Quinta Parada 🚏
Me afastei da janela, deixando o vento afagar meus cabelos.
No semáforo, um jovem pardo, de feições robustas, recolhia - alegre - algumas paçocas que havia posto nos retrovisores dos carros.
Alguns motoristas o olhavam estranho. Julgavam suas vestes - rasgadas, - sua sobrancelha riscada, e alguns, sua simples existência.
Um casal - dono de um uno preto - tentou ajudar-lhe. O homem, desgostoso, mas fiel à mulher, estendeu pela janela uma nota de dez.
O garoto, vendo-o, se virou para pegá-la. Mas o homem, vendo o semáforo abrir, pisou no acelerador.
Fechei os olhos. Podia ouvir a mulher - xingando o marido, gesticulando irritada enquanto rezava à Deus por perdão.
Respirei fundo, abrindo meus olhos.
Algumas crianças corriam pela calçada. Duas garotinhas - envoltas em jardineiras de lã - e três garotinhos - trajados em polo e sapatos sociais.
Não muito atrás, uma mulher alta, de rosto fino, os acompanhava. Tinha um óculos de sol na cabeça, e deixava-se abraçar por um vestido de cetim.
Parecia cansada. Olheiras marcavam seu rosto. Talvez fosse mãe solo, mas o luxo com que se envolvia sugeria que, mais provavelmente, fosse uma babá.
Talvez estivessem saindo para um passeio. Talvez, voltando de um.
Logo sumiram através da janela, dando lugar ao verde do mirante.
O urbano se abstinha de existir em meio à paisagem, e colinas gramadas se erguiam no horizonte. Algumas, cobertas por árvores, escondiam rios e nascentes. Outras, se estendiam em planícies.
Não demorou para que, também, desaparecessem, cedendo lugar às casas de tijolos e árvores tortas.
O ônibus parou. Uma garotinha - de no máximo 10 anos - embarcou, acompanhada de uma idosa de coluna encurvada.
Tinha os olhos inchados, o uniforme amassado, e tremia de raiva. Pela janela, seus amigos - imersos em uma caixa d’água - acenavam, rindo, inocentes.
Os pais da garota, muito provavelmente, não permitiram que emendasse o feriado.
Ajustei os fones, arrumando a postura, e segui a dupla com o olhar.
A senhora, notando o assento vazio ao meu lado, considerou, por um instante, se acomodar. Se aproximou - segurando nas barras, mas ao notar meu olhar, recuou, tomando o assento da frente.
Me inclinei sobre a janela, aliviada, e voltei a observar.
Um muro - alto, gradeado - agora nublava o horizonte.