III. Região boliviana da bacia do Madeira. - Sua extensão e população. - Condições de seu comércio. - Estado presente. - Conjecturas sobre seu futuro. - Contingente do Brasil para o trafego da via do Madeira. Apontamentos sobre a Via de Comunicação do Rio Madeira · Capítulo 4 de 7
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III. Região boliviana da bacia do Madeira. - Sua extensão e população. - Condições de seu comércio. - Estado presente. - Conjecturas sobre seu futuro. - Contingente do Brasil para o trafego da via do Madeira.

III.

Região boliviana da bacia do Madeira. — Sua extensão e população. — Condições de seu comércio. — Estado presente. — Conjecturas sobre seu futuro. — Contingente do Brasil para o trafego da via do Madeira.

O sistema orologico da Bolívia divide fisicamente o seu territorio em quatro grandes regiões, cada uma das quaes verte as águas que as regão com destino diferente:

1.º A região situada ao ocidente da Cordilheira dos Andes, a qual as despeja no oceano Pacifico.

2.º A região da elevada altiplanicie entre as duas ramificações da mesma Cordilheira, que quasi toda desagua no lago Titicaca, o qual — na opinião dos naturalistas mais seguida — não tem saída nem para o Pacifico nem para o Atlantico.

3.º A região da bacia do Madeira, que ocupa o nordeste da republica, comprehendendo um immenso territorio desde as vertentes da Cordilheira Oriental e de seus ramos, que ao norte separão esta bacia da do Purús e ao sul da do Pilcomaio, até as fronteiras do Brasil e à linha das contra vertentes do rio Paraguai.

4.º Emfim a região da bacia do Prata, que em sua maior parte fica ao sul da precedente em posição simetrica, regada por afluentes do Pilcomaio e do Vermejo e à qual tambem pertence a zona da extrema oriental da Bolívia, que contém o rio Otuquis e deslinda com o Brasil pela série de lagôas, que acompanhão a margem direita do rio Paraguai.

Se é uma verdade irrecusavel, como os factos sempre comprovão, que as correntes de agua são as directrizes naturais de quaesquer vias de comunicação, se são elas que apontão a vereda das estradas e dos caminhos terrestres, assim como a dos canaes artificiaes, quando em seu próprio alveo não prestão navegação ou sem auxilio do trabalho do homem ou com ele, as sahidas do comércio da Bolívia estão de antemão designadas pelo curso de seus rios.

As da região das vertentes do Pacifico devem ser os portos de Arica, Cobija e outros da costa deste mar.

As da bacia do Madeira os portos do Beni, do Chaparé, do Guapai, do Mamoré, do Guaporé e de seus respectivos afluentes, de onde as mercadorias seguindo a correnteza das águas chegaráõ ao Atlantico, através do Madeira e do Amazonas.

Os productos da bacia do Prata buscaráõ os portos do Otuquis, do Paraguai, do Pilcomaio e do Vermejo, por cujos canaes se encaminharáõ para a arteria principal do Prata, que tambem os levará ao Atlantico.

Quanto à bacia do lago Titicaca, ela será uma especie de territorio neutro, cujo comércio se distribuirá parte para o Pacifico e parte para o Atlantico, como o determine a lei economica dos fretes.

Considerando particularmente a região boliviana da bacia do Madeira, nota-se que é a mais vasta e importante das quatro em que a natureza dividio essa republica. De facto ela comprehende os departamentos de Cochabamba, do Beni e de Santa Cruz em sua integridade e uma boa parte dos de La Paz e Chuquisaca. Seu perimetro do lado ocidental abrange as três capitaes mais ricas e populosas da Bolívia; e duas outras de grande porvir, Santa Cruz e Trinidad, achão-se em posições mui favoraveis para colherem grandes vantagens da navegação effectiva da rede fluvial do Madeira.

Calcula-se que a região de que se trata mede 270 leguas de norte a sul e 110 de leste a oeste, naquella direcção desde os confins da altiplanicie dos Andes até às fronteiras do Brasil, nesta desde as serranias, que dividem o valle do Madeira do do Purús, até às que fazem o mesmo efeito para o do Pilcomaio. A superficie que lhe pertence se estima em mais de 20. 000 leguas quadradas, quasi metade da da Bolívia inteira, avaliada em 53. 200.

Em 1864, a população total da republica era computada em 2. 155. 329 habitantes[9]. Destes 584. 914 pertencião aos três departamentos de Cochabamba, do Beni e de Santa Cruz, cabendo 379. 783 ao primeiro, ao segundo 60. 447 e ao terceiro 144. 684.

O departamento de La Paz por si só continha 519. 465 habitantes e o de Chuquisaca 193. 124.

[9] Estractos do — Guia Geral de Rúck — Sucre — 1865.

Dando que sómente um terço da povoação de cada um destes departamentos viva na bacia do Madeira, serão mais 230. 000 almas pelo menos a acrescentar à somma daquelles três departamentos, resultando um total de mais de 800. 000 para o numero dos habitantes da Bolívia existentes na região dessa bacia.

As circumstancias especiaes, em que se acha este país, tornão difficil senão impossivel computar com exactidão a grandeza do comércio, que ele pode entreter com o exterior. Segregada por longas e invias distancias das transações com os outros povos, a mór parte de sua população vive quasi exclusivamente de sua propria industria, permutando mui pouco com o estrangeiro.

Um tal estado de cousas, porém, não pode servir de norma para o futuro. Ele é a consequencia da difficuldade das communicações, originada sobretudo pelo obstaculo formidavel das cachoeiras do Madeira, que, cerrando o caminho natural desta região para o Atlantico, obriga seus habitantes a commerciar a grande custo pela costa do Pacifico, vencendo enormes distancias, aggravadas demais pela trabalhosa travessia de duas cordilheiras e seus frequentes ramaes, na qual saindo de climas tropicaes se galga à altitude das neves perpetuas para depois baixar aos portos daquella costa, de onde para chegar aos emporios do comércio do mundo é ainda necessário navegar quasi até o polo austral, a fim de efetuar a volta do continente sul americano pelo tormentoso cabo de Horn. Quando, porém, se desembaraçar a via directa para o Atlantico, seguindo as águas do Madeira e do Amazonas, uma nova éra principiará para a Bolívia oriental, cujo trafego com o interior, mudando de direcção, soffrerá uma revolução essencial, que, reproduzindo a frase de um distincto escriptor moderno[10], ser lhe há tão importante e benefica: «como a que no comércio do mundo operou a descoberta da passagem para as Indias pelo Cabo da Boa Esperança ou a que há de fazer no seculo actual a navegação directa pelo isthmo de Suez e o Mar Vermelho».

[10] O Dr. A. C. Tavares Bastos em sua excellente obra — O valle do Amazonas. — Rio de Janeiro. — 1866.

Então a producção desse país, que hoje se reduz ao consumo dos próprios habitantes, dará abundantes sobras que serão levadas aos mercados estrangeiros, de onde em retorno viráõ as manufacturas da industria a mais aperfeiçoada, que alli chegaráõ por tão baixo preço que as grosseiras do país não poderão com elas competir. Conhecidas as vantagens da permuta interior, habituados os individuos às commodidades que ela proporciona, creadas todas as necessidades de uma civilisação mais refinada, crescendo a producção conjuntamente com o consumo, não há duvidar que o movimento comercial augmentará progressivamente em avultada proporção tirando partido da feracidade proverbial destas terras dotadas dos mais variados frutos, correspondentes aos differentes climas que nellas se encontrão, desde o gelido das Punas até o mais calido da zona intertropical. Assim os departamentos de Cochabamba, Chuquisaca e La Paz, em suas províncias que gozão de um clima temperado, poderão exportar os cereaes e os frutos próprios do mesmo clima, os quaes sem irem mais longe, acharáõ consummidores em todo o valle do Amazonas e no norte do Brasil; entretanto que do Beni e do Santa Cruz sahiráõ para os mercados da Europa e de Norte-America o café, o algodão, o cacáo, o fumo e os demais artigos tropicaes, que nos terrenos destes departamentos se crião tão excellentes como os melhores do mundo.

Por outro lado a mineração inexplorada das encostas orientaes dos Andes, dos depositos ferruginosos de Mojos e de Chiquitos, tão preconisados pelo sabio de Orbigni[11], e das minas de ouro da ultima provincia, que agora estão attrahindo exploradores, proporcionaráõ outras tantas fontes de riqueza e de comércio; assim como tambem a extracção dos productos silvestres, da quina, da borracha, das raizes, drogas, especiarias e madeiras preciosas, que abundão sem conta nas florestas do Beni, do Mamoré e do Itenez ou Guaporé. Nos espaçosos campos de Mojos e Chiquitos a criação de gado vaccum, cavallar e lanigero, que nelles já se acha estabelecida, pode muito augmentar e, uma vez que ahi se obtenha o sal por baixo preço, o charque e outras carnes salgadas passaráõ a ser objecto de exportação mui lucrativa, mesmo para a parte superior do valle do Amazonas, que carece destes generos e os compra por elevado preço.

[11] Alcide de Orbigni em sua viagem às províncias de Mojos e Chiquitos trata mais de uma vez dos grandes depositos de ferro hidratado, que constituem todo o sólo da missão de Sant'Anna e dos plainos de Concepcion no país de Chiquitos, de Mojos e nos arredores da missão de S. Joaquim, que está a beira do rio Machupo, tributario do Magdalena ou Itonama, que desagua oo Guaporé, quasi defronte do forte do Principe da Beira. O mesmo naturalista mostra as immensas vantagens da exploração deste minerio pelo methodo Catalão, não faltando combustivel nas florestas vizinhas e dispondo-se de rios navegáveis para levar o ferro a lugares da Bolívia e do Brasil em que ele tem grande valor.

É pois de toda a probabilidade que, logo que seja franqueada a estrada das cachoeiras e introduzido o vapor nos rios da Bolívia, cerca de 800. 000 de seus habitantes se utilisaráõ destes meios de comunicação para chegar ao Atlantico e ahi entabolar transações com os principais centros do comércio do mundo. A corrente dos negocios infallivelmente deve encaminhar-se a este mar seguindo o curso dos rios, e não deixará de crescer rapidamente, quando a facilidade e presteza dos transportes, juntamente com a modicidade dos fretes, tiver induzido a ser productora e commerciante uma população numerosa, que para exercitar suas forças e sua intelligencia possúe uma natureza uberrima, onde não há industria que não ache seu lugar.

O comércio existente da Bolívia pela via do Madeira, insignificante como é, já revela a propensão, por assim dizer innata, dos povos do Beni e de Santa Cruz, de pratical-o por ahi. Em 1865, o valor da exportação e importação foi de 64: 000$ ou cerca de 32. 000 pesos[12], sendo de 32. 000 arrobas a quantidade das mercadorias. Este reduzido comércio ocupou 98 embarcações, tripoladas por 1. 276 indios, que de certo na viagem redonda não gastaráõ menos de seis mezes! [13]. Estes algarismos, melhor que quaesquer ponderações, demonstrão cabalmente que só um vehemente desejo de commerciar levaria a empregar tanto material, tantos braços e tanto tempo, para conseguir resultado tão exiguo, correndo demais os riscos inherentes à perigosa travessia de 17 cachoeiras.

[12] No correr deste trabalho avaliaremos sempre o peso em dois mil réis de moeda brasileira. O conto de réis vale 500 pesos na dita hipothese.

[13] Dados do relatorio da companhia do Amazonas no ano de 1866, citados na obra — O valle do Amazonas — do Dr. Tavares Bastos.

Entretanto o mesmo comércio tem feito notavel progresso nos ultimos tempos, pois Dalence diz que em 1864 seu valor não passava de 1. 000 pesos[14].

[14] Bosquejo statistico de Bolívia, por D. José Maria Dalence — Chuquisaca — 1857.

Seria gravemente erroneo ajuizar do trafego futuro da via do Madeira pelo que é e tem sido até o presente. Por ora ele apenas representa as transações excepcionaes de um povo isolado, que restringe sua producção e a seu consumo por não ter meios de exportar vantajosamente e que só por vezes se aventura com grandes sacrificios a trocar com seus vizinhos o pouco que lhe sobeja pelos artigos que de todo não pode fabricar.

Mas depois que os transportes para o exterior se tornarem expeditos e baratos, o estimulo do lucro promoverá a producção, o consumo acompanhal-a-ha em progressão corelativa e a circulação comercial, que se deriva da troca dos generos de consumo pelos de producção, adquirirá a importancia que sóe ter nos países que se achão no gremio do movimento industrial e civilizador das nações mais adiantadas.

A deducção do valor do futuro comércio da Bolívia pelo Madeira, partindo da importancia total do que esta republica faz actualmente com o exterior, na mór parte pela via do Pacifico, vai fornecer-nos conjecturas, mais ou menos acceitaveis, a fim de dar ideia de sua grandeza; as quaes, porém, antes ficaráõ aquem do que ultrapassaráõ da realidade, porque, graças às facilidades da nova comunicação, o país entrará em condições de exportar e importar muito mais favoraveis do que as tem tido até agora.

A exportação de toda a Bolívia foi, em 1864, avaliada em 2. 539. 956 pesos[15]. A cifra exacta da importação nos é desconhecida. Vimol-a em um diario de La Paz estimada aproximadamente em 3. 700. 000 pesos, valor que nos parece verdadeiro, pois é pouco superior ao que se deduz pela consideração do numerario exportado no mesmo ano, o qual, segundo a distribuição das parcellas da exportação acima citada, figura pela quantia de 1. 057. 543 pesos, sem duvida remettida ao estrangeiro para saldar o excesso da importação. Dahi se conclue que esta provavelmente deveria ter subido a mais de 3. 500. 000 pesos; e portanto os valores da exportação e importação reunidos seguramente excederão de 6. 000. 000 de pesos, ou 12. 000 contos de réis em moeda brasileira.

Si se reparte a cifra deste comércio exterior por toda a população da Bolívia, suposta de 2. 000. 000 de almas em numero redondo, caberia três pesos por cabeça e aos 800. 000 habitantes da região do Madeira 2. 400. 000 pesos, ou 4. 800 contos de réis entre exportação e importação.

[15] Guia General de Ruck. 1865.

Do mesmo artigo, em que achamos estimada a importação da Bolívia em 3. 700. 000 pesos, era esta somma repartida como segue pelos departamentos da republica:

Cochabamba $ 1. 000. 000

Oruro 100. 000

Chuquisaca 500. 000

La Paz 1. 000. 000

Potosi e Tarija 1. 000. 000

Santa Cruz 100. 000

Somma $ 3. 700. 000

Não se menciona o departamento do Beni, porque seu consumo de mercadorias estrangeiras é fornecido de La Paz e Cochabamba.

Si com estes algarismos se faz a conta da importação da bacia do Madeira, incluindo nella toda a dos departamentos de Cochabamba e Santa Cruz e um terço dos de La Paz e Chuquisaca, à semelhança do que praticamos no calculo da população, acha-se o valor de 1. 600. 000 pesos.

Seguramente esta quantia não é agora retribuida no todo com productos exportados, mas sel-o-ha infallivelmente e quiçá com demasia, logo que o comércio para o exterior tomar o seu curso normal pela via dos rios, removidos os empecilhos que hoje a difficultão e aproximadas as distancias com o auxilio do vapor. Então a importação e exportação sommadas montaráõ a 3. 200. 000 pesos ou 6. 400 contos, quantia, que é de esperar, não tardará em ser excedida em virtude do incremento rapido das transações, que em toda a parte é consequencia immediata das communicações regulares.

Assim, por meio de raciocinios differentes, chegamos aos algarismos de 2. 400. 000 pesos e 3. 200. 000 pesos como representando os valores do futuro comércio exterior da parte da Bolívia, pertencente à bacia do Madeira; atribuindo-lhe talvez no primeiro resultado uma parte maior no comércio geral da republica, do que a que presentemente lhe compete; no segundo considerando mais o que será aquele comércio no futuro, e em tal caso, a nosso ver, avaliando-o antes modesta do que exageradamente.

É o que se confirma de um modo positivo conjecturando sobre o progresso do mesmo comércio por comparação com o que se tem observado em outros países, cujas circumstancias são muito semelhantes às da região de que se trata. Referimo-nos às províncias do Perú, situadas no valle do alto Amazonas, não há muito vivificadas pela navegação a vapor e que, quanto à distancia em que se achão do oceano, quanto à indole de seus habitantes, gráo de sua civilisação e artigos que produzem e consomem, apresentão numerosos pontos de contacto com os departamentos bolivianos, ribeirinhos do Madeira.

Em 1855, pouco depois de iniciada a comunicação a vapor daquellas províncias com o porto do Pará pelo curso do Amazonas, a importancia total do seu comércio nascente não excedeu durante o ano, de 180 contos ou 90. 000 pesos. [16].

[16] Este e os seguintes dados sobre o comércio da provincia de Loreto e, em geral, do valle do Amazonas, são tirados da obra já citada do Dr. Tavares Bastos, — que de muito prestimo foi para a nossa instrucção no assumpto destes apontamentos.

Em 1865, dez anos mais tarde, ele passava de 1. 100 contos ou 550. 000 pesos, numero mais de seis vezes superior ao primeiro!

Já em 1857, só a exportação das mesmas províncias, quasi subia a 500 contos, ou 250. 000 pesos, e embora a mór parte da importação ainda se effectuasse então pelos portos do Pacifico, o comércio exterior nos dois sentidos já equivalia neste ano a mais do triplo do que fora em 1855!

Entretanto pouco excede de 50. 000 almas a população da provincia de Loreto, que é a parte do Perú que concorre effectivamente para alimentar esse comércio!

Só nos dois departamentos do Beni e de Santa Cruz, há mais de 200. 000 habitantes, população quadrupla da que tem a provincia de Loreto; e é 16 vezes maior do que a desta toda a que vive na região da Bolívia, cuja saída natural são as águas do Madeira!

É, pois, presumivel que, logo depois de melhorada a via deste rio, o comércio que a Bolívia venha a fazer por meio delle seja quatro vezes maior do que era em 1855 o da provincia de Loreto, ou de 360. 000 pesos mais ou menos, ainda na suposição de que a principio não seja fornecido senão pelos departamentos do Beni e de Santa Cruz.

Dentro de dois anos, se crescer na mesma proporção que o do Perú, poderá triplicar como lá aconteceu, elevando-se a mais de 1. 000. 000 pesos; somma que subiria de um modo espantoso, caso já então entrassem com algum contingente Cochabamba, Sucre e La Paz, cujos departamentos no todo ou em parte estão destinados a ser tambem tributarios da linha do Madeira.

No termo de 10 anos, se continuar a progredir como o comércio da provincia peruana, sómente o dos departamentos de Santa Cruz e do Beni montará ao sextuplo de 360. 000 pesos ou a mais de 3. 000. 000, e o comércio geral da via do Madeira attingirá a avultada cifra de $8. 640. 000 ou mais de 16. 000 contos, se neste periodo de tempo, como é de todo provavel, já fôr alimentado pela producção e pelo consumo dos 800. 000 bolivianos, que bebem das águas do Madeira.

Isto em nada parece inverosimil quando se reflecte que hoje o comércio interior do porto do Pará, que é o emporio do valle do Amazonas, se eleva a 15. 000: 000$000 ou 750. 000 pesos[17], provindo entretanto de uma população, que mesmo reunindo os contingentes do Perú, de Venezuela e até da propria Bolívia, que nelle têm parte, é inferior a 400. 000 almas.

[17] Estes algarismos representão o resultado do ano financeiro de 1864-1865. No de 1851-1852, que precedeu ao estabelecimento da navegação a vapor do Amazonas, o valor do mesmo comércio não alcançou a 5. 000: 000$. Por conseguinte em menos de 15 anos elevou-se a mais do triplo, graças ao melhoramento dos meios de transporte!

Se se estabelece a proporção entre o valor do comércio e a população, chega-se a conclusão de que a Bolívia poderá vir a exportar e importar pelo Amazonas o duplo do que hoje corresponde a todo o valle, isto é, 15 milhões de pesos ou 30 mil contos, o que tem muitas probabilidades de verificar-se com o correr dos anos, pois que os bolivianos da bacia do Madeira não são menos activos e industriosos do que a generalidade dos productores do valle do Amazonas e porque tambem, ao passo que aqui os artigos de exportação consistem quasi exclusivamente nos productos da industria extractiva, lá podem abranger, além dos desta, os da mineira, agricultora e criadora, accrescendo sobre isto que haverá a permutar não sómente os frutos da zona intertropical, como tambem os de todos os climas, que se succedem nos degráos dos Andes desde suas fraldas até seus elevadissimos planaltos.

As cifras aduzidas em resultado dos calculos que fizemos para estimar a grandeza do futuro comércio da região boliviana do Madeira, se bem que não passem de meras conjecturas, comtudo merecem alguma confiança, pois se baseão em dados irrecusaveis e dos mais competentes para fornecerem apreciações aproximadas do que esse comércio poderá ser, quando tornar-se uma realidade pratica a facilidade e a barateza dos transportes do mesmo país para o Atlantico pela via do Madeira.

Tambem do territorio brasileiro, ainda que em muito menor escala do que da Bolívia, procederão elementos para engrossar a circulação da mesma via. Toda a região da margem direita do Mamoré e do Guaporé até às vertentes da serra dos Parecis e a da margem esquerda do ultimo rio pertencente ao Imperio, para cima da foz do rio Verde, escondem em suas virgens florestas riquezas vegetaes e mineraes, que não deixaráõ de ser exploradas logo que houver meio regular de comércio dahi com os mercados estrangeiros.

A população da provincia brasileira de Mato Grosso será no maximo de 100. 000 habitantes, dos quaes talvez não passem de 20. 000 os que existem na região mencionada. Mas a riqueza aurifera e diamantina de seus terrenos, que para ahi attrahio da beira do Oceano, através de centenares de leguas de desertos e de mil perigos, os primeiros povoadores portugueses, quiçá volva a ser a causa de sua moderna colonisação, levando os novos colonos para a exploração das minas a ciência e as machinas aperfeiçoadas com que a industria actual sabe economisar o trabalho e multiplicar o rendimento. Seja, pois, de tal origem ou antes da colheita dos productos silvestres ou dos da agricultura, há razões para prognosticar que o territorio do Brasil no alto Madeira não deixará de contribuir com variados artigos de permuta para augmentar a importancia do trafego da comunicação de que nos ocupamos.

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