Sonetos I
Sonetos I
SONETOS Manda-me Amor que cante docemente. Camões - Canção VIII.
A Jorge Jobim
Velhas imagens
Mulher! bolha de espuma, incenso leve Que rola no ar, arroio que deslisa; Folha de outono, cinza errante, brisa, Rosa fresca de um dia, sonho breve! Fôrma subtil que a penna não descreve, Sombra das sombras, tremula, imprecisa; Luar, que as pedras brutas idealisa, Plúmula ondeante, flóculo de neve.. Mulher! Quantos atraz do teu engano Perderam, com a esperança, as almas quietas, Então mudadas em raivoso oceano! Mulher! Vento em canção, nuvem que passa. Tão serena e constante como os poetas, As miragens, as ondas, e a fumaça...
Fortuna, por meu mal, me tem mudado Todo o prazer da vida em dissabor. Pois, onde ponho meu maior cuidado, Logo ella põe tristezas e amargor. Porque será que, em danos, o meu Fado Vem convertendo sempre? Acaso, Amor Só traz doçura, quando desolado, Só tem perfume, quando tem travor?
Mas quem será que um brando e leve crime Me fez pagar com penas dolorosas ? Será Fortuna, mesmo, que me opprime A alma cheia de errores, ou serão Essas ondas geladas, caprichosas, Que andam boiando em vosso coração ?
III
A uma Senhora indifferente
Muda-se o claro dia em noite escura, A névoa em luz subtil, que resplandece, E os campos doura, as sebes reverdece, E enche de azul sereno a immensa altura; Muda-se em fina poeira a pedra dura, O botão em corolla, a loura messe Em trigo, a flor em fruto que apetece, E a tristeza das horas em ventura.
Muda-se o doce arroio em onda amarga, O vento em calmarias, a esperança, De enganos leves, em pesada carga. Somente vós, por quem vivi penando, Entre as coisas que sempre vão mudando, Não conhecestes sombra de mudança!
IV
Junto das águas frescas, suspirosas, De manso arroio, o louro Almeno inclina A fronte, em febre, entre um festão de rosas, Que um raio de ouro, tremulo, illumina. Inclina a fronte, e pensa nas cheirosas Manhãs de prata e espuma leve e fina, Quando vinha das selvas mysteriosas A musica das frautas, cristallina.
Tudo revê, saudoso; mas apenas Os olhos põe na fugitiva Nympha Que as horas lhe amargara tão serenas Logo um nevoeiro os ares escurece, Logo se cala a suspirosa lympha, E o claro sol do céo desapparece...
Onde puzerdes vosso Amor, Logo achareis magua e tortura: A vida é feita de doçura E, ao mesmo tempo, de amargor. Andam, assim, prazer e dor No mundo vão, tão de mistura, Que separal-os é loucura, Sobre loucura, dissabor.
Mas é costume, infelizmente, Costume máo, de toda gente, Querer ventura sem travor, Tomai, pois, tento, que, em verdade, Não vereis só felicidade Onde puzerdes vosso Amor.
VI
Quem teve á mão o fruto cobiçado Quem alcançou, bastando desejar, No lábio triste o beijo demorado, Na alma, o sonho feliz, o sol no olhar Quem abysmos transpoz, como um Cruzado, Entre incêndios de luz, num rebrilhar De aços polidos, e ouro derramado, Brandindo a espada chamejante no ar;
É quem, dolente, e em reverencia, agora, Todo se curva, pallido, Senhora, A fronte, e a gorra de velludo ao chão! É quem, sob a invencível armadura, Diante de tão serena formosura, Sente tremer de medo o coração!
VII
A' maneira do Renascimento (Depois de ler a Vita Nuova)
És tão leve e gentil, ó minha Dama, Que, pelas ruas, quando os mais saúdas, Ficam as bocas, de repente, mudas, E os olhos ardem numa inquieta chama. Teu melindroso gesto assim derrama Tanta doçura sobre as coisas rudas, Que em milagre do céo a terra mudas, Tu, milagre maior, que a terra acclama!
Tontos da tua luz sonham, unidos, Entre supplicas, ais, gritos, gemidos, Os corações que Amor está movendo. E em torno ao lábio teu, como alta lira Que dedos invisíveis vão tanjendo, Um mundo de almas tremulas suspira.
VIII
Emquanto a Primavera vai deixando Os fios de ouro na corola aberta, A esmeralda nas folhas, e no ar brando Aquella doce luz, tremula e incerta; Emquanto os roseiraes se enfloram, quando O jasmineiro, em cachos, descoberta Mostra a flor de marfim, e, ao vento, ondeando, Toda a selva em clarões freme e desperta;
Emquanto o sol dardeja e o azul deslumbra, Meus olhos andam cheios de penumbra, E uma pedra me aperta o coração! É que, por tudo, sinto, num queixume, A enganosa illusão do teu perfume, A tua voz, e o teu contorno vão,
IX
Longe do teu olhar a terra é escura, A flor não viça, as águas são pedrentas; As horas, de saudosas, são mais lentas, E amarga mais nas almas a amargura. Longe do teu olhar toda a doçura Dos campos foge em brumas fumarentas, E a ventura da vida, que alimentas, Pouco e pouco se volve em desventura,
Ora, se a Natureza assim castigas, Essas coisas amigas e inimigas, Mergulha tua ausência em prantos e ais; Que poderei dizer, então, da minha, Da minha natureza tão mesquinha Que teu olhar não illumina mais!