Naquela casa ali 🏡 Contos e Recontos · Capítulo 3 de 8
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Naquela casa ali 🏡

O jovem sentado na escada em frente à casa lilás descansava em silêncio e tentava não adormecer. Pelo canto dos olhos, ele notou que algo pequeno e ligeiro se aproximava dele. Ele não estava interessado em saber o que era aquilo, mas dirigiu ao pequeno gato que se aproximava sua atenção.

– … – Ele não disse nada, esperava que o gato de pelagem rajada fosse embora.

O tempo passou. O sol cansou-se de brilhar alto no céu e decidiu ceder à Lua sua posição.

Garoto e gato se encaravam há horas e o jovem estava começando a se irritar.

– Por que continua aqui? – Ele perguntou ao pequeno animal, que não respondeu e começou a se lamber. A tranquilidade de quem confrontava lhe levou ao limite e ele pegou uma pequena pedra que estava aos pés da escada e se levantou. – Vá embora ou te apedrejarei! – Ele ameaçou.

O gato parou de se lamber e dirigiu ao jovem um olhar desinteressado. O garoto, assustado, arregalou seus olhos. Sua ameaça era falsa e o animal sabia disso. Despreocupado, o gato voltou a se lamber e o jovem pulou da escada. Ele arremessou a pedra em direção ao gato e, como planejado, ela caiu próxima ao pequeno animal.

O gato, alheio à tentativa de assustá-lo, continuou a se banhar.

Desesperado, o jovem virou-se e lançou-se casa adentro. Ele fechou com força a porta da frente ao passar por ela e, mergulhado em vergonha, não foi visto pelos próximos dias.

Passada uma semana, ele superou o encontro constrangedor com o pequeno felino e saiu para o mundo novamente. Descendo a escada, ele encontrou o gato dormindo profundamente sobre um sapato velho que haviam largado na calçada. Constrangido, o jovem dirigiu-lhe um olhar ressentido e seguiu seu caminho.

No dia seguinte, ao sair para trabalhar, se encontrou com o felino novamente. Ele o ignorou e seguiu seu caminho.

O dia que se seguiu não deveria ser diferente.

Ao abrir a porta de sua casa pela manhã, o jovem encontrou o felino incômodo deitado em um dos degraus de sua escada. Ele o encarou por um momento e se virou, entrou em casa e fechou a porta. A tarde, não suportando a reclusão a que se submeteu, ele saiu de casa. O jovem ignorou o gato largado em sua escada e foi bater a porta de seu vizinho. Minutos passados ele voltou à sua casa com um pequeno pote vermelho e o balançou. Um som familiar ao felino soou e ele caminhou até o jovem, que com um sorriso debochado virou-se e começou a caminhar. O gato o seguiu e juntos eles andaram por muitos quarteirões. Crendo que seria impossível o gato retornar a sua casa o jovem se agachou e colocou no chão a vasilha que portava a ração que pediu a seu vizinho. O gato, feliz, foi deliciar-se com aquele banquete e o jovem, tão feliz quanto, voltou para casa orgulhoso de si. Ele havia se livrado de quem lhe envergonhara, assim pensou.

Pela manhã do dia seguinte, o jovem saiu para caminhar. Ele completou duas voltas no quarteirão e ao voltar para casa encontrou o persistente felino sentado na escada. O jovem havia esquecido a porta de casa aberta e se surpreendeu ao notar isso. O gato não havia entrado, talvez lhe aguardasse? Ele descartou essa possibilidade e irritado com o retorno do animal, trancou-se em sua residência.

Uma semana se passou. O jovem não saiu de casa. Ele se recusava a sair. Acreditava que se fingisse não estar o gato iria embora, mas ele se enganou. Sete dias se passaram e o gato permanecia à porta.

O jovem não aguentava mais. O gato lhe incomodava, mas a reclusão o incomodava mais. Desistindo de afastar o animal, ele bateu à porta de seu vizinho novamente e se sentou na escada, fazendo companhia ao felino que, agradecido, desfrutou da deliciosa refeição que aquele humano lhe proporcionou.

– Eu não entendo, por que quer tanto ficar em minha casa? – Ele perguntou ao felino enquanto ele comia. O jovem não recebeu uma resposta e ergueu lentamente sua cabeça. Seu olhar flutuou até uma grande e vívida casa do outro lado da rua. Jardins se estendiam ao longo daquela calçada e tudo parecia mais belo. Os donos daquela casa não eram ricos, mas como muitas pessoas viviam ali manter uma residência de tal porte não era difícil. Ele suspirou e voltou a olhar o gato. – Vê aquela casa ali? A casa grande do outro lado da rua? Lá sempre há alegria e não lhe faltará comida, por que não vai para lá?

O gato nada fez. Ele continuou a comer e no dia seguinte aguardava o jovem novamente. O garoto suspirou ao ver o felino na escada e dirigiu um breve olhar a casa do outro lado da rua.

– Estou indo trabalhar, talvez não volte para casa hoje. Aquela casa ali é confortável e não ficará só se for para lá.

O gato lhe ignorou e, ciente disso, o jovem suspirou e foi trabalhar. Quando voltou três dias depois, encontrou o doce felino lhe esperando. Ele ficou feliz com sua chegada e dançou ao redor de suas pernas, lhe fazendo carinho. Surpreso, o jovem permitiu que ele lhe acariciasse e mais tarde recompensou sua gentileza com alguns petiscos.

Dias passados foi a vez do gato se surpreender. Ele havia saído para caminhar e ao voltar para casa encontrou o jovem sentado na escada. Seu olhar cabisbaixo o preocupou e seu olhar vago o fez se apressar. O jovem parecia triste. O pequeno gato correu até ele e, sem saber o que fazer, pulou em seu colo e começou a se esfregar no humano.

Surpreso, o jovem o encarou. Suas mãos se moveram e ele retribuiu o afeto do felino com gentis carícias. Lágrimas surgiram em seus olhos e ele deixou um suspiro melancólico escapar. Seu olhar flutuou até a grande casa do outro lado da rua e suas lágrimas escorreram.

– Naquela casa ali, vive uma jovem muito gentil e brilhante. Nós namorávamos e terminamos há algumas semanas por causa de um mal-entendido. Quando você apareceu, eu queria ficar só e por isso tentei te afastar. Eu não conseguia aceitar nosso término e ainda não consigo. Trabalhamos no mesmo lugar e hoje, ela me confrontou. – Seus lábios se curvaram em um sorriso e ele continuou seu relato em um tom de voz risonho e melancólico. – Forçou em meus braços uma caixa de doces e me pediu desculpas, pediu para voltarmos. Eu não tenho porque negar, o mal-entendido que nos separou é algo bobo que poderia ter sido facilmente resolvido com um pouco de diálogo, mas o fiz. O tempo que passamos separados me fez perceber que não sou capaz de viver sem ela e as palavras dela foram semelhantes as minhas, aparentemente ela também sentiu saudades. Se me entende, você deve pensar que isso é algo bom, mas não é. O que sentimos é muito forte, isso não está certo, nunca me senti assim antes, há algo de errado.

Uma onda de dor se espalhou pelo corpo dele a partir de seu dedo e ele recolheu suas mãos bruscamente. O gato havia o mordido e estava o encarando com um brilho gélido e repreensivo em seus olhos. O jovem não entendeu por que seu pequeno companheiro fez aquilo, mas não brigou com ele. Perguntou-lhe por que o mordeu e meses mais tarde ele obteve a resposta para sua pergunta.

Parado na calçada em frente à casa vivida e grande do outro lado da rua, o jovem trajava um terno branco e carregava em seus braços a pequena gata que apelidou de Félix. Ele tremia e se balançava para frente para trás. Nunca se sentiu tão ansioso e lidava com essa ansiedade movendo-se incessantemente. A porta da casa a sua frente se abriu e seu coração parou de bater por um breve instante. O sorriso em seu rosto desapareceu e ele foi tomado por um calor inexplicável.

A jovem que abriu a porta trajava um vestido dourado como seus cabelos e ela sorriu ao vê-lo. Assustado, ele deu alguns passos para trás e ela se aproximou. A jovem colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e se ajoelhou frente a ele. Ela tirou de seu dedo anelar uma aliança dourada e a ergueu em direção a ele.

– Quer se casar comigo?

O jovem piscou muitas vezes. Ele não acreditava em seus olhos. A pessoa que ele amava, que fazia seu coração bater mais forte, que iluminava suas noites estava ajoelhada à sua frente com uma aliança em mãos. Ela está mesmo me pedindo em casamento? Ele se perguntou.

Minutos se passaram e nenhuma palavra deixou seus lábios. A jovem mantivera seu braço erguido e ele começava a doer. Ela estava nervosa, se perguntava se ele não aceitaria e estava começando a temer o futuro próximo.

Um sorriso surgiu no rosto dele e ele baixou seu olhar para a gata em seu colo.

– Nesta casa aqui, Félix, vive uma pessoa adorável que a partir de agora é sua nova mamãe.

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