A Hora do Chá ☕ Contos e Recontos · Capítulo 4 de 8
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A Hora do Chá ☕

– Devíamos contar pra mamãe.

– Mas… – Elaine hesitou. – Ela vai ficar brava.

– Não vai.

– Claro que vai! – Elevou a voz.

Tentei fazer algo, mas já era tarde. Meus dedos mal alcançaram seus lábios quando Rosa chegou, empurrando a porta com suas pálidas mãozinhas.

Seu olhar pousou sobre nós - estudando, crítico, a culpa estampada em nossas feições, antes de deslizar ao que escondíamos logo atrás.

Suas mãos congelaram. Seus cílios tremerem. E cruzando os bracinhos, tentou acusar;

– Vocês quebraram ele!

– Não quebramos! – Gritamos em uníssono, tentando nos defender.

– Ele nos tocou! – Kátia acresceu, mostrando, de longe, a fenda negra em seu braço.

Rosa suspirou. Ajeitou o vestido, deslizando as mãos pela saia de cetim, e se aproximou lentamente, cruzando o quarto em seus saltos carmim.

Se inclinou, meio rígida, para checar o estado do corpo e, sacudindo negativamente a cabeça, se virou.

– Precisamos consertar.

– Não tem conserto. – Lembrei, temendo a urgência em seu tom.

– Claro que têm, ele nos consertou! – A madeira rangeu sob a fúria da pequena, fazendo-me estremecer.

– Ele usou ferramentas que não possuímos…

– E que me recuso a tocar! – Elaine irrompeu, se erguendo da cadeira para agarrar seu rostinho, forçando-a a lhe encarar; – Ele cometeu um erro.

– Todos cometem. – Rosa insistiu.

– Ninguém quebra o mesmo jarro duas vezes.

– E ninguém substitui o jarro apenas para quebrar outra vez. – Kátia interveio novamente.

Mesmo Rosa aquietou. Se virou para o corpo, se inclinando para roçar sua mão gélida com seus dedos frágeis. Seus cílios tremiam, contendo lágrimas que sequer podia derramar.

– Eu amo ele.

– Sabemos que sim. – Me aproximei, cuidadosa, dobrando os joelhos para guardar meu vestido. – Você foi a primeira. E o que havia entre vocês… foi real.

– Até se distorcer. – Elaine cortou.

– E ele te quebrar. – Kátia acresceu.

Seus cílios tremeram. Rosa recuou, cambaleando sobre o próprio eixo e, forçando um suspiro, me virei para as demais.

– Temos que fazer algo. Já são quase seis.

– Minha sugestão? – Kátia tentou imitar Rosa em sua postura, mas falhou, sem dobras que o sustentassem. – Deixem a mamãe ver.

– Ela vai ficar chateada…

– Ela vai. – Elaine assentiu. – Mas Alice nunca será como nós.

Nos calamos outra vez, deixando o silêncio pesar, rompendo-se apenas nos soluços fugazes de Rosa e sua performance.

– …ela nunca será quebrada, nem consertada… – Chorou.

– E que Deus o abençoe, porque o Diabo já estava prontinho para fazê-lo. – Elaine bateu o pé.

– Cuidado para não rachar. – Me apressei a segura-lá, evitando que o impacto de sua fúria rumasse aos seus pés.

Ela assentiu, meio rígida, e lançamos olhares à Kátia.

– Não vejo problema em deixar como está. Mamãe queria um bebê. Já fizeram um.

– E ela já nos têm.

– Não precisa mais dele.

– Ninguém precisa.

Não precisamos sorrir. Nossas feições, eternas, já gravavam em cada pincelada o prazer distorcido que tomava-nos o âmago.

– Vamos Rosa, – me virei. Em sua direção, lhe estendendo meus dedos – vamos tomar chá. Pare de chorar.

– ENTÃO PAREM DE COMEMORAR! – Caiu de joelhos, estilhaçando-se em cacos chorosos. – Vocês… não deveriam… – Forçou um soluço, forjando emoções que não mais fluíam entre nós. – Nosso papai…

– Seu papai. – Corrigimos, frias, não nos contendo seu tom.

Rosa tremeu, falhando em se erguer sobre a base rachada, e Elaine, começando a se enfurecer, se inclinou sobre ela;

– Deveria agradecer que a mamãe tenha um futuro.

– Que Alice vá crescer.

– E que seu brilho nunca será tomado à força por ele.

– Como o meu foi.

– E o meu. – Acresci, desgostosa.

Ainda via meus pés - manchados de sangue. Minhas mãos, trêmulas. Ainda sentia o horror em meu peito. Ouvia as súplicas de uma mãe forçada à ver o que jamais deveria…

Rosa, ainda, tentou argumentar. Mas Kátia, já foram de si, agarrou sua mão, arrastando-a para junto do espelho. Suas pernas, frágeis, perderam-se pelo caminho, e no reflexo do espelho, só o que havia, era uma pequena boneca de porcelana - quebrada.

Ao fundo, um cadáver se estendia no chão. Robusto, ensanguentado, e coberto de marcas onde havíamos o pisoteado - pouco afáveis à seu estado.

Rosa chorava. Tentava chorar. E deixávamos que chorasse.

Cedo ou tarde, teria que aceitar.

Ele, o homem que nos havia gerado, que pedira cada uma de nossas mães em casamento; era um monstro.

E explicá-lo à mamãe seria bem menos doloroso do que ver outra de nós se curvar sobre um móvel - em estilhaços, apenas para ter seus cacos moldados em mais outra boneca de porcelana.

Outro “presente de casamento”.

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