Elegias, Romance e Ballada Poemas e sonetos · Capítulo 2 de 9
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Elegias, Romance e Ballada

Elegias, Romance e Ballada

ELEGIAS

Teu vulto leve, ao fundo do passado, Volve-me, ás vezes, um olhar maguado Que lembra o luar, por entre névoas finas... Ainda tenho no espelho das retinas O parque familiar, e os velhos bancos Entre tanques azues e jasmins brancos Onde a vida juntou, em dias vãos, A's tuas lindas mãos ás minhas mãos.

Onde estás, minha doce companheira? Como a rosa, que tomba da roseira, A hora tomba no espaço, sem rumor... Longe murmura a trompa de um pastor, Pela tarde que morre, lentamente. E o poente é como aquelle mesmo poente Que a terra toda encheu de um sonho triste Quando sombra, entre sombras, me fugiste! Ficaste numa curva do passado, Como dóe recordar o tempo andado Nas manhãs de illusão, nas noites calmas! Uma lagrima a abrir dentro das almas Como um pallido sol num céo de outono, Um gesto, um longo gesto de abandono, Um desconsolo, um pouco de saudade, E nisso está toda a felicidade... Sobre os campos, em seu vestido louro, A primavera ri nos botões de ouro; Entre as ondas vermelhas das espigas Voltam cantando, em bando, raparigas, E, dentre a púrpura que envolve o ambiente, Vai surgindo aos meus olhos lentamente, Como um rolo de incenso, no ar lavado, Teu vulto leve ao fundo do passado...

II

Pela névoa a ondular, como um acorde lento, Os pés brancos ao luar, e os cabellos ao vento, Estendeste-me as mãos esguias e nervosas, Numa ronda aromal de cravos e de rosas. Que lâmpada flamenga o teu olhar desvenda ? És longa como um lirio aberto numa taça, E nas águas de um lago a tua forma lassa Tem gumes de punhal, e escumilhas de renda.

Serias Colombina? Ah! se eu fosse Pierrot, No jardim silencioso, á margem dessa estrada: Por onde vieste, a rir, e onde sonhando vou, Dar-te-ia o coração no fim de uma bailada! Ha theorbas a chorar num bosque de jasmins, Sobre as fontes, em torno, entre violetas boia O plenilúnio como uma pallida jóia, E estremece na sombra a cauda dos golfins... Mas apenas beijei as tuas mãos nervosas, Como um flamingo de ouro o teu vulto passou Numa ronda aromal de cravos e de rosas. Se fosses Colombina, e se eu fosse Pierrot!...

III

Em teu olhar, que guarda as florações estranhas Que o verão incendeia, ou que adormece o outono, E ora mostra um tropel de mares e montanhas, Ora um trecho de céo, com aves tontas de somno : Quando fui procurar, num inquieto alvoroço, A paisagem de sol, de águas crespas, e ninhos, Que um dia nos abriu as frondes nas estradas, Somente pude ver, como ao fundo de um poço, Jardins cheios de treva, entre arvores geladas, E a noite, a noite immensa, em todos os caminhos.

IV

(Paraphrase de Samain)

No deserto jardim, que a bruma envolve, pelas Arvores, de onde tomba, em punhados de estrellas, O adeus das flores de ouro e das folhas errantes; Sob um leve docel de copas verdejantes, Nós iremos, até que a tarde abra no poente As azas de cristal e de prata silente.

Caminharemos, entre as sebes, nas estradas, E o perfume subtil que ha nas hervas pisadas, E o silencio, e esse amargo encanto mysterioso Que deixa, no ar, o outono inquieto e doloroso, E que sáe dos chorões, dos ninhos e das fraguas, Das kanangas azues e das tranquillas águas, Encherão nosso olhar de sonho e de esplendor, Como um aroma antigo enche a noite de amor..

Na paz do outono, Grave, profunda, Teu vulto de ave Leve ligeira, Sobre a alameda Cheia de rosas Que o luar inunda;

(Sombra de seda. Pluma ligeira) Teu vulto suave Sobre a alameda, É uma roseira Cheia de rosas, Na paz do outono.

VI

Vê como a sombra é suave, e o céo como está perto ! Tens estrellas nas mãos, e o luar, no chão deserto, Entre flores de esmalte e de opala dolente, Abre, agora, um jardim fabuloso do Oriente; Um jardim onde houvesse, em macieiras de prata, Pomos de ouro e marfim, e onde, em leve cascata, Sobre a relva macia e a areia fulva e ardente, Jorrassem jogos de água inquieta e transparente.

Tudo adormece no ar: os ramos e as collinas, Os pássaros e os soes. Anda nas hervas finas Um perfume que hesita entre a vida e a chimera, Leve como teu beijo e como a primavera! Sobre a tua cabeça uma arvore balança As folhas de cristal e velludo da frança; Pelas estradas passa um rumor de harpas eólias, E ha noivados pagãos no seio das magnolias, Risos de fonte, sons abafados de viola, Soluços de guitarra insomne, de onde rola Uma velha canção que, aos poucos, se mistura A' tua voz, ao nosso amor, e a toda a Altura...

ROMANCE E BALLADA

Romance

Na névoa da manhã, tranquilla e suave Vieste do fundo incerto do passado ; Ainda tinhas o mesmo passo de ave, E o mesmo olhar maguado... Entre os rosaes vermelhos tua boca Era a rosa mais linda e mais vermelha; E como, em torno della, inquieta e louca, Ia e vinha uma abelha !

Mas não paraste, como antigamente, Nem me estendeste a leve mão dolente, A leve mão de irmã. Passaste... E, pelos campos, que alegria! Pássaros, águas, plantas, tudo ria Na névoa da manhã...

Bailada

Amei as torres medievaes, De pedra escura e burilada, Os plenilúnios e os choupaes ; Porém, ó Flor triste e fanada, Desque surgiste em minha estrada, Abandonei formas banaes. Pois junto á vossa face amada, A vida é sombra, e nada mais.

Jardins dormindo entre rosaes, Hora a tombar, fria e calada; Beijos que são como punhaes, Não têm a graça fina e alada, Nem a volúpia demorada Que ao coração silente daes; Pois junto á vossa face amada A vida é sombra, e nada mais: Tudo que eu vi: Castellos reaes, Galeras de prata armoriada Arredondando-se nos cáes; Quilhas ferindo a onda encurvada, Olhos chorando na amurada, Tudo passou, venturas e ais, Pois junto á vossa face amada A vida é sombra, e nada mais. Perdoai Senhora, esta bailada, E os versos trêmulos, mortaes; Pois junto á vossa face amada A vida é sombra, e nada mais...

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