Cartas para Emilly🪶 Contos e Recontos · Capítulo 8 de 8
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Cartas para Emilly🪶

-02/04/2023

Querida Emilly,

Faz tempo que não lhe escrevo. E me desculpo por isso. Não era minha intenção fazer desfeito da nossa amizade. Desde que nos correspondemos pela última vez, muito ocorreu em minha vida.

Hoje, retorno, na expectativa de que me receba de braços abertos. Já não sou a mesma, mas você permanece imutável.

Gostaria de ser assim - intocável pelo tempo. Mas talvez, esteja apenas projetando em você meus lamentos, e ignorando seus pesares.

Suspiro, se me permite, e me sento ao seu lado.

Seu calor é o mesmo de que me lembro. E sua pele, tão clara, ainda recebe meu toque com gentileza.

Há tanto tempo estamos distantes… é bom te ter ao meu lado outra vez.

-03/04/2023

Querida Emilly,

Hoje, te escrevo do velho chalé aos pés daquele morro fúnebre que temíamos quando mais novas.

Estou, neste momento, debruçada sobre o balcão da cozinha, admirando o crepitar suave das toras no fogão a lenha.

Posso ouvir, lá fora, algumas crianças. Falam baixinho e, vez ou outra, espiam através da janela. Pensam que não, mas vejo tudo. E sorrio, encantada com o esforço que dedicam à encobrir uns aos outros enquanto tentam, discretos, se pendurar no velho balanço de pneu.

Sua cautela não é infundada, devo confessar. Quando cheguei para passar as férias, a brisa suave trouxe-me um estalo aos ouvidos e vi, logo ao desembarcar, um dos garotos - pequeno, de nariz achatado e olhos brilhantes, - se pendurando em um galho fino.

Já irritada pela viagem, ordenei que descesse, e temo que minha rudez tenha voado de boca em boca até transformar-me em uma bruxa.

Pessoalmente, não acho que mereça. Sou uma dama de graça e beleza indubitáveis, não um monstro.

E claro, escrevo-lhe - ao invés de me preocupar com as crianças - somente por já ter podado a raiz dos problemas.

Quase literalmente - acho engraçado ressaltar - não fosse o fato de que eliminei apenas os galhos mais fracos. E também, desci o pneu, facilitando o acesso.

-06/04/2023

Estimada Emilly,

Me encontro no balanço de pneu. O céu é azul. As nuvens são fofas. Ao longe, vejo uma carroça. Me pergunto se são os moradores da fazenda próxima. Ou se são parentes das crianças.

Elas não vêm brincar já faz alguns dias. Me pergunto o que aconteceu. Talvez devesse perguntar à seus pais, mas não sei como explicar exatamente porquê me preocupo com elas.

Talvez porque me lembram da época em que vivíamos nós sete nessa casa. Havia sempre alguém no balanço. Nós duas só conseguíamos brincar ao anoitecer. Se lembra disso?

Meu pai sempre brigava conosco quando ouvia o pneu ranger no meio da madrugada. Nos enxotava para dentro. Trancava a porta do quarto. E só nos deixava sair quando o sol já brilhava alto no céu.

Eu ficava tão irritada, tão chateada, que passava o dia ao seu lado, escondida no pé de manga. Vez ou outra, aquele garotinho que morava no lago vinha brincar conosco.

Ele era fofo. Me pergunto como está hoje em dia. E que tipo de pessoa se tornou. Da última vez que nos vimos, brigou comigo. Não me lembro muito bem por quê. Você se recorda?

Bem, a carroça vai passar por aqui a qualquer momento. Se me permite, vou ali, fofocar.

-07/04/2023

Querida Emilly (e sim, volto a partir desta carta, a tratar-lhe por ‘querida’ - creio ser mais digno da senhorita, e representar bem nosso vínculo),

Venho, infelizmente, informar-lhe por meio desta, que não havia muito a se descobrir a respeito da carroça que vi ontem ao entardecer.

Talvez a monotonia da vida rupestre esteja impelindo-me a procurar o extraordinário em meio ao comum. Talvez, seja apenas minha mente tentando se manter ativa. Mas tive expectativas excessivas acerca de sua natureza.

As rodas - esculpidas em carvalho - e os cavalos que a puxavam - de boa raça, no fim, eram meros sinais da prosperidade que ainda reina por estas terras. E já não governa a propriedade da família.

A grama está morrendo. As árvores já não dão frutos. O telhado goteja. O fogão a lenha mal consegue sustentar seu fogo…

Aquelas noites em que todos nos sentávamos à mesa para jogar cartas ou conversar me parecem cada vez mais distante.

Se Elaine tivesse me contado o quão rápido o lugar se degradou, talvez pudesse ter feito algo à respeito. Mas agora, só o que posso é manter o balanço de pneu inteiro.

…Elaine é tão fácil de se culpar por tudo. Mas a verdade, é que mesmo que tivesse falado algo, eu provavelmente não teria feito nada.

-09/04/2023

Uma das crianças pegou Covid

-13/04/2023

Querida Emilly,

Tenho, nos últimos dias, regado a grama no alcance da mangueira. Com orgulho, relato que a cor, aos poucos, retorna às suas folhas.

Tento, também, reavivar o antigo canteiro de flores que minha mãe cultivava. No entanto, tenho tido dificuldades com ele em específico. As flores se recusam à brotar, e temo estar cultivando ervas daninhas em seu lugar.

Isto, claro, é inaceitável. Mulheres, principalmente as mais jovens, se encantam por flores, não parasitas. E estes têm frustrado minhas tentativas de dar à este terreno fúnebre algum sopro de vida.

Não desistirei. Me recuso a permitir que as crianças se exponham à essa morbidez.

Creio que você deva se recordar de como minha mãe cuidava do canteiro, não?

-14/04/2023

Querida Emilly,

Temo não ter encontrado grande ajuda em nossas memórias, no entanto, revisá-las proporcionou-me não apenas imensa nostalgia, mas também, uma descoberta adorável.

Creio que se recorde que, quando menor, gostava de, em meio aos estudos, narrar meu dia a dia.

Pois bem;

“Podia ouvir seus gritos, furiosos, vindos da cozinha.

Esbravejava, acusando minha mãe de incentivar minha rebeldia.

Abracei os joelhos, escondendo o rosto nas pernas, e tentei ignorar.

O sol já estava se pondo. Tingia a grama de laranja. As folhas de vermelho, e o céu, de carmim.

Era lindo, mas não via direito. Minhas mãos tremiam. Meus olhos estavam cheios de lágrimas.

Não entendia. E ainda não entendo. Porque o papai me tratava tão mal.

Desde que tínhamos visitado a vovó, na cidade, e aquele moço de jaleco branco tinha pedido que eu resolvesse alguns problemas; agia assim - como se eu existisse apenas para estudar.

– Ei?! – Exclamaram do chão.

Baixei o olhar, esfregando os olhos.

Era um garoto gordinho. Seus olhos pareciam uvas. Seu cabelo, carvão. E sua pele era tipo chocolate.

Ergui uma sobrancelha, não entendendo por que me incomodava, e ele, irritado, deu um passo à frente.

– Esse galho é meu! – Declarou, tentando me intimidar.

Apenas revirei os olhos. Ele inflou as bochechas. Se aproximou. Agarrou o tronco da árvore, e começou a subir.

O galho em que estava balançou e, assustada, me agarrei.

– Você vai me derrubar!!! – Tentei empurrá-lo com o pé.

– Esse lugar é meu! – Retrucou.

– Não tem seu nome escrito aqui!

– Esse pé de manga é meu! – Insistiu, chegando perto o bastante para que meus dedos roçassem seu cabelo e, com um coice, eu o derrubasse.

A árvore balançou. Congelei, apertando meu abraço em seu tronco. O garoto gemeu, caindo no chão, e me dirigiu um olhar irritado.

– Você vai pagar por isso! Eu vou contar pro meu pai!

– Conta, sua bola! – Rosnei, os olhinhos cheios de lágrimas. – Esse pé de manga está na minha casa!”

Adorável, não? E meio preocupante também. Não me recordo bem do que aconteceu após isso. Se encontrar a continuação em minha busca, prometo compartilhar.

16/04/2023

Querida Emilly,

Partilho, com ressalvas, que decidi enviar à minha mãe uma nobre mensagem, questionando-a acerca dos métodos de cultivo que aplicava ao canteiro.

Ela, claro, não se recorda. A velhice já lhe corroeu as memórias. E ao divorciar-se, teve seus pertences tomados por meu pai.

Não pretendo lhe escrever muito hoje, e me desculpo por isso. Tentarei encontrar respostas em alguns livros.

19:13pm -

Sei que disse que não escreveria mais, contudo, não posso deixar de contar-lhe ter encontrado as respostas que procurava.

Mas não nos livros.

Estava sentada à varanda quando uma das vizinhas, já idosa, decidiu questionar-me à respeito do que vinha fazendo com o canteiro.

Partilhei meus esforços para reavivá-lo, e não imagina a surpresa que tive, ao explicar minha identidade e motivos, em descobrir que aquela era ninguém menos que Noemi! - uma querida amiga da mamãe.

Seu marido morreu há algum tempo. Vive sozinha nas proximidades, e me ofereceu sua ajuda com as flores.

Terei companhia pelos próximos dias.

-18/04/2023

Querida Emilly,

Não sei bem por onde começar desta vez. Estes últimos dois dias foram… algo que receio não ter um vocabulário suficientemente erudito o bastante para descrever.

Noemi tem me ajudado, todas as manhãs, a arar o canteiro, regar as sementes e podar as ervas daninhas.

Presenteou-me com alguns sacos de fertilizante, que relutantemente aceitei, frisando estar somente de passagem, e se uniu à mim esta tarde para tomarmos café.

Insistiu para fazê-lo, mas, como a anfitriã, mantive-me firme em meu direito de servir-lhe.

Nos sentamos no velho banco de madeira em frente ao armazém, e começamos a conversar.

Não sei por que, mas entre cordialidades, questionei-lhe acerca da família que vivia no lago. Sua memória - também já falha, - demorou a responder, mas ainda, o fez;

– Venderam a propriedade. – Partilhou, meio nostálgica.

Era próxima daquela família. E mesmo assim, os havia esquecido.

Quão cruel o tempo podia ser, me surpreendeu. Mas, não mais do que o amargor que me tomou com a notícia.

Claro - o atribuí ao café.

22:37pm-

“Fechei os dedos em seu entorno, ouvindo alguém se aproximar. Não eram passos adultos. Elaine, talvez?

Estendi a mão, agarrando um galho mais alto, e me icei por entre as folhas até um esconderijo melhor.

A árvore balançou. Algumas mangas caíram. E um gemido familiar se fez ouvir.

Cerrei os olhos. Era a bola.

– Micos estúpidos. – Reclamou, chutando uma manga, e entrou em meu campo de visão.

Estava descalço - seus pés, sujos de suco. Vestia uma calça larga e uma camisa xadrez. Parecia a do vovô.

Ele se aproximou. Recuei um pouco. Mas, ao vê-lo começar a escalar, instintivamente agarrei uma manga, jogando-a em sua cabeça.

– Aí! – Caiu no chão, esmagando algumas mangas, e ergueu o olhar, furioso.

Seus olhos encontraram os meus e começou a falar, mas o ranger de uma porta fez com que, assustado, se levantasse e corresse para longe.”

-19/04/2023

Emilly, estou sentada na varanda. Lágrimas nos olhos. Um sorriso bobo no rosto. E uma caneta nas mãos.

As crianças voltaram. Todas elas. E estão brincando no balanço de pneu. Riem e conversam.

Vez ou outra, uma delas acena para mim. Talvez alguém tenha lhes contado que estava preocupada, talvez seja apenas sua inocência. Mas… creio não me verem mais como uma bruxa.

-24/04/2023

Querida Emilly,

A primeira das flores brotou.

Suas pétalas são finas, quase transparentes. Suas folhas são verdes e seu caule, tão delicado, luta para mantê-la de pé.

Fitando a terra fofa, me perguntou quanto mais demorará para que as outras sigam seu exemplo.

Minhas férias logo se encerrarão. Gostaria de vê-las brotar antes de partir.

No entanto, mesmo que não as veja. Sei que Noemi cuidará bem delas. E as crianças, todos os dias poderão admirá-las em meu lugar.

Tenho brincado com elas. São todas muito inteligentes e amáveis.

Acho que vou sentir falta daqui. Outra vez.

23:00pm-

Estou aqui, de novo, revendo nossas memórias. Tenho feito isso nos últimos dias. Não sei por que, mas correndo os dedos por estas páginas…

“Lágrimas tampavam minha visão. Queria gritar. Espernear. Mas não podia. Mesmo sentindo tanta dor… não podia demonstrar.

Se dissesse qualquer coisa, seria pega. Sabia disso. E observava em silêncio o balanço de pneu ser desmontado.

A lua, no céu, parecia indiferente aos que acontecia. E as estrelas já não me traziam conforto. Abracei os joelhos, soluçando, e tentei me acalmar.

Não podia ser pega. Se meu pai soubesse que havia fugido outra vez, a próxima coisa que tiraria de mim…

Me levantei - as pernas bambas, a mente aérea. Corri em direção ao pé de manga, mas algo bateu em mim.

Cai no chão, mordendo os lábios, e olhei em volta. Minha cabeça doía.

Uma manga rolou, parando não muito longe, e ergui o olhar, sentindo o estômago arder.

Sentado em um dos galhos do pé de manga, a bola segurava uma manga em mãos. Tinha as sobrancelhas franzidas e me encarava com algo que parecia ser raiva e desgosto, misturados com… pena.

Esfreguei os olhos, tentando enxugar minhas lágrimas, e me forcei a me levantar. Escorreguei, no entanto, em uma manga, e caí novamente.

Passos começaram a soar.

Meu coração parou.

Corri, desesperada, até o pé de manga, começando a escalar. Congelei, temendo que a bola me derrubasse, e ergui o olhar.

Seus olhos encontraram os meus. Ele se inclinou. Me estendeu a mão. E quando a agarrei, me puxou para cima, me ajudando a me esconder.

Meu pai surgiu em nosso campo de visão. Dirigi um olhar de canto ao garoto, tremendo, e prendi a respiração.

Seus passos eram pesados. Seu cenho, sombrio. Investigou os arredores, procurando-me, e ao não me encontrar, se retirou.

Não ousei respirar, e o garoto, vendo-me começar a enfraquecer, arrancou minha mão do meu rosto.

– O que você está fazendo?! – Me confrontou - sua voz baixa.”

-25/04/2023

Querida Emilly,

Estou, neste momento, sentada à margem do lago. Esta viagem deveria ser um descanso. Um respiro. Mas desde que encontrei o primeiro daqueles rabiscos, não consigo parar de pensar no passado.

Existe… um buraco, em minhas memórias. Algo que nunca notei antes. E… não posso afirmar com certeza, mas sinto, cada vez mais, que perdi algo importante ao esquecer.

Tenho ciência, claro, de que provavelmente esqueci para me proteger da dor com a qual convivemos quando menores. Mesmo assim… vou procurar mais daqueles relatos que escrevi quando criança.

Me acompanharia, Emilly?

-26/04/2023

“– Ei, Jatobá!

Baixei a caneta, olhando para baixo. Era a bola.

Me encarava, de braços cruzados e bochechas infladas.

Franzi as sobrancelhas, me inclinando sobre o galho;

– Você me chamou de jatobá?

– Sim, cabelo de jatobá. – Repetiu, áspero.

Estalei a língua, jogando uma manga em sua direção. Ele desviou, já acostumado, e se aproximou;

– Vai me deixar subir ou vou ter que chamar o seu pai?

– Se você chamar ele, eu te mato. – Rosnei, tentando intimidá-lo.

O garoto revirou os olhos e começou a escalar, logo se sentando ao meu lado.

– Você é muito agressiva.

– E você é gordo. – Retorqui, baixinho, virando o rosto.

Ele ouviu.

– Isso foi cruel.

– Me chamar de jatobá também.

Me encolhi um pouquinho, amarga.

– Desculpa.

– Não.

Encarei-lhe.

– Por que não?

– Porque não foi honesto.

– O que você quer?

Não respondeu. Me irritando. O empurrei de leve, fazendo-lhe cambalear.

– Qual o seu problema?! – Esbravejou, se segurando com força em meu braço.

– Me solta! – Tentei me afastar. Ele era forte.

Ao se reequilibrar, me soltou.

– Você é muito mimada. Aposto que é por isso que seu pai não gosta de você.

Apertei a caneta, virando o rosto. O garoto me olhou, aguardando que respondesse, mas não o fiz.

– Desculpa. – Pediu, baixinho.

Sua voz tremia. Soava… sincera.

– …eu te desculpo. – Murmurei, baixinho.

Ficamos em silêncio por algum tempo. Ele, brincava de descascar folhas soltas, e eu, encarava o chão.

– Por que seu pai é tão assustador? – Perguntou após algum tempo.

Hesitei em responder, balançando a cabeça.

– Não tenho certeza. Ele diz que eu sou uma menina má. Que não vou ser ninguém na vida se não obedecer ele. E que vou acabar como uma puta de esquina se não estudar.

Ele parou de brincar, se virando em minha direção - o rosto sério.

– Essa palavra é feia. – Repreendeu.

– Ela é? – Me inclinei, um pouco confusa. – Foi ele que disse.

– Ele é mau.

– Mau com u?

– Mau com u.

– Mas ele é meu papai.

– E é mau.”

-27/04/2023

“Ergui o olhar do livro, sentindo a árvore balançar. Passados alguns segundos, a bola se pendurou no meu galho, se sentando ao meu lado.

– O que está fazendo? – Perguntou ao ver o livro.

– Lendo. – Calmamente retorqui.

– Lendo? É uma história de ninar? – Se inclinou, tentando ler, e se afastou, desgostoso, ao ver as formas geométricas em destaque. – Você gosta disso?

– Não.

– Então por que está lendo essa coisa horrorosa?

– Porque meu papai começou a me fazer perguntas sobre o que eu estou estudando.

– Então agora nem quando foge você pode dar uma pausa?

Assenti.

– Isso é chato. – Ele comentou. – Por que ele insiste tanto nos seus estudos?

– Porque um moço de jaleco disse que eu sou um grêmio.

– Um grêmio?

Assenti.

– Ele disse que eu tenho um pequi muito alto. E que se eu estudar muito, vou virar alguém importante.

Ele revirou os olhos, estalando a língua.

– Eu sou ótimo em matemática e nem por isso estudo o tempo todo. Você não vai virar alguém importante sendo chata.

– Isso é inveja?

– Não. – Cruzou os braços, bufando.

Encarei o livro por um momento, pensando a respeito, e o fechei;

– Desculpa por te chamar de gordo daquela vez. Não foi legal.

Ele arregalou os olhos, surpreso.

– Você está se desculpando, de verdade?

– Não acostuma… – Inflei as bochechas, me escondendo. – É só porque, na minha cabeça, eu estava te chamando de ‘bola’, e eu não quero me tornar uma bruxa.

– Você é baixinha demais pra isso.

Lhe dirigi um olhar feio, me segurando para não dizer mais coisas más, e bufei.

– Qual o seu nome?

– Luiz. E o seu?

– Segredo.

– …eu vou te bater.”

-28/04/2023

Nem voltei para casa, e já voltaram a me ligar. Parecem crer que sou suporte integral do setor fiscal. É, de certa forma, irritante saber que exista quem cronometre os segundos para o término das férias de outras pessoas para fazer uma ligação.

Normalmente não o faria, mas recusei todas as ligações e pedi que retornem novamente quando estiver de volta ao meu lar. Me recuso a perder meu último dia aqui com finanças e reclamações.

Estou à beira do lago outra vez. Próxima ao cais da velha mansão, onde “a bola” morava.

É triste como a memória humana se desgasta com o tempo.

Me recordo de mergulhar no lago. Discutir com alguém e correr de peixes recém pescados. Mas se não fossem as notas que encontrei, talvez sequer me lembrasse.

É possível que tenha esquecido para me proteger de algo. Mas importo-me menos com o “porquê” e mais com “o que” eu perdi.

Trouxe as crianças comigo, e vê-las correndo e pulando me provoca uma nostalgia dolorosa, e uma sensação estranha de que aquele sorriso um dia me pertenceu.

Encontrei outros rabiscos e notas soltas da minha infância, e não me lembrava dela como é. Não me lembrava, para ser honesta.

Meu pai me maltratou, usou, separou do meu único amigo, e depois me descartou.

Talvez ainda dê tempo de abrir um processo judicial contra ele? Creio que essas notas, testemunhas e mais duas ou três evidências sejam o bastante para indiciá-lo. Apenas… hesito em ferir minha mãe. Já está tão cansada, não quero envolvê-la em confusão.

Sabe, o sol está radiante. As nuvens, fofinhas, cruzam o céu tão preguiçosamente que parecem congeladas sobre a tela azul.

A grama está quentinha sob meu corpo, e a risada das crianças me enche o peito de uma forma que falho em explicar.

Em meu colo, repousa uma folha de caderno amarelada, meio amassada, e ao seu lado, um anel de grama.

Foi uma surpresa encontrá-los em minhas memórias, mas, sendo honesta; já me recordo o que está gravado nesta carta do passado.

E não tenho mais tanta coragem quanto pensei para enfrentar-lhe.

…

Espero ser forte o bastante dessa vez, como um dia me pediram para ser. Pois se partir sem ler esta nota, nunca mais o farei, pois estarei nos deixando.

Outra vez.

23:52pm-

“Meu coração batia acelerado.

Era difícil respirar.

– …o que você disse?

– Que se você for minha, eu posso te proteger! – Ele repetiu, chegando mais perto.

Tentei dizer algo, mas falhei. Encarei o chão, mordendo meus lábios, e te apertei em meus braços.

Luiz notou e se chegou um pouco mais perto, me encurralando.

Seus olhos brilhavam. E soava tão determinado…

– …se eu for sua… o que significa?

– Que você vai ser minha esposa, vai ter meu sobrenome e eu vou te proteger sempre e sempre! É o trabalho de um homem proteger sua mulher.

Levou uma mão ao peito e, vendo-me hesitar, tirou do bolso alguns fios de grama, trançando-os rapidamente em um anel.

A bola se aproximou, lentamente.

Recuei, assustada, e ele se ajoelhou, me estendendo com firmeza o pequeno e frágil acessório:

– Você aceita?

– …

Seus dedos gordos apertaram sutilmente o anel.

– Você me irrita e é muito sem graça, então vou assumir a responsabilidade por você e te tornar mais divertida te fazendo feliz, eu prometo! Você nunca mais vai passar as noites estudando, nem vai precisar se esconder em uma árvore! Nem ver seu pai!

– Mas… eu… – Meus olhos começaram a embaçar. – Eu estou indo embora…

– Eu sei! – Imediatamente se levantou, tropeçando sob o próprio peso. – Por isso, – se forçou a se recompor – pode favor. Me deixa cuidar de você.

– …você não faz ideia do que está pedindo. Nós somos crianças. Você vai esquecer isso.

– Eu posso não ser inteligente como você, mas eu sei o que uma promessa significa!”

17/05/2023

Querida Emilly,

Sei que já faz um tempo que não escrevo. Peço perdão. Voltei ao trabalho e tem sido muito corrido.

É difícil tirar algum tempo para mim quando todos os setores vivem no meu pé. Às vezes, me arrependo de ter prestado aquele concurso.

Ganho bem, mas… não tenho vida.

Sinceramente, já nem me lembro porque fiz aquela prova.

Estava tentando fugir?

…por que minha memória é tão ruim?

Talvez… sequelas de todo o esforço que meu pai forçou sobre mim naquela época?

Bem, quem sabe.

Tenho me perguntado onde colocar o anel de grama. Já está seco. Quase esfarelando. É velho, feio, mas… não quero jogar ele fora. Não quero perder ele outra vez.

Onde acha que ponho?

Posso eternizar em resina.

Ou pedir para banharem a ouro e fazerem uma aliança.

Não levo algo de décadas atrás muito a sério. Mas… aquela garotinha merece ser cuidada, ao menos uma vez. E isso era importante para ela.

Sei que a Octávia do Setor Social casou recentemente e pediu para um ferreiro fazer as alianças dela a partir de algumas joias antigas.

Vou pedir o contato dele.

19/05/2023

Pedi à uma artesã para fazer um anel de resina com o anel de grama dentro dele.

Soa confuso, mas eu juro que faz sentido pra mim.

Mas já faz quase uma semana isso! Eu estou morrendo de ansiedade. Que demora.

As luzes brancas do escritório, o cheiro estéril, as paredes de

cerâmica…

Eu sinto falta da varanda, do balanço de pneu, do horizonte verde.

Eu quero fugir, Emilly.

E nem me lembro quando foi a última vez que eu quis isso.

20/05/2023

Querida Emilly,

Desisti de escrever no trabalho. Vou te escrever após cada expediente.

23/05/2023

Estava relendo os primeiros textos de quando voltei a te escrever. Talvez devesse voltar a agir toda pomposa?

Convenhamos, seria mais agradável do que toda essa confusão.

Minha rotina no trabalho tem sido a mesma.

Não tenho notícias de ninguém.

Acho que vou intervir.

12/06/2023

Bela Emilly,

Não creio já ter lhe contado, mas há uma jovem particularmente social trabalhando no setor de recursos humanos da empresa afiliada à minha.

Seu cabelo é carmim. Seus olhos esverdeados. E cada passo dela é dado com uma confiança que parece abalar todos os homens solteiros do recinto.

Minhas sardas pareceriam marcas divinas em sua pele e se, como eu, usasse óculos, até mesmo as mulheres se jogariam aos seus pés.

É muito popular, mas também exigente. Está sempre saindo com alguém diferente e, algum tempo atrás, me perguntou se não a acompanharia em um encontro duplo.

Aparentemente, o homem com quem estava em contato era um jornalista e desejava falar comigo. E só levaria seu melhor amigo ao encontro - o homem no qual ela tinha interesse - se eu estivesse lá.

Claro, na época, recusei. Mal a conhecia. Mas pedi seu número à Octávia e perguntei:

– Ainda estão disponíveis?

14/06/2023

Ela disse que sim!

16/06/2023

Vou escolher meu vestido hoje. Pedi folga para fazer compras.

17:54pm-

Acabei pegando o de sempre. Um vestido preto.

Ele é simples.

Alcinha. Saia longa. Meio ondulada. Torso fino, mas discreto, e uma fenda suave nas pernas. Discreta, singela.

Não me dou bem com salto alto. Comprei uma sapatilha preta, adornada em brilhos, uma tornozeleira florida, e finalmente peguei meu anel com a artesã.

Ele ficou tão… perfeito.

Tão delicado.

É lindo Emilly.

E me faz querer chorar.

As folhas, as pequenas flores e imperfeições gravadas dentro da resina, maculadas pelo tempo…

Me fazem querer suspirar.

Se eu não tivesse fugido.

Se não tivesse esquecido.

Talvez estivéssemos juntos hoje.

Talvez fôssemos amigos.

…

Onde será que ele está, Emilly?

O que acha que a bolinha se tornou?

18/06/2023

Três dias para o encontro.

19/06/2023

Dois dias para o encontro.

20/06/2023

É amanhã, eu deveria comprar algo? Nunca fui à um encontro antes. Normalmente se dão presentes?

21/06/2023

Ainda é cedo. Mas acho que já vou começar a me arrumar. Dessa forma, terei tempo para trocar que quer que me incomodar.

16:30pm-

Querida Emilly,

Estou sentada na cama, escrevendo.

No reflexo do espelho, o tecido negro do vestido me abraça com gentileza. Sua fenda expõe com delicadeza minhas pernas e as joias que a adoram.

O anel brilha em meus dedos, meus óculos estão firmes em meu rosto, e logo sob a armação, as sardas que falhei em esconder com maquiagem pintam uma imagem gentil.

Deixei o cabelo solto, pondo duas ou três mechas atrás das orelhas, e me sinto, no momento, estranha.

Não acho que deva me trocar. Nem tenho tempo.

Mas gostaria… de ter mais palavras ao meu dispor para descrever o que exatamente sinto.

22/06/2023

Fui a primeira a chegar.

A lua já brilhava, alta no céu. Mas aguardei para entrar.

Carla, minha colega, foi a primeira a chegar. Vestia um macacão simples, enfeites florais e tinha os lábios tingidos em carmim.

Me questionou por que exatamente não havia entrado e, falhando miseravelmente em me convencer a entrar, se uniu a mim para aguardar.

Cada homem que se aproximava fazia-me congelar. Me perguntava se seriam eles.

E quando finalmente chegaram, já havia reagido tanto que mal pude me enervar.

O mais claro dos homens tinha um rosto fino, olhos azuis, cabelo castanho, ombros firmes, uma cruz pendurada sob a gola da camisa social e trajava um conjunto social básico que- de alguma forma, destacava sua beleza.

O mais alto, moreno, usava óculos. Tinha longos cabelos negros. Um corpo bem definido. Usava um moletom largo e o que parecia ser, também, uma correntinha.

Era bonito. Tinha um sorriso caloroso. E sua voz era… atraente.

Corei ao notá-lo e, quando nos cumprimentaram, desajeitei-me, surpreendendo a mim mesma.

Meu par, cujo nome não entendi - muito distraída com o timbre familiar da sua voz, nos guiou até a mesa e começou a conversar com os demais.

Deslizei a bolsa pelos ombros, pondo-a no banco, e me sentei. Passei a fitar a janela e respondi às perguntas que me fizeram como quem atende à uma entrevista qualquer.

Algumas eram casuais, mas a maioria, profissionais. O homem parecia ser, de fato, um jornalista.

Conforme as perguntas se seguiram, comecei a sentir fome. Pedi algumas batatas, me aprumando para recebê-las.

Tirei os óculos, esfregando os olhos, arrumei o vestido… e ao pôr as lentes em meus olhos outra vez, vi minhas batatas em posse do mesmo homem que - minutos atrás - me interrogava.

Pensei ter sido um acidente e comentei, educadamente, serem minhas.

Ele não se importou. Muito menos as devolveu.

Isso me irritou. E tudo mais que pedi durante a noite, ele pegou para si.

Fingi alguma compostura, mas logo que Carla e seu “amigo” nos deixaram a sós, confrontei-o a respeito.

Ele se levantou, deu a volta na mesa, se sentou ao meu lado e tirou de dentro da blusa um anel de grama, pequenino, meio plastificado.

– Tenho mais uma pergunta para você, senhorita Lisia. – Sussurrou, tão próximo que pude sentir a umidade em seu hálito. – Ainda estamos noivos?

Meu coração pulou uma, duas, três batidas. E em meio ao calor, tive de forçá-lo de volta ao pulsar.

Tentei recuar, meio assustada e envergonhada, mas o espaço limitado entre nós levou-me esbarrar nossos narizes - por não mais que um instante, me encolhendo contra a parede.

Ele piscou, abrindo um sorriso e, me encarando, começou a rir.

Comentou algo bobo sobre eu ainda ser a mesma menina arisca de que se recordava e me estendeu a mão, se desculpando enquanto convidava-me educadamente para um passeio.

02/07/2023

Querida Emilly,

Já faz alguns dias desde aquele encontro.

Ele me contou que tentou entrar em contato algumas vezes ao longo dos anos quando descobriu que alguns amigos da minha mãe ainda falavam com ela, mas não obteve resposta.

E ao ler durante uma de suas pesquisas sobre uma das poucas mulheres que haviam gabaritado a prova mais difícil dos concursos daquele ano, começou a pesquisar sobre, torcendo para que fosse eu, mas ao mesmo tempo, temeroso.

Quando viu o anel em meu dedo, no instante em que ergui minha mão para chamar o garçom e pôr uma mecha de cabelo atrás da minha orelha, seu coração acelerou.

Luiz teve de se conter para não chorar. E até mesmo, ficou levemente enciumado ao ver-me sorrir e ser correspondida pelo homem.

O passar dos anos fez pouco para endurecer seu coração e temos nos falado todos os dias, sem exceção, e nos visto sempre que possível.

Não sei bem por quê.

Ainda acho ele chato.

Implicante.

E não o perdoei por ter roubado minha comida. Nem pelos apelidos bobos da infância.

Mas o dia a dia parece menos monótono em sua presença. E o passado… não tão importante assim.

Ah, um segundo. Recebi uma mensagem dele.

“Comecei a arrumar as coisas para hoje. Você gosta de coisas fofinhas? Vou deixar almofadas e cobertas junto com um colchão na sala. Quando formos ver filmes, você pode se deitar e abraçar tudo que quiser.”

…

Ele é muito bobo.

Me pergunto, se, caso eu pergunte se “tudo” inclui ele, ele dirá que sim.

…

Perguntei.

Ele travou.

Que homem besta.

…

….

…..

Sinto meu coração quentinho, Emilly.

E es

tou sorrindo igual uma idiota.

Você me perdoaria?

Se deixasse suas páginas uma vez mais… para viver junto dele?

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