripolação[23] $ 750

Combustivel[24] $ 300

Despezas diversas $ 200

Somma $ 1250

[23] Consideramos a tripulação de cada vapor composta como segue e tendo os soldos designados;

1 mestre $ 100; 1 piloto $ 50; 1 machinista $ 150; 1 foguista $ 50; 16 homens de tripulação a $ 25 pesos por mês — $ 400. Somma $ 750; como foi adoptado acima.

[24] A despesa de combustivel fui calculada sobre a base da media de alguns dados relativos ao consumo de lenha dos vapores da companhia do Amazonas. Deduzimos assim que uma machina de 50 cavallos consumiria, na media, 125 achas por hora, cujo valor foi calculado pelo preço comum no Amazonas, isto é $ 20 ou 40$000 rs. por milheiro.

2. ^a linha. — De Guajaramirim ao porto de Santa Cruz. Distancia 870 milhas. Subida 130 horas. Descida 90. Viagem redonda 220 horas.

Despeza mensal para um vapor nas condições precitadas:

Tripolação $ 750

Combustivel $ 550

Despezas diversas $ 200

Somma $ 1. 500

Logo nas 12 viagens redondas do ano se despenderia:

Na 1. ^a linha $ 15. 000

Na 2. ^a » $ 18. 000

Total $ 33. 000

Confrontada esta somma com a de 70. 000 pesos, que, como se vio acima, fica disponivel para o custeio, deduz-se o excesso de 37. 000 pesos por ano, quantia mais que suficiente para ocorrer aos gastos do serviço das lanchas a vapor e das embarcações menores, conservação e renovação do material, manutenção dos armazens e agencias e a todos os mais desembolsos concernentes à navegação.

Em summa, em resultado do que fica exposto, se deprehende que a empresa da estrada das cachoeiras e da navegação do alto Madeira poderia subsistir por si só e realizar um beneficio razoavel se pudesse contar annualmente com um trafego effectivo de 300. 000 arrobas, tanto de exportação como de importação.

Probabilidades bem fundadas existem de que o comércio desta comunicação attinja de principio a esta quantidade e depois progrida cada dia consideravelmente, quanto permittão a producção e o consumo crescentes dos numerosos habitantes da Bolívia e do Brasil, que nella vão achar um conducto livre de embaraços para fomentar as relações com o exterior de que até hoje têm estado privados.

Na parte terceira destes apontamentos apreciamos o valor que um tal comércio alcançaria, a julgar pelo que hoje faz a Bolívia inteira pelos portos do Pacifico, e comparativamente ao actual da provincia peruana de Loreto, situada em circumstancias muito parecidas às das províncias bolivianas da bacia do Madeira. Então vimos que, a julgar pela população dos departamentos de Santa Cruz e do Beni unicamente, sem tratar da de outros, que no todo ou em parte movida pela razão decisiva da economia dos fretes, adoptará a via do Amazonas de preferencia a qualquer outra, população aquela que é quadrupla da da provincia de Loreto, o comércio dos mesmos dois departamentos poderia adquirir em curto prazo o valor de 360. 000 pesos ou 720 contos de réis, quatro vezes tambem o que era em 1855 o da provincia peruana, pouco depois de favorecida com a linha de vapores da companhia do Amazonas.

Para avaliar o peso de mercadorias correspondente a este valor, não possuimos mais do que um dado, que é porém digno de toda a confiança por ser tambem referante ao comércio da Bolívia pela via do Madeira.

No ano de 1860, como já foi dito, a quantidade de 32. 000 arrobas de exportação e importação correspondeu a um valor de pouco mais de 32. 000 pesos ou 64 contos, ou cêrca de 1 peso ou 2$000 por cada arroba.

A continuar, sendo este o preço medio dos artigos de comércio, a somma de 360. 000 pesos representará o valor de mais de 300. 000 arrobas, quantidade em que, segundo os calculos precedentes, foi orçado o trafego capaz de compensar vantajosamente o estabelecimento e o custeio da estrada e da navegação do alto Madeira.

Se ainda nos reportamos a outras apreciações, anteriormente apresentadas sobre o desenvolvimento progressivo do comércio da Bolívia pela mesma via, os resultados dos anos seguintes não deixão duvidar que a empresa com o tempo prosperará enormemente. Em verdade, quando o valor de seu trafego montar a mais de 1 milhão de pesos, como pode acontecer em 2 anos, ou a mais de 2 milhões, como pode ser em 10, conforme conjecturamos somente sobre os dois departamentos de Santa Cruz e do Beni, ainda por comparação com o progresso observado no comércio da provincia de Loreto pelo Amazonas, então será infallivel que a quantidade de mercadorias, correspondente aos ditos valores, não só alcançará a 300. 000 arrobas, como excederá de muito, por mais valiosos que sejão os objectos de permuta.

E que proporções não tomará o trafego da via do Madeira, quando ela tornar-se o caminho da exportação e importação da metade, pelo menos, da população da Bolívia, não isolada do resto do mundo, pouco productiva e menos consumidora, como hoje se acha, mas aproximada pelo vapor dos grandes centros comerciais do Atlantico, laboriosa pela certeza de obter larga recompensa dos esforços que empregar na producção, civilisada e industriosa pelo trato e pelo exemplo dos estrangeiros activos e emprehendedores, que de toda a parte viráõ a explorar e cultivar regiões quasi desconhecidas, que ocultão immensos tesouros em seu solo!!

Quando se recolhão em profusão os frutos das sementes ahi depositadas desde o começo do novo estado de cousas, que a empresa do Madeira vai crear, temos confiança que não bastará o tosco plankroad primitivo nem o reduzido numero de vapores, que propuzemos, para dar vasão ao comércio que então existirá. Ele exigirá para seu escoamento um ferro-carril ou um canal artificial de grandes dimensões, auxiliado com muitos vapores; e tamanho engrandecimento de meios de viação se efetuará nessa ocasião na escala conveniente com plena segurança de que a circulação produzirá renda suficiente para remunerar com usura quaesquer melhoramentos.

Para aqueles, que têm estudado os verdadeiros milagres operados pelas vias de comunicação, expeditas e baratas, em todos os países do mundo, onde hão sido introduzidas, não pode haver temor algum de que a empresa que advogamos careça de elementos para fundar-se, subsistir e prosperar. Talvez em seus primeiros passos haja alguma cousa de incerto; porém sua prosperidade no porvir é segura e infallivel como é o progresso dos povos da Bolívia e do Brasil, quando sejão vivificados pela ciência e pela industria, que lhes hão de vir dos países mais adiantados através dessa comunicação, cujo projecto tentamos esboçar.

Os governos do Brasil e da Bolívia, directamente interessados nas consequencias fecundas da empresa do Madeira, não devem poupar esforços para fundal-a e promovel-a.

Talvez parecesse vantajoso que de accordo mutuo, ambos por si mesmo abrissem a estrada das cachoeiras e lançassem os primeiros vapores nas águas do alto Madeira. A nós, porém, parece esta medida a menos conveniente e efficaz, e que não deve ser adoptada senão no caso de se frustarem todas as tentativas para organisar uma companhia particular que se incumba de efetuar taes melhoramentos. Se está reconhecido geralmente a inferioridade da administração de empresas destas pelo Estado, comparativamente à de associações particulares, nas condições presentes aparece ainda menos contestavel este facto, attenta a desmesurada distancia em que se acha o lugar da obra a emprehender dos centros dos governos nella interessados.

A ação destes, em nossa opinião, não deve pois estender-se aos cuidados do estabelecimento e do custeio dos meios de transporte projectados, mas reduzir-se a facilitar e acoroçoar a creação da companhia, que disto se encarregue, e depois a protegêl-a por todos os meios opportunos.

A semelhança de todas as empresas, que têm de operar em países novos e pouco conhecidos e carecem de fundar-se com capitaes angariados nos mercados estrangeiros, a da estrada e navegação do alto Madeira, não obstante seu futuro esperançoso, não pode prescindir de garantias effectivas, capazes de inspirar confiança mesmo aos mais timoratos ou incredulos.

A melhor fórma para conseguir tal efeito seria, a nosso ver, garantir uma certa quota de juros annual, que désse um interesse razoavel aos capitaes engajados na empresa, até um maximo de antemão fixado. Um tal favor junto com o privilegio do trânsito na estrada e nos rios por um largo prazo, concessões de terras com liberalidade, direito de exploração de minas numa certa zona e outras concessões semelhantes, das que sóem fazer-se às empresas de viação mais favorecidas, não deixarião de actuar no sentido de alcançar a incorporação de uma companhia.

Em taes concessões os governos do Brasil e da Bolívia tomarião a parte que naturalmente a cada um devesse competir; este promovendo sobre tudo a navegação de seu sistema fluvial, aquele, com especialidade, a abertura da estrada das cachoeiras, que toda deve estender-se em territorio brasileiro. Mas si, contra nossa spectação, de todo não fosse possivel constituir-se uma companhia para realizar na via do Madeira os melhoramentos concebidos, seria como já indicamos, o caso de tomarem a si a empresa os governos do Brasil e da Bolívia. Então não aconselhariamos se pozesse em obra um projecto nas proporções do que deixamos esboçado, mas outro muito mais simples e barato, porém capaz todavia de attrahir e fomentar o trafego da vasta região do alto Madeira para o Atlantico seguindo o curso de seus rios.

Com taes vistas, proporiamos que nas cachoeiras do Madeira, para tornar menos difficultosa e demorada sua travessia, se fizessem algumas obras de pouca monta a fim de desobstruir os canaes que quasi todas têm; que se abrissem caminhos marginaes regulares nos passos mais trabalhosos para facilitar o serviço da halagem a sirga dos barcos e mesmo para servir ao transporte das cargas e até das proprias embarcações, quando isto fosse de todo indispensavel, e que se fundassem de distancia em distancia à beira do rio nucleos coloniaes, situados adequadamente no intuito de protegerem a passagem das mesmas cachoeiras não só com reforço de gente, como tambem com mantimentos e outros soccorros.

Caso porém não fossem efficazes expedientes semelhantes para desembaraçar e abreviar de um modo sensivel a navegação das cachoeiras, sobretudo na subida, e houvesse que recorrer necessáriamente a um desvio terrestre, então em vez de abril-o como uma estrada de carros, poderia não passar-se de um simples trilho para animaes de carga, a cujos lados se collocarião os estabelecimentos coloniaes, de que atraz fallamos, a fim de ahi serem do mesmo prestimo que lhes destinamos na travessia das cachoeiras.

Entretanto em qualquer alternativa, quer se tenha de levar a efeito a empresa da utilisação da via do Madeira nestas reduzidas proporções ou nas que anteriormente delineamos, há que fazer um trabalho preliminar de uma utilidade incontestavel, cuja execução recommendamos instantemente aos governos do Brasil e da Bolívia para ser emprehendido sem detença.

Por parte do primeiro é proseguir nas explorações que por sua ordem presentemente estão em actividade no curso do Madeira, aplicando-as não só à secção das cachoeiras, na ideia de desobstruil-as ou canalisal-as, como tambem à linha terrestre que pode desvial-as; e além disto ao curso superior do Mamoré, do Guaporé e dos afluentes destes rios que regão o territorio brasileiro.

Ao governo da Bolívia compete mandar explorar scientificamente a magnifica rede dos afluentes do alto Madeira, que banha suas ricas províncias do oriente; a importante arteria do Beni com seus braços, a do grande Mamoré no seu dilatado curso e em seus numerosos tributarios e a de todos esses caudalosos rios, que desaguão no Guaporé ou Itenez pela margem meridional e que consta oferecem navegação tão facil quanto extensa.

Com os resultados de taes estudos, juntos a dados estatisticos exactos e recentes sobre o comércio da região do alto Madeira e os recursos que ela contem para desenvolvel-o para diante progressivamente, se possuirião as informações necessárias a fim de proceder com segurança e acerto no projecto e na execução da importante obra, cujos traços gerais, com debil penna e mal habilitados, temos delineado nestes ligeiros apontamentos.

Santiago, 19 de Fevereiro de 1868. — Antônio Rebouças, engenheiro.

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