A Hora do Chá ☕
– Devíamos contar pra mamãe.
– Mas… – Elaine hesitou. – Ela vai ficar brava.
– Não vai.
– Claro que vai! – Elevou a voz.
Tentei fazer algo, mas já era tarde. Meus dedos mal alcançaram seus lábios quando Rosa chegou, empurrando a porta com suas pálidas mãozinhas.
Seu olhar pousou sobre nós - estudando, crítico, a culpa estampada em nossas feições, antes de deslizar ao que escondíamos logo atrás.
Suas mãos congelaram. Seus cílios tremerem. E cruzando os bracinhos, tentou acusar;
– Vocês quebraram ele!
– Não quebramos! – Gritamos em uníssono, tentando nos defender.
– Ele nos tocou! – Kátia acresceu, mostrando, de longe, a fenda negra em seu braço.
Rosa suspirou. Ajeitou o vestido, deslizando as mãos pela saia de cetim, e se aproximou lentamente, cruzando o quarto em seus saltos carmim.
Se inclinou, meio rígida, para checar o estado do corpo e, sacudindo negativamente a cabeça, se virou.
– Precisamos consertar.
– Não tem conserto. – Lembrei, temendo a urgência em seu tom.
– Claro que têm, ele nos consertou! – A madeira rangeu sob a fúria da pequena, fazendo-me estremecer.
– Ele usou ferramentas que não possuímos…
– E que me recuso a tocar! – Elaine irrompeu, se erguendo da cadeira para agarrar seu rostinho, forçando-a a lhe encarar; – Ele cometeu um erro.
– Todos cometem. – Rosa insistiu.
– Ninguém quebra o mesmo jarro duas vezes.
– E ninguém substitui o jarro apenas para quebrar outra vez. – Kátia interveio novamente.
Mesmo Rosa aquietou. Se virou para o corpo, se inclinando para roçar sua mão gélida com seus dedos frágeis. Seus cílios tremiam, contendo lágrimas que sequer podia derramar.
– Eu amo ele.
– Sabemos que sim. – Me aproximei, cuidadosa, dobrando os joelhos para guardar meu vestido. – Você foi a primeira. E o que havia entre vocês… foi real.
– Até se distorcer. – Elaine cortou.
– E ele te quebrar. – Kátia acresceu.
Seus cílios tremeram. Rosa recuou, cambaleando sobre o próprio eixo e, forçando um suspiro, me virei para as demais.
– Temos que fazer algo. Já são quase seis.
– Minha sugestão? – Kátia tentou imitar Rosa em sua postura, mas falhou, sem dobras que o sustentassem. – Deixem a mamãe ver.
– Ela vai ficar chateada…
– Ela vai. – Elaine assentiu. – Mas Alice nunca será como nós.
Nos calamos outra vez, deixando o silêncio pesar, rompendo-se apenas nos soluços fugazes de Rosa e sua performance.
– …ela nunca será quebrada, nem consertada… – Chorou.
– E que Deus o abençoe, porque o Diabo já estava prontinho para fazê-lo. – Elaine bateu o pé.
– Cuidado para não rachar. – Me apressei a segura-lá, evitando que o impacto de sua fúria rumasse aos seus pés.
Ela assentiu, meio rígida, e lançamos olhares à Kátia.
– Não vejo problema em deixar como está. Mamãe queria um bebê. Já fizeram um.
– E ela já nos têm.
– Não precisa mais dele.
– Ninguém precisa.
Não precisamos sorrir. Nossas feições, eternas, já gravavam em cada pincelada o prazer distorcido que tomava-nos o âmago.
– Vamos Rosa, – me virei. Em sua direção, lhe estendendo meus dedos – vamos tomar chá. Pare de chorar.
– ENTÃO PAREM DE COMEMORAR! – Caiu de joelhos, estilhaçando-se em cacos chorosos. – Vocês… não deveriam… – Forçou um soluço, forjando emoções que não mais fluíam entre nós. – Nosso papai…
– Seu papai. – Corrigimos, frias, não nos contendo seu tom.
Rosa tremeu, falhando em se erguer sobre a base rachada, e Elaine, começando a se enfurecer, se inclinou sobre ela;
– Deveria agradecer que a mamãe tenha um futuro.
– Que Alice vá crescer.
– E que seu brilho nunca será tomado à força por ele.
– Como o meu foi.
– E o meu. – Acresci, desgostosa.
Ainda via meus pés - manchados de sangue. Minhas mãos, trêmulas. Ainda sentia o horror em meu peito. Ouvia as súplicas de uma mãe forçada à ver o que jamais deveria…
Rosa, ainda, tentou argumentar. Mas Kátia, já foram de si, agarrou sua mão, arrastando-a para junto do espelho. Suas pernas, frágeis, perderam-se pelo caminho, e no reflexo do espelho, só o que havia, era uma pequena boneca de porcelana - quebrada.
Ao fundo, um cadáver se estendia no chão. Robusto, ensanguentado, e coberto de marcas onde havíamos o pisoteado - pouco afáveis à seu estado.
Rosa chorava. Tentava chorar. E deixávamos que chorasse.
Cedo ou tarde, teria que aceitar.
Ele, o homem que nos havia gerado, que pedira cada uma de nossas mães em casamento; era um monstro.
E explicá-lo à mamãe seria bem menos doloroso do que ver outra de nós se curvar sobre um móvel - em estilhaços, apenas para ter seus cacos moldados em mais outra boneca de porcelana.
Outro “presente de casamento”.