Poemas da Vida I
Poemas da Vida I
POEMAS DA VIDA
A Dario Simonsen
Deante da vida
Entre ondas voluptuosas de verdura A floresta levanta os braços fortes, Braços que estão, vergados, rebentando Em flores vivas, em plumagens fartas, E em frutos saborosos, que são como Os pensamentos amadurecidos Que sobem da humildade das raizes Para o esplendor das frondes constelladas!
Tudo se move num rumor confuso: Folhas e caules, sebes, trepadeiras; Rios que o sol escalda, e onde fulguram, Entre rubros clarões de labaredas, Jóias, punhaes de fogo e espadas de aço; Campos, que o vento agita, e a luz transforma Em mares empolados, onde rolam Vagalhões de esmeraldas e safiras. Tudo se move! até das penhas rudes A rocha millenar estala, e tomba! A Terra tem palpitações profundas, E tanto o largo seio empina e abaixa, E tanto se revolve, que parece Não supportar o peso das montanhas, Dos serros brutos, dos pedrouços duros, Que lhe apertam de mais o agreste flanco.
Num brilho de metaes em braza fervem Os atalhos de ardente areia acceza, O curvo espaço, a cúpula das arvores, A água das fontes recamada de ouro; E como em copas onde o vinho espuma, Nas corollas abertas se embebedam As lustrosas abelhas de velludo, E os pelludos bezouros rumorosos. Cada tronco de bronze é uma columna, E cada umbella um capitei luxuoso; E ha nas pedras estatuas modeladas Por mãos desconhecidas, mysteriosas; Mãos que arrancam da magua e da alegria, Do terror, da tristeza e da amargura Que a lagrima das coisas vai deixando, As mascaras eternas da Belleza.
II
Dentro desse tumulto luminoso O Poeta, um dia, despertou. «Caminha!, Alguém lhe segredou; «Caminha», os olhos Tontos de amor, lhe dizem deslumbrados. «Vai em busca da vida que te chama»! E elle vendo no olhar, e na alma vendo Um sonho novo de felicidade, Abriu as mãos anciosas para a vida! O crepúsculo pallido descera Com o silencio e a penumbra sobre a terra, Numa poeira de fôrmas indecisas Todas as fôrmas no ar se confundiam. A selva, agora, em sombra mergulhada, Com a folhagem serena adormecida, Tinha o tranquillo aspecto das madréporas E dos coraes nas landes submarinas.
Dos encruzados ramos caprichosos O orvalho em claras gotas escorria; E ao tibio luar nascente as folhas calmas Eram conchas finíssimas suspensas; O musgo era um tapete de algas humidas, E os luzentes arroios imitavam Peixes de fria escama scintillante, Nadando num tremor de espumas leves. Tacteante, embora, o Poeta caminhava Ebrio das maravilhas que seus olhos Iam na noite immensa descobrindo: Quando uma voz de estranha resonancia, Ferindo os fundos boqueirões remotos, Varando a repousada somnolencia, E a espessura dos bosques silenciosos, De súbito accordou o espaço mudo!
Que voz, ao mesmo tempo, doce e horrível Assim o allucinava e o seduzia? Que tentáculos frios, movediços, Vinham prendel-o, assim ? Que inviso polvo Seus hesitantes passos arrastava ? E implacável, teimosa, tentadora, Dentro da noite solitária e immensa, A voz lhe segredou : «Caminha, é a vida!» «Caminha, que verás um céo mais alto, «Recoberto de estrellas palpitantes; «Caminha, e beberás a água mais pura «Que poderá provar a tua boca ! «Entrarás em jardins nunca sonhados, «Onde receberá teu lábio virgem, «Num chuveiro de pétalas macias, «Um baptismo de beijos deliciosos.»
«Foge das tuas furnas desoladas, «O' Pássaro nocturno da floresta! «Vai para a vida que te espera, soffrega! E elle, seguindo a voz que abria como Um caminho sonoro pelos ares, E que, de instante a instante, mais crescia, A uma região de agudas cordilheiras, Lento, levou os fatigados passos.
III
Por todo o ambiente, em véos de opala, ondeante, Um nevoeiro subtil se derramava. O contorno das coisas era feito De bruma e de cristal; e a luz que, trêmula, Descia na atmosphera vaporosa Entre florões de floculos prateados, Misturava no seu mortiço fluido Ao tom do marfim velho a cor das pérolas. Mal os olhos do Poeta se afizeram A' nevoa circumstante, um arrepio Correu-lhe a face, e pertubou-lhe a vista! Estava em frente delle um alto monte De refranjada escarpa multiforme, Recortado de dentes e de agulhas, Por onde uma caudal vertiginosa Com raivoso fragor se despenhava.
Fervendo sobre os blocos de granito, Martellando nas rocas recurvadas, Rugindo na aspereza dos penhascos, A torrente saltava, em crespos jorros ! De cada aresta lisa e penetrante Repontava uma lamina desnuda, E em cada pedregulho rebatido Um clamor de bigornas se escutava. Logo, o Poeta parou. Não era de água A torrente que os ecos abalava; E a voz que em seus ouvidos rebramia Eram gritos de angustia e desespero, Queixas, supplicas, ais, gemidos longos, Brados convulsos de ódio e de tortura, Uivos de maldição, ululos cavos De quem sentisse rotas as entranhas!
Era a vida que, em turbilhões, rolava Num continuo tropel de ossos partidos E laceradas carnes esmagadas; Eram corpos que, em vão, se debatiam, Eram bocas que, em vão, se procuravam, Era toda a afflição que os mundos move, Era todo o infinito da amargura Apenas revelado num segundo! Não era de água, mas de sangue escuro A torrente que os ecos sacudia: Sangue de corações que rebentavam, Sangue de mil batalhas inclementes ! E o monte infindo, que se desdobrava Pelo infindo horisonte sem limites, Era como o Destino, mudo e immovel, Dentro da vida inquieta e passageira.
Emquanto o Poeta, insomne, contemplava Tanta miséria, a alma lhe disse: «Foge! «Na tua agreste furna ha mais doçura «Que no mais lindo e cristallino còllo, «O silencio da selva é mais humano «Que a voz da dolorosa vida humana. «Na aza das borboletas e nos brutos •Ha mais sabedoria que nos homens». «Vai para os teus abysmos, onde a noite «Tem mais encanto e mais deslumbramentos, «E onde a tua cabeça resplandece, «No pincaro das serras solitárias! «Deixa a vida bater de encontro a vida «Como as ondas se chocam contra as ondas. •Homem-divino, Poeta ! Volta á selva, «Volta á Belleza eterna e silenciosa...»