Uma noite sem nome 🌆
Chamas vermelhas bruxuleavam.
Tingiam a escuridão em carmim.
Sombreavam, fantasmagóricas, as jovens feições dos jovens reunidos em frente à tv.
Seus sussurros ansiosos se perdiam na brisa.
As janelas, abertas, ameaçavam extinguir a fraca luz emanada das velas.
Mesas e cadeiras repousavam, silenciosas, contra as paredes da sala.
Testemunhavam o crime ali cometido. E quando a primeira das velas se apagou, rangeram, pontuando o suspiro de uma das garotas.
– Foi você? – A jovem perguntou ao garoto mais próximo, soando afobada.
Ele negou.
Outra chama se foi.
Todos prenderam a respiração.
Trocaram olhares. Ligaram a tv de tubo, ansiosos, e puseram a tocar o VHS encontrado no cemitério.
Um clique,
Dois.
E a tela chiou.
Um chuvisco rasgou a escuridão.
Se apagando em seguida.
Outra vela se foi.
Restavam duas.
Sua luz, trêmula, banhava tímida a feição das jovens garotas mais adiante.
Tremiam. Tinham os lábios crispados. Os olhos arregalados. E a maquiagem borrada de lágrimas.
Não queriam estar ali.
Não deviam estar ali.
Sua professora havia alertado;
“Não tragam à vida aquilo que já se foi.”
Eram exorcistas. Não necromantes.
E se descobrisse…
Outra vela se apagou, mergulhando-nos em escuridão.
Uma das jovens, trêmula, caiu inconsciente - tomada pela pressão.
Suas amigas se apressaram a ajudar-lhe, mas os demais, mal se moveram.
Passos ecoavam - vindos do corredor.
E ainda restava uma vela.
Começavam a recear que a velha caneta de prata no centro do pentagrama nada mais fosse do que um objeto comum.
Cravada em brasões espectrais, chiava ao toque. A haviam desenterrado da tumba de uma velha estudante, e tinham certeza de que daria ao ritual um quê de misticismo.
Um dos jovens se inclinou sobre a última vela, nervosos.
Os passos se aproximavam.
Cada vez mais próximos.
E então… cessaram.
A porta se abriu - não mais que um palmo. E a última das chamas cessou, falhando em resistir à brisa vinda do corredor.
Os jovens se contorceram.
Incapazes de encarar as íris ardentes da professora que ousaram desafiar.
E em meio às sombras, um sorriso surgiu.
Todos se levantaram. Culposos, deixando para trás as fitas e velas que tinham furtado do armazém.
Dedos esguios tomaram a caneta, manchando o pentagrama. E uma das jovens que havia se apressado a ajudar à enferma, deslizando a relíquia por entre os seios, sorriu envergonhada, correndo para junto dos demais.
Ninguém estranhou.
Ninguém viu.
Em meio às sombras, como poderiam?
Aquela caneta era sua.
E ela? Sempre esteve ali.
Sorrindo - das sombras.
Com o passar das semanas, sua presença se tornou evidente.
Olhos carmim. Cabelos azuis. Dedos pálidos, esguios. Unhas sujas de terra. Um sorriso solene… e uma caneta que nunca deixava suas mãos.
Em cada missão, ela estava lá.
Sempre na linha de frente, expulsando, feroz, cada imigrante que ousava traçar a fronteira entre mundos.
Mesmo jovem, as narrativas cruéis que traçava para cada alma expurgada - bruxuleantes em tinta dourada, obrigava-nos a se curvar.
Quando tomou para si o assento da diretora. E quase ninguém estranhou. Seu rosto - jovem, já decorava os corredores em quadros e vinhas de mármore.
A idosa que, no entanto, deveria lhe ocupar, questionou a audácia daquela que ousava roubar seu lugar.
Tomou as escadas.
Sua bengala fazia soar o toque de um relógio à cada degrau.
Saiu para o corredor.
Abriu a porta, curvando a maçaneta em sua palma enrugada e, vendo-a… congelou.
Sorria, traçando no ar narrativas inacabadas. Tinha os olhos escuros, fixos na caneta que, já velha, se recusava a obedecê-la e, cruzando as pernas, suspirou, se inclinando sobre o punho para cumprimentar, com um sorriso, a velha amiga que lhe encarava da porta.
Qualquer um que o visse, tomaria aquele como um reencontro comum, mas a velha diretora via - nitidamente - o reflexo que faltava no espelho da escrivaninha.
O mundo se curvava perante a jovem, como se lhe pertencesse. Mas ela própria, não pertencia a este mundo.
Não mais.
Anos, séculos atrás, o assento real, de fato, havia lhe pertencido.
Mas seus olhos carmim haviam sido arrancados, e sua própria alma, expurgada do mundo por traição.
Não deveria estar viva.
Mas estava.
E agora, o mundo tinha seu roteirista outra vez.