Uma noite sem nome 🌆 Contos e Recontos · Capítulo 2 de 8
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Uma noite sem nome 🌆

Chamas vermelhas bruxuleavam.

Tingiam a escuridão em carmim.

Sombreavam, fantasmagóricas, as jovens feições dos jovens reunidos em frente à tv.

Seus sussurros ansiosos se perdiam na brisa.

As janelas, abertas, ameaçavam extinguir a fraca luz emanada das velas.

Mesas e cadeiras repousavam, silenciosas, contra as paredes da sala.

Testemunhavam o crime ali cometido. E quando a primeira das velas se apagou, rangeram, pontuando o suspiro de uma das garotas.

– Foi você? – A jovem perguntou ao garoto mais próximo, soando afobada.

Ele negou.

Outra chama se foi.

Todos prenderam a respiração.

Trocaram olhares. Ligaram a tv de tubo, ansiosos, e puseram a tocar o VHS encontrado no cemitério.

Um clique,

Dois.

E a tela chiou.

Um chuvisco rasgou a escuridão.

Se apagando em seguida.

Outra vela se foi.

Restavam duas.

Sua luz, trêmula, banhava tímida a feição das jovens garotas mais adiante.

Tremiam. Tinham os lábios crispados. Os olhos arregalados. E a maquiagem borrada de lágrimas.

Não queriam estar ali.

Não deviam estar ali.

Sua professora havia alertado;

“Não tragam à vida aquilo que já se foi.”

Eram exorcistas. Não necromantes.

E se descobrisse…

Outra vela se apagou, mergulhando-nos em escuridão.

Uma das jovens, trêmula, caiu inconsciente - tomada pela pressão.

Suas amigas se apressaram a ajudar-lhe, mas os demais, mal se moveram.

Passos ecoavam - vindos do corredor.

E ainda restava uma vela.

Começavam a recear que a velha caneta de prata no centro do pentagrama nada mais fosse do que um objeto comum.

Cravada em brasões espectrais, chiava ao toque. A haviam desenterrado da tumba de uma velha estudante, e tinham certeza de que daria ao ritual um quê de misticismo.

Um dos jovens se inclinou sobre a última vela, nervosos.

Os passos se aproximavam.

Cada vez mais próximos.

E então… cessaram.

A porta se abriu - não mais que um palmo. E a última das chamas cessou, falhando em resistir à brisa vinda do corredor.

Os jovens se contorceram.

Incapazes de encarar as íris ardentes da professora que ousaram desafiar.

E em meio às sombras, um sorriso surgiu.

Todos se levantaram. Culposos, deixando para trás as fitas e velas que tinham furtado do armazém.

Dedos esguios tomaram a caneta, manchando o pentagrama. E uma das jovens que havia se apressado a ajudar à enferma, deslizando a relíquia por entre os seios, sorriu envergonhada, correndo para junto dos demais.

Ninguém estranhou.

Ninguém viu.

Em meio às sombras, como poderiam?

Aquela caneta era sua.

E ela? Sempre esteve ali.

Sorrindo - das sombras.

Com o passar das semanas, sua presença se tornou evidente.

Olhos carmim. Cabelos azuis. Dedos pálidos, esguios. Unhas sujas de terra. Um sorriso solene… e uma caneta que nunca deixava suas mãos.

Em cada missão, ela estava lá.

Sempre na linha de frente, expulsando, feroz, cada imigrante que ousava traçar a fronteira entre mundos.

Mesmo jovem, as narrativas cruéis que traçava para cada alma expurgada - bruxuleantes em tinta dourada, obrigava-nos a se curvar.

Quando tomou para si o assento da diretora. E quase ninguém estranhou. Seu rosto - jovem, já decorava os corredores em quadros e vinhas de mármore.

A idosa que, no entanto, deveria lhe ocupar, questionou a audácia daquela que ousava roubar seu lugar.

Tomou as escadas.

Sua bengala fazia soar o toque de um relógio à cada degrau.

Saiu para o corredor.

Abriu a porta, curvando a maçaneta em sua palma enrugada e, vendo-a… congelou.

Sorria, traçando no ar narrativas inacabadas. Tinha os olhos escuros, fixos na caneta que, já velha, se recusava a obedecê-la e, cruzando as pernas, suspirou, se inclinando sobre o punho para cumprimentar, com um sorriso, a velha amiga que lhe encarava da porta.

Qualquer um que o visse, tomaria aquele como um reencontro comum, mas a velha diretora via - nitidamente - o reflexo que faltava no espelho da escrivaninha.

O mundo se curvava perante a jovem, como se lhe pertencesse. Mas ela própria, não pertencia a este mundo.

Não mais.

Anos, séculos atrás, o assento real, de fato, havia lhe pertencido.

Mas seus olhos carmim haviam sido arrancados, e sua própria alma, expurgada do mundo por traição.

Não deveria estar viva.

Mas estava.

E agora, o mundo tinha seu roteirista outra vez.

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