V. Haréns e cerimônias
V. Haréns e cerimônias
I
A multidão na rua
Para os viajantes ocidentais, a impressão mais viva produzida pelo primeiro contato com o Oriente Próximo é a surpresa de estar num país onde o elemento humano aumenta, em vez de diminuir, o deleite dos olhos.
Afinal, portanto, a íntima harmonia entre a natureza, a arquitetura e o corpo humano revelada pela arte grega não era uma recomendação de perfeição feita por artistas, mas uma representação honesta da realidade: houve, e ainda há, cenários privilegiados onde o caimento dos panejamentos de um verdureiro, da capa de um leiteiro ou dos trapos de um mendigo integra a composição e se relaciona claramente com ela em linha e cor, e onde as atitudes naturais e não estudadas do corpo humano são igualmente harmoniosas, por mais triviais que sejam os atos em que está empenhado. Para o viajante que retorna do Oriente, essa descoberta rouba metade do encanto das cenas mais românticas da Europa ocidental: na Piazza San Marco, na praça do mercado de Siena, onde outrora ao menos as vestes dos Procuradores ou as alegres malhas dos jovens de Pinturicchio justificavam a figura humana entre suas obras, a princípio só se vê a ofensa infligida à beleza pelos “abundantes manequins pavoneantes” do mundo moderno.
As multidões marroquinas são sempre um banquete para os olhos. O instinto de manejar habilmente os panejamentos e o senso de cor, moderado pelo costume, mas irrompendo em vislumbres sutis sob os tons universais de cinza, transformam a mais humilde reunião de condutores de burros e carregadores de água num deleite sempre renovado. Mas somente em ocasiões raras e nas cerimônias da corte às quais tão poucos estrangeiros tiveram acesso revela-se a suntuosidade oculta da vida nativa. Mesmo então, o termo suntuosidade pode parecer mal escolhido, pois a natureza nômade da vida africana persiste apesar dos palácios, camareiros e de todo o ritual elaborado do Makhzen, e os ritos mais pomposos podem terminar numa cavalgada poeirenta de ferozes membros de tribos, enquanto as procissões mais principescas acabam numa fila de moleques seminus montados sem sela em burros.
Como em todos os países orientais, o contato entre príncipe e mendigo, vizir e servo é desconcertantemente livre e familiar; e é preciso ver os mais altos funcionários da corte beijando a barra da veste do sultão e ouvir histórias autênticas de escravos oferecidos por um mercador a outro ao fim de uma noite convivial para recordar que nada parece tão democrático quanto uma sociedade cuja estrutura inteira depende do capricho de um único homem.
II
Aid-El-Kebir
Na varanda da Residência de Rabat, fiquei olhando por entre colunas cobertas de ipomeias azul-genciana para o primeiro brilho de luz sobre ciprestes negros e flores brancas de tabaco, sobre os telhados dispersos da cidade nova e a planície que se estendia até o palácio do sultão, acima do mar.
Disseram-nos, tarde na noite anterior, que o sultão permitiria que Madame Lyautey, acompanhada das três senhoras de seu grupo, estivesse presente ao grande rito religioso do Aid-el-Kebir, o Sacrifício do Carneiro. A honra não tinha precedentes e era um favor provavelmente concedido apenas no último momento, pois, em regra, nenhuma mulher é admitida nessas cerimônias. Era uma oportunidade que não se podia perder; e durante toda a breve e sufocante noite eu permanecera acordada, perguntando-me se estaria pronta cedo o bastante. Pouco depois, os automóveis se reuniram, e partimos com os oficiais franceses encarregados de acompanhar a esposa do governador.
O palácio do sultão, um grande edifício moderno segundo as conhecidas linhas árabes, fica numa vastidão sem árvores nem jardins, cercada de altas muralhas e muito próxima do Atlântico azul. Passamos de automóvel pelos portões, onde estava perfilada a Guarda Negra do sultão, e seguimos até a msalla,[20] uma espécie de campo comum adjacente a todas as residências do sultão, onde geralmente se realizam cerimônias públicas. O sol já caía intensamente sobre a grande planície, apinhada de cavaleiros e da população nativa de Rabat, a pé ou montada em mulas. Num espaço aberto no centro da multidão, uma paliçada de lona tingida com vigorosos desenhos negros cercava as tendas do sultão. A Guarda Negra, em túnicas escarlates e turbantes brancos e verdes, estava disposta na borda do espaço aberto, mantendo os espectadores a distância; mas, guiadas por nossos acompanhantes, avançamos até a margem da multidão.
A paliçada estava aberta de um lado e, dentro dela, podíamos ver, entre os funcionários vestidos de branco como a neve, um grupo de homens em longas e estreitas túnicas verde-amêndoa, cor de flor de pessegueiro, lilás e rosa; eram os músicos do sultão, cujos trajes coloridos sempre florescem com destaque entre os panejamentos brancos de todos os outros servidores da corte.
Na tenda mais próxima da abertura, diante de um fundo de cortinas bordadas, um círculo de majestosos anciãos de turbante permanecia tranquilamente agachado sobre tapetes de Rabat. Pouco depois, o círculo se desfez, houve um movimento agitado de idas e vindas, e alguém disse:
“O sultão foi à tenda no fundo do recinto para matar o carneiro.”
Uma sensação da solenidade iminente atravessou a multidão. O rumor misterioso que é a Voz do Bazar ergueu-se ao nosso redor como o vento num oásis de palmeiras; a Guarda Negra disparou uma salva de uma elevação próxima; as nuvens de poeira vermelha levantadas pelos cavaleiros que rodopiavam tornaram-se mais densas e depois se abriram, e um cavaleiro vestido de branco saltou para fora da tenda do Sacrifício com algo vermelho e gotejante atravessado sobre a parte dianteira da sela, e partiu a galope rumo a Rabat em meio aos gritos. Um pequeno estremecimento percorreu o grupo de espectadores ocidentais, que sabia que a coisa vermelha e gotejante era um carneiro cuja garganta fora cortada com tamanha habilidade que, caso o presságio fosse favorável, permaneceria vivo durante toda a longa corrida até Rabat e exalaria sua vida agonizante sobre os azulejos da mesquita.
O Sacrifício do Carneiro, um dos quatro grandes ritos muçulmanos, é simplesmente a oferenda propiciatória anual feita por todo chefe de família maometano e pelo sultão como tal. Não se baseia numa prescrição corânica, mas na “Souna”, ou registro dos “costumes” e práticas do Profeta, que constitui um precedente autorizado no ritual muçulmano. Até aí vai a exegese muçulmana. Na realidade, é claro, o sacrifício de sangue islâmico vem, através do ritual semítico, de muito além e de muito antes dele; e a crença de que a prosperidade do sultão no ano seguinte depende da agonia prolongada do animal parece relacionar a cerimônia à magia sombria profundamente enraizada nas misteriosas tribos que povoavam o norte da África muitos séculos antes de as primeiras proas fenícias contornarem sua costa.
Entre a Guarda Negra e as tendas, cinco ou seis cavalos eram conduzidos de um lado para outro por cavalariços musculosos em túnicas brancas como a neve. Eram belos animais, segundo os padrões dos cavalos marroquinos, e cada um de cor diferente; o cavalo baio levava uma sela vermelha bordada de ouro; o malhado, uma sela cor de pêssego e prata; o castanho, verde-grama incrustado de pequenas pérolas; a égua branca, arreios púrpura; e o cinzento, veludo alaranjado. A banda do sultão começara uma música estridente, de golpes e trinados; a salva da Guarda Negra continuava a intervalos, e os animais ajaezados começaram a empinar, bufar e recuar diante dos cruéis freios árabes, com suas delicadas incrustações de niello. Alguém sussurrou que aqueles eram os cavalos de Sua Majestade e que nunca se sabia, até que ele aparecesse, qual deles montaria.
Pouco depois, a multidão em torno das tendas se adensou e, quando voltou a se abrir, surgiu dela um cavalo cinzento levando uma figura imóvel envolta em branco ofuscante. Caminhando junto à rédea do cavalo, magros cavalariços morenos em túnicas brancas agitavam ritmicamente longas faixas de linho branco para afastar as moscas da Presença Imperial; e, ao lado do cavaleiro imóvel, alinhado com o flanco do cavalo, seguia o portador do Guarda-Sol Imperial, que mantinha acima da cabeça do soberano um grande para-sol de veludo verde vivo. Lentamente, o cavalo cinzento avançou alguns metros diante da tenda; atrás vinham os dignitários da corte, seguidos pelos músicos, que, em seus caftãs curtos e brilhantes, pareciam os esbeltos anjos músicos de um afresco florentino.
O sultão, detendo-se sob sua cúpula de veludo, esperou para receber a homenagem das tribos reunidas. Um funcionário avançou a cavalo, puxou as rédeas e gritou um nome. Imediatamente, uma selvagem cavalgada de membros de tribos atravessou a planície como uma tempestade, com rifles atravessados nos ombros, pistolas e cimitarras nos cintos, e voltas de pelo de camelo amarradas aos turbantes. A poucos metros do sultão, contiveram as montarias; seu chefe soltou um grito e lançou-se à frente, curvando-se sobre a parte dianteira da sela, e, com um grande brado, a tribo passou a galope, cada homem inclinado sobre o pescoço de seu cavalo ao voar diante da figura hierática montada no cinzento.
[Ilustração: De uma fotografia de “France-Maroc”
O sultão do Marrocos sob o guarda-sol verde, em Meknez, 1916]
A cerimônia repetiu-se muitas e muitas vezes, o sultão avançando alguns metros à medida que cada novo grupo trovejava em sua direção. Havia mais de dez mil cavaleiros e chefes vindos do Atlas e das regiões selvagens, e, enquanto a cerimônia prosseguia, as nuvens de poeira tornavam-se mais densas e de um dourado mais ardente, até que, por fim, as linhas que avançavam surgiam através delas como imagens indistintas num espelho manchado.
À medida que o sultão avançava, nós o acompanhávamos, lado a lado com ele e voltadas para os esquadrões que se aproximavam. O contraste entre sua figura imóvel e as ondas selvagens de cavalaria que se quebravam contra ela simbolizava a estranha alma do Islã, com sua impetuosidade sempre culminando em impassibilidade. O sol pairava alto, uma esfera de bronze num céu branco, lançando raios metálicos sobre a planície envolta em poeira e sobre a serena figura branca sob o guarda-sol. O homem gordo, de rosto redondo e suave emoldurado por uma barba, envolto em espirais de branco puro, uma mão rechonchuda sobre a rédea bordada, os pés calçados de amarelo com os calcanhares baixos em grandes estribos forrados de veludo, tornou-se, pela pura imobilidade, um símbolo, um mistério, um Deus. O fluxo humano batia contra ele, dissolvia-se, recuava; outra onda coroada de lanças avançava atrás e se dissolvia por sua vez; e ele continuava sentado, hora após hora, sob o céu branco de calor, inconsciente do calor, da poeira, do tumulto, encarnando para as hordas selvagens, facciosas e precipitadas uma longa tradição de serena distância.
III
O mirante imperial
Quando os últimos cavaleiros se aproximaram a galope para prestar homenagem, fomos chamadas aos automóveis e conduzidas rapidamente ao palácio. O sultão mandara dizer a Mme. Lyautey que as damas do harém imperial a receberiam, assim como às suas convidadas, enquanto Sua Majestade atendia o Residente-Geral; e precisávamos apressar-nos para não perder o próximo ato do espetáculo.
[Ilustração: De uma fotografia de “France-Maroc”
Um clã de montanheses e seu caid]
Atravessamos um longo pátio ladeado pela Guarda Negra, passamos sob um portal e fomos recebidas por uma negra pobremente vestida. Cruzando o brilho abrasador dos azulejos policromos, chegamos a outra arcada guardada pelo chefe dos eunucos, um negro gigantesco com os olhos esmaltados de um busto de basalto. O eunuco entregou-nos a outras negras, e entramos num labirinto de passagens internas e pátios, todos murmurantes e gotejantes de água. Ao percorrer longos corredores onde escravos em vestes cinzentas e apagadas se achatavam contra as paredes, captamos vislumbres de grandes aposentos escuros, lavanderias, despensas, padarias e cozinhas, onde coisas saborosas ferviam e cozinhavam lentamente, e onde mais negras, abandonando panelas e caçarolas, vinham espiar-nos da entrada. Num canto, sobre um banco diante de uma parede coberta de esteiras, papagaios cinzentos em gaiolas altas eram alimentados por uma escrava.
Uma escada estreita subia até um patamar onde uma princesa saída de um conto de fadas árabe nos esperava. Pisando suavemente com seus chinelos bordados, conduziu-nos ao patamar seguinte, onde outra criatura de chinelos dourados nos sorriu, desta vez uma menina, corando e mostrando covinhas sob um diadema de joias e tranças entretecidas de pérolas. Num terceiro patamar surgiu uma terceira jovem e, cercadas pelas três graças, subimos ao alto mirador da torre central, de onde contemplaríamos a cerimônia que se aproximava. Uma a uma, nossas pequenas guias tiraram os sapatos dourados com um movimento dos pés, e uma escrava os colocou cuidadosamente do lado de fora da porta; então conduziram-nos, com passos suaves e descalços, ao aposento superior do harém.
Era uma sala grande, cercada de todos os lados por um balcão fechado com vidraças de cores vivas. Sobre um tapete moderno e espalhafatoso de Rabat havia poltronas douradas de desenho florido e uma mesa que sustentava um bronze comercial da variedade “objeto de arte”. Divãs com almofadas cobertas de musselina estavam dispostos junto às paredes e ao longo de um aposento contíguo, semelhante a uma galeria, mobiliado de resto apenas com relógios. A paixão por relógios e outros engenhos mecânicos é comum a todas as raças não mecânicas, e o palácio de todo chefe no norte da África contém uma coleção de marcadores de tempo que poderia ser chamada de impressionante se tantos deles não houvessem parado de funcionar. Mas os do harém do sultão em Rabat são notáveis pelo fato de que, embora projetados segundo modelos europeus correntes, suas dimensões são proporcionais à dignidade imperial, de modo que um relógio holandês de pêndulo se torna um armário, e o relógio de caixa das lareiras europeias, um móvel que precisa ser colocado no chão. No fim dessa avenida de relógios, uma cama europeia de casal com uma colcha de seda brilhante coberta por renda de Nottingham erguia-se majestosamente sobre uma plataforma atapetada.
Não fossem os vislumbres encantadores do mar e da planície através das treliças da galeria, os aposentos das damas do sultão ficariam muito aquém das ideias ocidentais de elegância. Mas quase não houve tempo para pensar nisso, pois a porta do mirador não cessava de se abrir para admitir outra figura de conto de fadas, até que, enfim, estávamos cercadas por uma dúzia de huris, rindo, tagarelando, tomando-nos pelas mãos e fazendo perguntas tímidas enquanto nos olhavam com olhos acariciantes. Eram todas, sussurrou nossa intérprete, “favoritas” do sultão, jovens adolescentes de rosto redondo e cor de damasco, com maçãs do rosto altas, lábios vermelhos e cheios, olhos castanhos surpresos entre pálpebras asiáticas curvadas para cima e pequenas mãos morenas que esvoaçavam como pássaros para fora das mangas de brocado.
Em honra da cerimônia e da visita de Mme. Lyautey, haviam vestido suas melhores roupas, e sua liberdade de movimentos era um pouco prejudicada pelos estreitos e suntuosos vestidos, com sobreposições de brocado de ouro e prata e gaze rosa-pálida, contidos por faixas semelhantes a espartilhos, feitas de tecido dourado de Fez, e pelos pesados cordões de seda que prendiam as volumosas mangas. Acima da testa, os cabelos eram raspados como os de uma beleza italiana do século XIV, e apenas uma linha negra, tão estreita quanto uma sobrancelha desenhada a lápis, aparecia por entre a volta de gaze presa por um fecho de joias acima das sobrancelhas verdadeiras. Sobre a joia da testa erguia-se a estrutura complicada do toucado. Cordões de lã preta eram trançados entre os cabelos, formando atrás uma dupla alça que se projetava acima da nuca como as duas asas de um vaso, a parte superior coberta por leves gazes cambiantes e presa por faixas e ornamentos de joias. De cada lado das faces vermelhas, outras tranças passavam sobre as orelhas, das quais pendiam largos brincos de filigrana incrustados de pérolas brutas e esmeraldas, ou argolas de ouro e pingentes de coral; e uma inesperada gola de tule, como a de uma pastora de Watteau, emoldurava o queixo redondo acima de uma torrente de colares, colares de âmbar, coral e pérolas barrocas, com misteriosos amuletos e fetiches bárbaros pendurados. Enquanto as jovens se moviam ao nosso redor com os pés suaves tingidos de hena, a luz brincava sobre reflexos mutáveis de ouro e prata, azul, violeta e verde-maçã, todos harmonizados e enevoados por nuvens de rosa e azul-celeste; e por entre o grupo cambiante saltitava uma criancinha negra num caftã púrpura entretecido de prata, com uma faixa vermelho-framboesa.
Pouco depois, porém, houve um alvoroço no aviário. Um novo par de babouches bateu no patamar, e uma jovem, menos brilhantemente vestida e de rosto menos luminoso que as demais, entrou com os pés nus e pintados. Seus movimentos eram tímidos e hesitantes, seus grandes lábios pálidos, as sobrancelhas menos intensamente escuras, a cabeça menos coberta de joias. Mas todos os pequenos beija-flores se agruparam ao redor dela com respeitosos roçagares enquanto avançava em nossa direção apoiada numa das jovens e estendia a mão coberta de anéis para a reverência de Mme. Lyautey. Era a jovem princesa, filha legítima do sultão. Examinou-nos com olhos tristes, pronunciou alguns cumprimentos por intermédio da intérprete e sentou-se em silêncio, deixando que as outras cintilassem e tagarelassem.
A conversa com a tímida princesa estava enfraquecendo quando uma das favoritas nos chamou para o balcão. Disseram-nos que poderíamos abrir alguns centímetros as vidraças pintadas; mas, quando o fizemos, o grupo de borboletas recuou, temendo ser visto a olhar para o mundo proibido.
Novas salvas ribombavam na direção da msalla; tufos de fumaça flutuavam sobre as encostas como penugem de cardo. Mais longe, um véu de vapor vermelho ocultava o galope dos últimos cavaleiros que se afastavam em direção a Rabat. O vapor baixou, e, saindo dele, distinguimos uma procissão lenta. À frente seguia um destacamento da Guarda Negra, montado em cavalos negros e com uma ferocidade cômica em seu escarlate britânico e verde de Meca, uniforme inventado no início do século XIX por um oficial aposentado do Exército inglês. Depois da Guarda vinham os porta-estandartes e os grandes dignitários; em seguida, o sultão, ainda distante e imóvel, como se arrebatado pela contemplação de seu ofício místico. Outros funcionários da corte o seguiam, depois os músicos de vestes brilhantes, a pé, e então uma multidão confusa e irreprimível de peregrinos, mendigos, santos, saltimbancos e outras figuras humildes do Bazar, terminando numa fila de meninos que cravavam os calcanhares nus nas costelas de burros cansados do mundo.
[Ilustração: De uma fotografia de “France-Maroc”
O sultão entrando solenemente em Marrakech]
O sultão entrou a cavalo no pátio abaixo de nós, e vizires e camareiros, brancos como a neve contra a linha escarlate dos guardas, apressaram-se para beijar seus panejamentos, seus sapatos, seu estribo. Descendo da sela de veludo, ainda em transe, atravessou os azulejos entre duas fileiras de servidores vestidos de branco que se curvavam até o chão. Pombos brancos giravam sobre ele como pétalas soltas de um grande pomar, e ele desapareceu com seu séquito sob a arcada sombria da sala de audiências, no fundo do pátio.
Nesse momento, uma das favoritas chamou-nos de volta do mirador. A porta acabara de se abrir para admitir uma mulher idosa, precedida por um grupo respeitoso de jovens. Do rosto redondo e corado da recém-chegada, de seu corpo baixo e arredondado e das mãos redondas que saíam de pulsos igualmente redondos emanava uma majestade inexplicável; e, embora ela também estivesse menos ricamente vestida que as favoritas, trazia seu toucado de gaze listrada como uma coroa.
Essa impressionante senhora idosa era a mãe do sultão. Quando estendeu a mão rechonchuda e enrugada a Mme. Lyautey e disse algumas palavras por intermédio da intérprete, sentiu-se que, por fim, uma vidraça pintada do mirador se quebrara e um pensamento penetrara no vazio do harém. Que pensamento seria esse exigiria uma profunda compreensão dos processos da mente árabe; mas sua honestidade manifestava-se na voz e no sorriso da velha imperatriz. Ali, enfim, estava uma mulher além das dissimulações triviais, da astúcia infantil e das crueldades ociosas do harém. Não surpreendeu saber que era a conselheira em quem o filho mais confiava e a principal autoridade do palácio. Se uma mulher assim enganasse e intrigasse, seria por grandes propósitos e por fins em que acreditava: as profundezas de sua alma continham ar e luz do dia, e ela jamais os excluiria voluntariamente.
A imperatriz-mãe conversou por algum tempo com Mme. Lyautey, perguntando pela saúde do Residente-Geral, solicitando notícias da guerra e dizendo, com uma emoção perceptível até através das palavras incompreensíveis:
“Tudo vai bem no Marrocos enquanto tudo vai bem na França.”
Depois se retirou, e fomos novamente chamadas ao mirador.
Dessa vez, era para ver uma companhia de oficiais em uniformes brilhantes avançando a trote pela planície desde Rabat. Ao avistarem a figura que os liderava, tão esbelta, ereta e jovem sobre seu magnífico castanho, com uma túnica azul-clara atravessada pela larga faixa alaranjada da Ordem Xerifiana, novas salvas ribombaram da encosta acima do palácio e a Guarda Negra apresentou armas. Um instante depois, o general Lyautey e seu estado-maior entravam a cavalo pelos portões abaixo de nós. No limiar do pátio interno, desmontaram e, deslocando-nos para o outro lado do balcão, acompanhamos a etapa seguinte da cerimônia. O sultão ainda estava sentado na sala de audiências. Os funcionários da corte continuavam perfilados numa linha branca como a neve contra paredes igualmente brancas. Os grandes dignitários avançaram pelos azulejos para saudar o general; depois se afastaram, e ele prosseguiu sozinho, seguido a pequena distância por seu estado-maior. A um terço do caminho através do pátio, deteve-se, conforme o cerimonial da corte marroquina, e curvou-se na direção do aposento de arcadas; alguns passos adiante, tornou a curvar-se, e uma terceira vez no limiar da sala. Então uniformes franceses e panejamentos marroquinos fecharam-se ao redor dele, e todos desapareceram nas sombras do salão de audiências.
Nossa audiência também parecia ter chegado ao fim. Havíamos esgotado a limitada conversa banal do harém, aprendido com as jovens beldades que, embora estivessem proibidas de assistir à cerimônia, os dançarinos e cantores viriam entretê-las pouco depois, e começávamos a despedir-nos quando uma negra entrou apressada para dizer que Sua Majestade pedia a Mme. Lyautey e suas amigas que aguardassem sua chegada. Esse era o incidente culminante de nossa visita, e perguntei-me com que ritual bizantino o Ungido, recém-saído do exercício de suas funções sacerdotais, seria recebido entre suas mulheres.
A porta se abriu e, sem anúncio ou qualquer outro floreio preliminar, entrou um homem gordo de rosto agradável, com a djellabah esticada sobre a barriga avantajada, conduzindo um menino pela mão. Assim apareceu Sua Majestade, o sultão Moulay Youssef, despido dos burnouses sacramentais e do turbante, arrastando os pés nus em chinelos amarelos, com o andar de um senhor idoso e corpulento que tirou as botas no corredor antes de uma noite doméstica.
O pequeno príncipe, um de seus dois filhos legítimos, vestia-se com igual simplicidade, pois no Marrocos os trajes de seda são usados apenas por músicos, rapazes dançarinos e outras criaturas hermafroditas. Juntamente com as vestes cerimoniais, o sultão abandonara seu ar de majestade sobre-humana, e a expressão de seu rosto redondo e pálido correspondia à simplicidade das roupas. As favoritas esvoaçavam ao redor dele, respeitosas, mas de modo algum intimidadas, e as mais jovens começaram a brincar com o pequeno príncipe. Podíamos acreditar facilmente na informação de que aquele era o harém mais feliz do Marrocos, assim como o único em que algum sopro do mundo exterior jamais penetrava.
Moulay Youssef saudou Mme. Lyautey com amigável simplicidade, fez os discursos apropriados às suas acompanhantes e então, com o ar de um homem de negócios que se lembrou de uma ordem não dada antes de sair do escritório, caminhou até um canto da sala e, enquanto as jovens-flor se agitavam ao redor dele e, através das janelas, víamos os últimos participantes dos ritos místicos galopando em direção às muralhas ameadas de Rabat, Sua Majestade, Sacerdote e Imperador dos Fiéis, desenganchou um pequeno aparelho da parede e encostou seus lábios sagrados ao telefone.
IV
Na antiga Rabat
Antes da chegada do general Lyautey ao Marrocos, Rabat fora submetida à indignidade dos “melhoramentos” europeus, e é preciso atravessar bulevares riscados por linhas de bonde e passar entre terraços de hotéis, cafés e palácios de cinema para alcançar o núcleo sobrevivente da cidade nativa, outrora bela. Então, na curva de uma rua banal, deparamo-nos subitamente com ele. As lojas e os cafés cessam, o tilintar dos bondes e o toque das buzinas dos automóveis desaparecem e, de uma só vez, surgem o silêncio, a solidão e a digna reserva das fachadas sem janelas das casas árabes.
Dirigíamo-nos à casa de um alto funcionário do governo, um dignitário marroquino da velha escola, que nos convidara para o chá e acrescentara uma mensagem informando que as senhoras de sua casa teriam prazer em receber-me.
A casa que procurávamos ficava a certa distância, na mais tranquila das ruas de paredes brancas. Nosso acompanhante bateu a uma porta verde e baixa, e fomos admitidos numa passagem para a qual descia uma escada de madeira. Um cunhado de nosso anfitrião nos esperava; seguindo-o, subimos os degraus semelhantes a uma escada de mão e entramos numa sala comprida, com um tapete francês florido e um conjunto correspondente de móveis dourados. Não havia paredes rendilhadas, portas de cedro pintadas nem fontes murmurando em pátios invisíveis: a casa estava comprimida entre outras, e quaisquer vestígios de antiga ornamentação que pudesse ter possuído haviam desaparecido.
Pouco depois, porém, vimos por que seus habitantes eram indiferentes a esses detalhes. Nosso anfitrião, um belo ancião de barba branca, recebeu-nos à porta; então nos conduziu a uma janela saliente e elevada numa das extremidades da sala e fez-nos sentar nas poltronas douradas, diante de uma das mais belas vistas do Marrocos.
Abaixo de nós estendiam-se os terraços brancos e azuis da cidade nativa, com palmeiras e minaretes erguendo-se entre eles, ou as sombras de uma latada desenhando padrões sobre uma viela tranquila. Mais além, o Atlântico cintilava, desfazendo-se em espuma na foz do Bou-Regreg e sob as altíssimas muralhas da Kasbah dos Oudayas. À direita, as ruínas da grande Mesquita erguiam-se de seu planalto acima do rio; e, do outro lado da corrente agitada, a antiga Sale, branca e perversa, repousava como uma joia em seus jardins. Com semelhante cenário diante dos olhos, os habitantes da casa dificilmente poderiam sentir a falta de interesse arquitetônico do edifício.
Depois de trocarmos os cumprimentos habituais e de nos dar tempo para apreciar a vista, nosso anfitrião retirou-se, levando consigo os homens de nosso grupo. Um momento depois, reapareceu acompanhado de uma jovem rosada e de cabelos claros, vestida à maneira árabe, mas evidentemente de nascimento europeu. O cunhado explicou que aquela jovem, que havia “estudado na Argélia” e cuja mãe era francesa, era amiga íntima das senhoras da casa e serviria de intérprete. Nosso anfitrião tornou então a deixar-nos, reunindo-se aos visitantes masculinos em outro aposento, e a porta se abriu para admitir sua esposa e suas noras.
A dona da casa era uma bela argelina de olhos tristes e expressivos; as mulheres mais jovens eram pálidas, gordas e amáveis. Todas usavam vestidos sóbrios, em harmonia com a simplicidade da casa, e, não fosse o vazio de seus rostos, o grupo poderia ser o da família de um professor numa cidade universitária inglesa ou americana, decentemente fantasiada para uma representação das Mil e uma noites nos jardins da faculdade. Nunca me recordei com tamanha vivacidade de que a natureza humana, de um polo ao outro, se divide naturalmente em certas categorias, e de que a Respeitabilidade exibe o mesmo rosto num harém oriental que na Inglaterra ou na América.
Minhas anfitriãs receberam-me com extrema amabilidade; sentamo-nos na janela saliente diante da vista, e começou a troca de perguntas e cumprimentos.
Eu tinha filhos? Perguntaram todas ao mesmo tempo.
Infelizmente, não.
“No Islã”, aventurou-se uma das senhoras, “uma mulher sem filhos é considerada a criatura mais infeliz do mundo.”
Respondi que, no mundo ocidental, as mulheres sem filhos também eram objeto de compaixão. O cunhado sorriu, incrédulo.
Sabendo que as modas europeias despertam interesse absorvente no harém, perguntei em seguida:
“O que estas senhoras pensam de nossos vestidos rígidos de alfaiataria? Não os consideram excessivamente feios?”
“Sim, consideram”, respondeu novamente o cunhado. “Mas supõem que, em suas próprias casas, as senhoras se vistam menos mal.”
“E nunca sentem desejo de viajar ou visitar os Bazares, como fazem as damas turcas?”
“De modo algum. Estão ocupadas demais para pensar em semelhantes assuntos. Em nosso país, as mulheres da mais alta classe ocupam-se da casa e dos filhos, e o restante de seu tempo é dedicado aos trabalhos de agulha.” Diante dessa afirmação, dirigi ao cunhado um sorriso tão incrédulo quanto o dele.
Durante todo esse tempo, a intérprete de cabelos claros não recebera do vigilante guardião do harém permissão para pronunciar uma única palavra.
Voltei-me para ela com uma pergunta.
“Então sua mãe é francesa, Mademoiselle?”
“Oui, Madame.”
“De que parte da França ela veio?”
Seguiu-se uma pausa perplexa. Finalmente:
“Não sei... da Suíça, creio”, conseguiu dizer esse brilhante exemplo da Educação Superior. Apesar das “vantagens” argelinas, a pobre jovem só sabia algumas palavras da língua materna. Conservara os traços e a tez europeus, mas sua alma era a alma do Islã. O harém imprimira nela sua poderosa marca, e ela me olhava com os mesmos olhos remotos e passivos das filhas da casa.
Depois de lutar por algum tempo com uma conversa que o vigilante cunhado continuava a dirigir como bem entendia, senti meus próprios lábios enrijecerem no sorriso resignado do harém, e foi um alívio quando, por fim, o guardião conduziu para longe o pálido rebanho, e o belo ancião que as possuía reapareceu em cena, trazendo de volta meus amigos e seguido por escravos e pelo chá.
V
Em Fez
Que pensamentos, que especulações, perguntamo-nos, passam sob as estreitas sobrancelhas veladas das pequenas criaturas destinadas à elevada honra do casamento ou do concubinato nos palácios marroquinos?
Algumas são trazidas das montanhas e das florestas de cedros, da vida livre das tendas onde as mulheres nômades andam sem véu. Outras vêm de haréns nas cidades de torres além do Atlas, onde palmeirais azuis se agitam a noite inteira contra as estrelas e caravanas de tâmaras atravessam o deserto desde Timbuctoo. Algumas, nascidas e criadas num palácio arejado entre jardins de romãzeiras e terraços brancos, passam dali para uma das fortalezas feudais próximas das neves, onde, durante metade do ano, os grandes chefes do sul vivem entre seus clãs, cercados de guerreiros, falcoeiros e matilhas de sloughis. Outras ainda crescem num Mellah sufocante, caminham sem véu por seus terraços azuis voltados para os jardins dos poderosos e, vistas certo dia ao pôr do sol por um vizir gordo ou por seu jovem e pálido senhor, são adquiridas por uma soma considerável e transferidas para o sepulcro pintado do harém.
Pior que todos deve ser o destino das que passam das tendas e florestas de cedros, ou de algum jardim batido pelos ventos do mar acima de Rabat, para uma das casas da antiga Fez. São quase impenetráveis, esses palácios de Elbali: os dignitários fasis não acolhem de bom grado visitas de mulheres estranhas. Nas raras ocasiões em que elas são recebidas, um membro da família, um dos filhos ou um cunhado que “estudou na Argélia”, costuma servir de intérprete; e talvez seja melhor que ninguém do mundo exterior venha recordar àquelas criaturas apáticas que, em algum lugar, as gaivotas dançam sobre o Atlântico e o vento murmura nos olivais e faz ressoar as folhas metálicas dos palmeirais.
Certo dia, havíamos sido convidadas a visitar o harém de um dos principais dignitários do Makhzen em Fez, e esses pensamentos me ocorreram enquanto eu permanecia sentada entre as mulheres pálidas em sua prisão apodrecida. A descida pelas íngremes ruas em túnel dava a sensação de sermos baixadas pelo poço de uma mina. A cada passo, a faixa de céu se tornava mais estreita e era com maior frequência ocultada pelas baixas passagens abobadadas em que mergulhávamos. Os ruídos do Bazar haviam desaparecido, e apenas o som das fontes atrás dos muros dos jardins e o bater dos cascos de nossas mulas sobre as pedras nos acompanhavam. Depois cessaram também as fontes e os jardins, a alvenaria altíssima fechou-se em torno de nós, e entramos num labirinto quase subterrâneo que o sol e o ar jamais alcançam. Por fim, nossas mulas entraram num cul-de-sac bloqueado por um edifício alto. À direita havia outra construção, uma daquelas fachadas cegas e misteriosas de Fez que parecem fragmentos de suas antigas fortificações. Clientes e criados descansavam nos bancos de pedra embutidos na parede; era evidentemente a casa de uma pessoa importante. Um jovem encantador, de olhos inteligentes, esperava no limiar para receber-nos: era um dos filhos da casa, aquele que “estudara na Argélia” e sabia conversar com visitantes. Seguimo-lo até um pequeno patio de arcadas, apertado entre as altas paredes da casa. À direita ficava o habitual aposento comprido, com arcadas abertas para o pátio. Nosso anfitrião, uma personagem patriarcal, envolto em gordura como numa toga, veio ao nosso encontro, uma montanha de majestosas musselinas, com os olhos cintilando num rosto moreno de barba prateada. Fez-nos sentar em divãs e baixou sua volumosa pessoa sobre um monte de almofadas no degrau que conduzia ao pátio; e o filho que estudara na Argélia instruiu uma negra a preparar o chá.
Do outro lado do patio havia outra arcada, inteiramente coberta por algodão cru. De trás da cortina vinha o som de conversas e, de vez em quando, uma criança morena e descalça, vestida apenas com uma camisa curta, escapava e era rapidamente puxada de volta em meio a suaves explosões de riso, enquanto uma mulher negra saía para reajustar as cortinas.
Havia três dessas negras, magníficas criaturas de bronze, usando djellabahs brancas sobre caftãs de cores vivas, lenços listrados atados em torno dos quadris largos e turbantes de gaze sobre os cabelos crespos. Seus pulsos tilintavam com pesadas pulseiras de prata, e grandes brincos circulares dançavam em seus lóbulos púrpura. Um langor pairava sobre todos os demais habitantes da casa, sobre os criados e dependentes agachados à sombra sob a arcada, sobre nosso monumental anfitrião e seu filho sorridente; mas as três negras, vibrando de atividade, corriam sem cessar do aposento coberto pela cortina para a cozinha e da cozinha para a sala de recepção do senhor, carregando nas palmas azul-rosadas bandejas de metal Britannia com copos altos e ramos frescos de hortelã, gritando ordens aos criados adormecidos e chamando umas às outras de extremos opostos do pátio; e, finalmente, a mais corpulenta das três, depois de desaparecer de vista, reapareceu de súbito num balcão verde-pálido acima de nós, onde, recortada contra um quadrado de céu azul, se inclinou numa atitude de Veronese e gritou para as outras como um papagaio excitado.
Apesar de sua atividade febril e de seus gritos de aves tropicais, esperamos em vão pelo chá; depois de algum tempo, nosso anfitrião sugeriu ao filho que talvez eu quisesse visitar as senhoras da casa. Como eu esperava, o jovem conduziu-me através do patio, levantou a cortina de algodão e introduziu-me num aposento exatamente igual ao que acabávamos de deixar. Divãs cobertos de tecido listrado de colchão estavam encostados nas paredes brancas, e sobre eles sentavam-se sete ou oito mulheres de aparência passiva, por cima das quais se arrastava um grupo de crianças pálidas.
A mais velha do grupo, evidentemente a dona da casa, era uma senhora argelina de cerca de cinquenta anos, com um rosto triste e delicadamente modelado; as outras eram filhas, noras e concubinas. Esta última palavra evoca aos ouvidos ocidentais imagens de sedução sensual que o harém marroquino raramente realiza. Todas as senhoras daquela digna casa de funcionário exibiam a mesma aparência de respeitabilidade um tanto melancólica. Em seu aposento abafado e coberto por cortinas, eram como flores cultivadas num porão, pálidas, pesadas, mais cheias, porém mais frágeis que as do jardim. Seus vestidos, ricos, mas sóbrios, os véus e diademas colocados em honra de minha visita, tinham uma deselegância digna, em estranho contraste com a frivolidade do harém imperial. Mas o que mais me impressionou foi a apatia das mulheres mais jovens. Perguntei-lhes se tinham um jardim, e elas balançaram a cabeça com melancolia, dizendo que não havia jardins na antiga Fez. O terraço era, portanto, sua única fuga: um terraço voltado para hectares e hectares de outros terraços, encerrado pelas montanhas nuas e fortificadas que se erguem em torno de Fez como paredes de prisão.
Depois de uma breve troca de cumprimentos, caiu o silêncio. Conversar por meio de intérpretes é um processo entorpecedor, e há poucos pontos de contato entre a mente ocidental, acostumada ao ar livre, e criaturas aprisionadas numa concepção da vida sexual e doméstica baseada no serviço escravo e na espionagem incessante. Essas mulheres lânguidas sobre almofadas de musselina não trabalham nem fiam. A dama marroquina pouco sabe de cozinha, trabalhos de agulha ou quaisquer artes domésticas. Quando um filho adoece, só lhe resta cobri-lo de amuletos e lamentar-se sobre ele; a grande senhora do palácio fasi é tão ignorante em matéria de higiene quanto a camponesa do bled. E todas essas vidas sem cor e sem acontecimentos dependem do favor de um único homem gordo e tirânico, inchado pela boa mesa e pela autoridade, quase tão inerte e sedentário quanto suas mulheres, e habituado a impor-lhes seus caprichos desde a época em que corria por aquele mesmo patio como um garotinho de camisola curta.
O aspecto redentor dessa domesticidade estagnada é a ternura dos pais pelos filhos, e os escritores ocidentais deram tanta ênfase a isso que se poderia supor que as crianças só podem ser amadas por pais inertes e ignorantes. É realmente encantador ver os olhos pesados do pai marroquino se iluminarem quando um bebê moreno semelhante a um gafanhoto salta sobre seu joelho, e observar a ternura sincera com que as mulheres sem filhos do harém acariciam os bebês das rivais mais afortunadas. Mas o sentimentalista comovido por essa demonstração de afeto familiar faria bem em considerar a vida dessas crianças tão mimadas. Ignorância, falta de higiene e iniciação sexual precoce prevalecem em todas as classes. A educação consiste em decorar intermináveis passagens do Alcorão, e a diversão, em assistir a espetáculos que seriam incompreensíveis para crianças ocidentais, mas que as brincadeiras do harém tornam perfeitamente claros à infância marroquina. Aos oito ou nove anos, as meninas se casam; aos doze, o filho da casa “recebe sua primeira negra”; e daí em diante, nas classes ricas e ociosas, ambos os sexos vivem até a velhice numa atmosfera de sensualidade sem sedução.
[Ilustração: De uma fotografia de “France-Maroc”
Mulheres observando uma procissão de um terraço]
O jovem filho da casa conduziu-me de volta através do pátio, onde as negras ainda gritavam e corriam, passando de um lado para outro como uma procissão teatral com os inúteis apetrechos de um chá que jamais chegava. Nosso anfitrião continuava sorrindo de suas almofadas, resignado às demoras orientais. Para distrair os ocidentais impacientes, um criado desenganchou da parede a gaiola de uma pomba que arrulhava suavemente. Foi trazida até nós, ainda arrulhando, e olhou-me com os mesmos olhos resignados e vazios das senhoras que eu acabara de deixar. Quando a gaiola estava sendo recolocada no gancho, os escravos que descansavam junto à entrada se dispersaram respeitosamente diante da aproximação de um belo homem de cerca de trinta anos, de feições delicadas e barba negra. Atravessando o pátio, ele se inclinou para beijar o ombro de nosso anfitrião, que o apresentou como seu filho mais velho, marido de uma ou duas das pequenas esposas pálidas com quem eu estivera trocando banalidades.
Pela crescente agitação das negras, tornou-se evidente que a cerimônia de preparação do chá fora adiada até sua chegada. Uma bandeja de metal contendo um samovar e um bule de metal Britannia foi colocada sobre os azulejos do pátio, e o recém-chegado, agachando-se ao lado dela, começou solenemente a preparar a infusão de hortelã. De repente, as cortinas de algodão tornaram a agitar-se, e uma criança minúscula, vestida com a mais curta das camisolas, saiu correndo e atravessou o pátio. Nosso venerável anfitrião, abrindo os braços em êxtase, apanhou o fugitivo contra o peito, onde o menino permaneceu como um esquilo, observando-nos com grandes olhos de soslaio. Era o último filho do patriarca e o irmão mais novo do majestoso cavalheiro barbado ocupado em preparar o chá. Enquanto ainda estava nos braços do pai, apareceram mais dois filhos: encantadores meninos de olhos amendoados, voltando de sua aula do Alcorão, escoltados pelos escravos. Todos os irmãos saudaram-se afetuosamente e acariciaram com ternura quase feminina o bebê saltitante tão recentemente acrescentado às suas fileiras; e, finalmente, para coroar essa cena de intimidade doméstica, as três negras, concluído enfim seu esforço gigantesco, fizeram circular copos de hortelã fumegante e bandejas de chifres de gazela e bolos brancos de açúcar.
VI
Em Marrakech
Quanto mais se viaja para longe do Mediterrâneo e da Europa, mais cerradas ficam as cortinas dos aposentos das mulheres. O único harém no qual nos permitiram uma intérprete foi o do próprio sultão; nos haréns particulares de Fez e Rabat, um parente que falava francês transmitia, ou alegava transmitir, nossas observações; em Marrakech, o grande nobre e dignitário que amavelmente me convidou a visitar sua casa fez ouvidos moucos à nossa sugestão de que a presença de uma senhora de uma das escolas do governo francês poderia facilitar nossa conversa.
Quando chegamos de automóvel a seu palácio, um dos mais majestosos de Marrakech, a rua estava apinhada de membros do clã e clientes. Dignos mercadores em musselina branca, cujos cavalariços seguravam mulas brancas seladas com veludo cor-de-rosa; guerreiros do Atlas usando os cachos em saca-rolhas que são sinal de valor militar; comerciantes judeus de gabardinas pretas; camponesas com polainas de couro trazendo galinhas e queijo; e mendigos que reviravam os olhos cegos ou exibiam feridas cobertas de moscas, estavam reunidos em promiscuidade oriental em torno da porta do grande homem; enquanto sob a arcada permanecia um grupo de jovens e homens mais velhos de aparência guerreira, evidentemente membros de seu próprio clã.
O camareiro do caid, um homem de meia-idade e aparência digna, avançou para receber-nos entre clientes e comerciantes que se curvavam. Conduziu-nos por passagens frescas, revestidas dos intrincados mosaicos de Fez, diante de mendigos sentados em bancos de pedra que choramingavam bênçãos, e de pálidos artesãos fasis que assentavam um piso de delicados azulejos. O caid é amante da antiga arquitetura árabe. Sua esplêndida casa, ainda não concluída, foi planejada e decorada segundo as linhas dos antigos palácios imperiais e, quando alguns anos de sol, chuva e negligência oriental tiverem agido sobre seu cedro, dourado e estuque cor de marfim, terá a mesma beleza desbotada dos palácios encantados de Fez.
Num jardim onde fontes murmuravam e rosas trepavam entre ciprestes, o próprio caid nos esperava. Esse grande guerreiro e leal amigo da França é um magnífico homem de nariz aquilino, moreno, magro e musculoso, com olhos vigilantes sob o turbante de musselina cuidadosamente drapeado e lábios negroides parcialmente ocultos por uma barba negra e curta.
O chá foi preparado no cenário habitual: um longo aposento de arcadas, com teto pintado e paredes ricamente estucadas. Em toda a volta estavam dispostos os costumeiros colchões cobertos de tecido listrado e empilhados com almofadas de musselina. Uma cama de latão, imitando uma cama Luís XVI de palhinha e adornada com guirlandas e laços de latão, reinava sobre a plataforma habitual; os únicos outros ornamentos eram alguns relógios e ramos de flores de cera sob redomas de vidro. Como todos os orientais, esse herói do Atlas, que passa metade da vida com seus clãs guerreiros numa fortaleza medieval entre as neves e a outra metade rodando num automóvel de sessenta cavalos pelas estradas francesas lisas, parece desconhecer qualquer gradação de beleza ou adequação nos objetos de desenho europeu e coloca, diante dos requintados mosaicos e rendilhados de seus artesãos fasis, as bugigangas mais espalhafatosas das lojas de departamentos baratas.
Enquanto o chá era servido, notei uma pequena negra, de não mais de seis ou sete anos, imóvel no vão de uma arcada. Como a maioria dos escravos marroquinos, mesmo nas maiores casas, estava pobremente, quase esfarrapadamente vestida. Uma gandourah suja de musselina listrada cobria seu caftã desbotado, e um lenço barato estava enrolado acima de seu pequeno rosto grave e precocemente amadurecido. Com vigilância sobrenatural, acompanhava cada movimento do caid, que nunca lhe dirigia a palavra, não a olhava nem fazia o menor sinal perceptível, mas cujo mais leve desejo ela adivinhava instantaneamente, tornando a encher sua xícara, oferecendo os pratos de doces ou retirando nossos copos vazios, em obediência a alguma telegrafia secreta da qual dependia todo o seu ser.
O caid é um grande homem. Ele e seu famoso irmão mais velho, defendendo as fronteiras meridionais do Marrocos contra inimigos estrangeiros e rebeliões internas, desempenharam papel preponderante na defesa das colônias francesas no norte da África durante a longa luta da guerra. Esclarecido, culto, amigo das artes, erudito e diplomata, parece, ao contrário de muitos orientais, ter escolhido o melhor ao assimilar as influências europeias. Contudo, quando olhei para a pequena criatura que o observava com aqueles olhos ansiosos e sem alegria, tornei a sentir o abismo que a escravidão e o serralho colocam entre o maometano mais europeizado e a concepção ocidental da vida. As pequenas escravas negras do caid são bem conhecidas no Marrocos, e atrás da criança triste apoiada na arcada erguiam-se todos os males sombrios do sistema social que pende como uma pedra de moinho ao pescoço do Islã.
Pouco depois, uma bela negra esfarrapada atravessou o jardim para convidar-me ao harém. O capitão de S. e sua esposa, que me acompanhavam, eram velhos amigos do chefe, e foi por isso que as portas ciosamente guardadas dos aposentos femininos se abriram para Mme. de S. e para mim. Seguimos a negra até um pátio pavimentado de mármore, onde pombos esvoaçavam e desfilavam em torno da fonte central. De sob uma arcada treliçada, coberta por cortinas de linho, várias senhoras vieram ao nosso encontro. Saudaram minha acompanhante com exclamações de alegria e depois nos conduziram ao habitual aposento banal, com divãs e paredes caiadas. Mesmo nos mais suntuosos palácios marroquinos, pouco cuidado parece ser dedicado ao mobiliário dos aposentos femininos, a menos que, de fato, a sala onde os visitantes são recebidos corresponda à “sala de visitas” de um internato, e o toque pessoal fique reservado aos aposentos privados.
As senhoras que nos receberam estavam mais ricamente vestidas que quaisquer outras que eu vira, exceto as favoritas do sultão; mas seus rostos eram mais distintos, de contornos mais europeus, que os das beldades de faces redondas de Rabat. Meus acompanhantes haviam dito que o harém do caid era recrutado na Geórgia e que as senhoras que nos recebiam tinham sido criadas na relativa liberdade da vida em Constantinopla; e era fácil ler, em seus olhos melancolicamente sorridentes, lembranças de uma vida desconhecida das filhas passivas do Marrocos.
Pareciam não ocultar seus arrependimentos, pois logo uma delas, sorrindo, chamou minha atenção para algumas fotografias desbotadas penduradas acima do divã. Representavam grupos de jovens rechonchudas e provincianas em vestidos europeus de baile sem elegância; era necessário um esforço de imaginação para acreditar que as adoráveis criaturas em caftãs de veludo, com as têmporas delicadamente tatuadas sob toucados complicados e os pés tingidos de hena cruzados sobre almofadas de musselina, fossem as mesmas mulheres radiantes e deselegantes das fotografias. Mas, para as exiladas suntuosamente vestidas, aquelas fotografias desbotadas e aqueles vestidos feios representavam liberdade, felicidade e tudo quanto haviam perdido quando o destino, provavelmente sob a forma de um casal hebreu opulento “viajando com as filhas”, as transportara do Bósforo para o Atlas.
Como nos outros haréns que eu visitara, parecia reinar perfeita igualdade entre as senhoras e, enquanto conversavam com Mme. de S., cujas poucas palavras de árabe lhes haviam soltado a língua, tentei adivinhar qual delas era a favorita, ou ao menos a primeira em posição. Minha escolha oscilava entre a bonita criatura pálida com uma ferronnière sobre as têmporas e um caftã cor de rosa-chá velado por gaze azul, e a beldade castanho-avelã de veludo vermelho coberto de pérolas, cujas atitudes lânguidas e olhos de pálpebras longas se assemelhavam tanto aos retratos de Haidée, de Byron, nos anuários Keepsake. Ou talvez fosse a terceira, menos bonita, porém mais viva e animada, sentada atrás da bandeja de chá e que imitava com tanta expressividade um soldado levando o rifle ao ombro e outro caindo morto, em sua tentativa de perguntar-nos “quando terminaria a terrível guerra”? Talvez... a menos que fosse, na verdade, a bela mestiça de um oitavo de sangue negro, ligeiramente mais velha que as demais, mas ainda mais ricamente vestida, tão livre e nobre nos movimentos e tratada pelas outras com deferência tão amistosa.
Impressionou-me o fato de não haver uma única criança entre elas; era o primeiro harém sem bebês que eu via naquela terra prolífica. Pouco depois, uma das senhoras perguntou a Mme. de S. por seus filhos; em resposta, ela perguntou pelo menino do caid, filho de sua esposa falecida. Os rostos das senhoras iluminaram-se com melancolia, deu-se uma ordem a uma escrava, e logo um fantasma de criança, de olhos grandes, foi trazido ao aposento.
Imediatamente, todos os braços cobertos de pulseiras se estenderam para o filho da mulher morta; e, ao observar o pequeno corpo frágil coberto de amuletos e a cabeça pesada de cachos ralos comprimida contra um peito de brocado, recordei-me de um dos Meninos Jesus de Crivelli cobertos de coral, de pé, lívidos e cerosos, sobre os joelhos de uma Madona esplendidamente vestida.
O pobre bebê, sobre quem repousavam tantas esperanças e ambições, fitava-nos com olhar solene e sem alegria. Conseguiriam todas as suas belas mães, pareciam perguntar seus olhos, fazê-lo chegar à idade adulta apesar dos verões ressequidos do sul e da existência sufocante do harém? Era evidente que nenhuma precaução fora negligenciada para protegê-lo das influências maléficas e do perigo que caminha durante a noite, pois seu frágil pescoço e seus pulsos estavam cobertos de incontáveis talismãs: versos corânicos, encantamentos sudaneses e imagens de ídolos esquecidos em âmbar, coral, chifre e âmbar-cinzento. Talvez afastem as forças do mal e lhe permitam crescer para assumir a incumbência dos grandes caids do sul.
Notas:
[20] A msalla é usada para a realização de cerimônias religiosas quando a multidão é grande demais para caber no pátio da mesquita.