Poemas da Vida II
Poemas da Vida II
A UM ADOLESCENTE
Faze do instante que passa Toda a tua aspiração; Que o mundo cheio de graça Caberá na tua mão ! Sê sóbrio: com um copo de água, Um fructo, e um pouco de pão. Nem sombra de leve magua Cortará teu coração.
Ama a rude terra virgem, Com todo o teu rude amor; Pois colherás na vertigem De cada sonho, uma flor. Soffre em silencio, sozinho, Porque os soffrimentos são O mais saboroso vinho Para a sombra e a solidão... E quando, um dia, o cansaço Descer ao teu coração, Une á terra o peito lasso, E morre beijando o chão ; Morre assim como indeciso Fumo, que nos ares vai, Morre num breve sorriso, Como uma folha que cai...
II
Amei a vida, primeiro, Pelos olhos, e o que vi Era suave e passageiro: Amei a vida, e sorri. Amei-a, com a alma, em seguida, Mas, onde os passos levei, Comigo chorou a vida, E, com ella, triste, chorei..
III
Não desejes: é amargo desejares. Guarda o que tens, fechado em tua mão, Pois só ha desenganos e pesares Na sombra triste deste mundo vão... A alma que arrastas, andes onde andares, Terá mais sol, terá mais illusão, Se fores sempre assim, se não tentares Accrescentar um pouco ao teu quinhão :
Vive no teu jardim de frondes mansas, Sem ambições nem cóleras pueris: Quem tem desejos, tem desesperanças, Quem não deseja é muito mais feliz...
IV
De um poeta russo
Um vôo de ibis corta o céo de ouro e marfim. Pelo céo de marfim arde a braza do poente; Doçura irreal da luz nos lagos do jardim, Doçura do jardim sobre a água transparente! A tarde desce, lenta, e a sombra augmenta no ar. Ah! quando a sombra vem, minha alma tonta esvoaça; E, pela hora mortal, meus olhos vão chorar A belleza que foge, e o momento que passa...
Gesticulas em vão ! Para que te cansares ? A vida passará por tuas mãos anciosas Como uma abelha num jardim cheio de rosas, Como a estrella no céo, como a espuma nos mares. Tua alma é uma grilheta, uma estranha prisão Que augmenta, sem cessar. Mas, se um dia a quebrares, Comprehenderás, então, coberto de pesares, O amargor que ha no fim de todas as estradas,
E o gesto de pavor das mãos acorrentadas Que tentaram tocar, uma vez, a illusão...
VI
Tentaste dominar a vida passageira Como um raio de sol que, entre arvores, se some; Mas tuas mãos febris resvalaram na poeira, E, num grito, apagou-se o rumor do teu nome ! Lutas num aranhol, onde a tenaz vencida Quanto mais nós rebenta, ainda mais nós descerra! Lutas inutilmente, homem cego, que a vida É nuvem leve do ar, sombra triste da terra..
VII
Os dias passam num segundo, Os annos voam num momento. Homem, que fazes neste mundo, Que faz teu leve pensamento ? Ao teu olhar a terra acceza É como um riso aberto em flor ! O riso é a luz da natureza! Que fazes tu com a tua dor ?
Porque tua alma é sempre fria, E o passo teu vago e indeciso ? A gloria nasce da alegria, Os deuses morrem num sorriso... Riem-se as pedras, quando a aurora, Inunda o céo de ouro e de anil; Ri-se no espaço a ave canora, No lodo ascoso o sapo vil! Porque só tu, por esse mundo, Trazes dorido o pensamento ? Olha que és sonho de um segundo, Olha que és sombra de um momento.
Destino
Ainda menino, disse-me, um dia, A voz occulta do coração: «Terás da terra toda a alegria Na tua mão» Ah ! duro engano, quem o diria ! Louco de espanto, de inquietação, Só vi tortura, melancolia, No mundo vão...
Ouve, creatura de alma innocente, Ouve, e medita, porque não mente Quem isto diz: Na vida cheia de falsidade, Só quem deseja a felicidade Não é feliz...
Onda
A porta das cavernas, silenciosos, Sobre os joelhos pousando os pulsos de aço, Os homens olham, mudos, para o espaço, Onde os astros afloram, vagarosos... Tudo é gloria e esplendor! um sonho intenso, Um sonho primitivo, ainda selvagem, Envolve os ramos fartos da paisagem, Tremula no horisonte calmo e immenso.
Na solidão dos prados e das mattas Rebôa, num tropel, e atrôa os ares, Batendo nos penhascos seculares, A vóz rouca e ululante das cascatas. E os homens ficam pallidos, olhando, Na curva onde o céo foge e desfalece, O claro dia que desapparece, E a noite que, entre sombras, vem chegando.
II
As cúpolas de prata e de ouro virgem Chispam, á luz do sol, como geleiras, Os mares fervem, tombam cordilheiras, E a terra toda é uma onda de vertigem! Da pedra sobe o templo, o ferro forte Vibra na espada, canta no broquel; E do bronze, e do mármore revel Os deuses nascem para o amor e a morte E a vida vae passando, e vão as dores Apparecendo, lentamente, emquanto A alma vacilla e cáe, de pranto em pranto, Sob o aguilhão de eternos dissabores. Em luminosa névoa anseia a vista, As mãos tacteiam sobre rochas duras; E as torturas augmentam as torturas, E após uma conquista, outra conquista!
III
E os homens lutam sempre; indifferente, A hora que passa não lhes traz doçura. Depois do abysmo fundo, a ingrime altura! É preciso vencer continuamente.. As idéas renovam-se com as chagas; E a cada golpe rude, de repente, Succede-se um mais largo, e mais dolente, Como a vaga succede ás outras vagas. Uma sede indomável os arrasta. Dentro de um turbilhão de ódios e sanhas, Varando oceanos, selvas e montanhas, Os homens seguem na amplitude vasta! E as cidades alastram-se, e as florestas De altos troncos, folhudos e pesados, Rolam no embate bruto dos machados, Ao impulso das mãos rudes e lestas.
Entre muralhas rijas de castellos Choram as fontes, os arroios gemem; Emquanto os ares e os pedrouços tremem Num barulho sonoro de martellos. Das forjas saltam labaredas vivas, O fogo, pela sombra, em linguas, pula, E ruge, na bigorna que estridula, A cólera das forças primitivas!
IV
Mas não basta! É mister lutar ainda. Surgem dos elementos dominados Outros mais raros, mais ambicionados, Numa constante progressão infinda. Os homens querem ver, na lide insana, Maior, a alma pequena e desprezível; E, sonhando a distancia inattingivel, Esquecer na divina a essência humana, E a vida corre, cega; e o tempo avança. Em vão! tudo lhes foge como dantes, Nessa guerra de todos os instantes, Feita de desespero e de esperança!
E um dia, tudo cessa : angustias, ais, Risos de amor, rugidos de metralha. E, onde antes houve gritos de batalha, Ha somente silencio, e nada mais... Dos céos a treva desce, lentamente ; E o sol, o louro sol, de outras idades, Morre sobre destroços de cidades Como um vulcão cheio de cinza ardente. Entre estatuas de deuses, e entre a ruina De basílicas, templos e mesquitas, Rola o mundo nas brumas infinitas, Para a fatalidade que o fascina ! Pelos mares gelados apodrecem Restos de barcos rotos ; nas collinas Corôam-se os pinheiros de neblinas, E os longes fumegantes escurecem.
VI
Sob a neve subtil, fina, insistente, Nem uma vóz nos ares se desata, Nem um rumor longínquo de cascata Perturba a estranha solidão do ambiente. Tudo é magua, em redor! Um sonho intenso, Um sonho doloroso, e já selvagem, Cobre os galhos despidos da paisagem, Tremula no horizonte escuro e immenso. E á porta das cavernas, silenciosos, Sobre os joelhos pousando os pulsos lassos, Os homens olham, mudos, os espaços, De onde os astros se afastam, vagarosos.
A estrada sem fim
Dentre uma leve espuma, em rondas suaves, A madrugada rompe. Um canto de ânsia Sobe da selva funda e socegada, E agita as frondes no ar sonoro de aves. O homem levanta as mãos para a distancia Que surge, lentamente, em sua estrada; E o passo audaz, sereno, a alma confiante, Sobre pedras e espinhos caminhando, O tempo que floresce no quadrante Vai, solitário e alegre, desfolhando...
Ao sol do meio dia, quando o espaço Toma os contornos de um castello mouro, E o céo em chammas, lembra um rio de aço Entre escarpas de braza e vulcões de ouro, O homem pára, abre os olhos, e medita Na solidão das landes, infinita ! Depois, a tarde cobre todo o ambiente Com as imagens somnambulas, estranhas, De uma renda de cinza transparente; E, emquanto, pouco e pouco, tremulando, Num chuveiro de soes a noite desce, O homem, erguendo as mãos inutilmente A' distancia, que vai sempre augmentando, Entre abysmos, torrentes e montanhas, Pela estrada sem fim desapparece...
ENTRE OS CHOUPOS DA ESTRADA (Epitaphio)
A Alvaro Moreyra
Entre os choupos da estrada (Epitaphio)
Entre os faunos, que são ingênuos, junto á fonte Que a vóz calava no ar, somente por ouvil-o, A harpa suave nas mãos, a coroa na fronte, Elle riu e cantou no azul do céo tranquillo! Pára um pouco, Viajor. Ergue de pedra fria Os teus olhos, e vê: Tudo o que, em roda, existe, Já passou, já voltou, riso ou melancolia... Quem foi alegre, um dia, um dia ha de ser triste !
Mas antes de, outra vez, seguires para a vida, Em frente aos bosques, onde ha frautas mysteriosas, Na penumbra que envolve a terra adormecida, Recorda como é vão o teu destino breve, Como passam no mundo os pássaros e as rosas, Como a sombra do poeta, entre os homens, é leve...