Um dia qualquer 🌇 Contos e Recontos · Capítulo 5 de 8
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Um dia qualquer 🌇

Amanhece na montanha gelada.

A fraca luz do sol banha seu cume e a espessa camada de neve que a cobre retém um pouco de seu calor. As folhas congeladas dos enormes bordos que se estendem ao céu a partir de seu pico respiram aliviadas ao receber um pouco de luz solar, e as aves que chamam de lar tais árvores anciãs deixam seu ninho para desfrutar do terno calor da manhã. Algumas levantam voo, outras permanecem em ninhos, zelando seus filhotes, mas todas comemoram o amanhecer. Seu doce cântico atravessa o silêncio que envolve o mundo e chega a um pequeno chalé carmim construído nas extremidades da montanha.

Vinhas o cobrem e a madeira carmesim com a qual foi construído reflete de forma sutil a luz do sol. Seu telhado colonial redondo permite que a tênue camada de neve escorra por ele ao deixar o estado sólido e através de algumas telhas soltas ela penetra o interior do chalé e cai sobre o tapete e o que mais há no chão como uma incômoda goteira.

Um pequeno aglomerado de neve derrete em um ponto específico do telhado e escorre por debaixo de uma telha fora do lugar. A água que no passado fora neve passa por entre as estruturas que sustentam o telhado e se aglomera nas extremidades de uma viga. Acumula-se gradualmente e torna-se suficientemente densa para que goteje sobre o rosto adormecido da única moradora do chalé.

A gélida gota d'água cai sobre sua bochecha e escorre por ela fazendo com que a pequena menina se agite sob o cobertor. Seu rosto contorce-se sutilmente e ela entreabre seus olhos alaranjados. Pisca-os algumas vezes e se senta sobre o colchão, afastando de si o cobertor que antes a cobria. Suas orelhas de pelagem castanha e gradiente alaranjado movem-se de forma esporádica e seu rabo da mesma coloração se liberta do peso de seu corpo com alguma dificuldade. Livre, ele agita-se de um lado para outro e expressa o desgosto da jovem pela gota d'água que a acordara e pela luz solar que invade seu pequeno quarto e a impede de retornar a seu sono.

Ela pisca algumas vezes e chuta para mais longe o cobertor que antes a aconchegava. Ergue seus braços para o céu e estica todo seu corpo, espreguiçando-se. Levanta-se devagar e espera que sua longa cauda a acompanhe. Seu olhar cansado e desanimado percorre o pequeno quarto em que se encontra um colchão de solteiro e uma mesa de cabeceira sobre a qual repousa um computador e seus respectivos adereços. Ela respira fundo e deixa que seu olhar flutue para o mundo silencioso que se vê através da janela.

"O computador está coberto de poeira novamente, preciso limpá-lo em breve." Ela observa enquanto admira o alvorecer e se vira na direção da porta do quarto. Dirige um breve olhar ao seu computador envelhecido e deixa o cômodo. "Sinto saudades de meus jogos e hábitos antigos, mas o gerador do chalé não gera energia suficiente para sustentá-los."

Ela suspira sentindo o passado pesar em seu peito e atravessa o cômodo principal em formato de L do chalé em direção à bancada que lhe servia como cozinha. Dirige um breve olhar à área à sua esquerda, onde há estantes de livros e um sofá voltado para uma grande janela, e um olhar a área atrás de si, que se conecta com seu quarto, com o banheiro, e serve como sala de estar.

A menina caminha um pouco para o lado e segue até a geladeira, a qual abre e vasculha com seu olhar. Sua face mancha-se com decepção e ela fecha o frigorífico. Caminha um pouco para a direita e dirige um breve olhar a janela coberta por vinhas que cobria parcialmente à parede acima do balcão. Ela suspira e abaixa-se um pouco. Afasta as cadeiras que estavam dispostas ao longo do balcão e abre o armário que existe abaixo dela. Seu olhar percorre o interior do móvel e a decepção aprofunda-se mais em seu coração. Sua cauda agita-se de um lado para o outro novamente e então para abruptamente, para cair sem ânimo ao lado de seu corpo. Suas orelhas seguem seu exemplo e caem cabisbaixas, enquanto o estômago dela grunhe pronunciando-se ante o que via.

"Como pude deixar a comida em estoque acabar?" Ela se questiona mentalmente e suspira mais uma vez, sentindo suas energias esgotarem-se lentamente ante o peso do futuro. "Terei que sair novamente, e desta vez sem ter comido nada.”

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