A Resposta do Homem a Caminho eterno
A Resposta do Homem a Caminho eterno
A Resposta do Homem A Freitas Valle
"Homem! que queres mais? Dei-te a alegria Que move os mundos harmoniosamente; E o céo cheio de estrellas, e a poesia Da aurora casta, e a lagrima do poente." "Dei-te a floresta espessa, e a pedraria Límpida, a água das fontes, transparente, E o vinho de ouro, a flor tremula e fria, E o silencio mais sábio que a serpente..."
"Dize, que queres mais ? O amor, a gloria, A força, ainda mais bella que a Belleza, A eternidade na hora transitória?" "Que queres mais, se as tuas mãos têm tudo, Se é toda tua a immensa Natureza?" E o Homem olhou a terra, e ficou mudo...
Fumo
Todas as fôrmas passam, lentamente, Por meu desejo, que anda a procural-as. Mas, se tento attingil-as, de repente, Mudam-se em fumo, em sombra, em névoas ralas. Palavras que são como a água dormente Na clausura de um vaso! Onde encontral-as, Capazes de exprimir o sonho ardente Que ha num repuxo, ou num collar de opalas?
Palavras que promettem maravilhas, Como, á distancia, o mar, que se abre em ilhas, Em pérolas, madréporas, coraes.... Mas, que a um leve tocar das mãos ansiosas, Quebram no azul as linhas caprichosas, Como as ondas amargas contra o cáes!
PÓ
«De onde vens, cavalleiro mysterioso, No teu ginete de revoltas clinas ? Que manhãs, e que tardes cristallinas Atravessaste, inquieto e sem repouso ?» Olhando, assim, no cimo das collinas, O vulto pensativo e silencioso, Os homens clamam, prelibando o goso Das verdades eternas e divinas.
«Quem é o nosso Deus ? A dor, a gloria, O sonho, o amor ? Que força transitória, Para a illusão formou o nosso sêr ?» E os homens viram, mudos, de repente, Uma nuvem de pó subir no poente, E o cavalleiro desapparecer...
No alto da montanha A Rodrigo Octavio Filho
O homem medita... A sombra ondeia, suavemente, Sobre a planicie, longe. A voz das cousas, lassa, No ar da tarde, subtil, como um suspiro passa, Cresce, um pouco, e, depois, cala-se de repente. O homem pensa: Ser bom! e, ao mesmo tempo, algente, Um pássaro nocturno as azas espedaça De um pobre insecto esquivo, e uma alta estreita traça Uma curva de luz no céo indifferente...
O homem escuta: O mundo accorda na sua alma! E o silencio feliz da Natureza calma Não lhe ouve o coração, que se abre num só grito !. E o homem levanta o olhar, e vê que anda por tudo, Nas montanhas, no chão, no mar, no espaço mudo, Essa tristeza immensa e vaga do infinito...
Fábula
Suspenso ao ramo verde o fruto louro Entreabre para o sol, como um escudo, A rosea pelle, toda esfriada de ouro, Que lembra, na maciez, pluma ou velludo. Parece, dentre as folhas, um bezouro, De azas fechadas, reluzente e mudo ; Emquanto vaes, assim como a um thesouro, Subindo, pouco e pouco, o tronco rudo.
Cuidado! Não te arraste a lide insana, Vê melhor! Quasi sempre as amarguras Já foram sonhos, dentro da alma humana. Se tens sede, e mais nada, a arvore é boa. Mas se é felicidade que procuras, O bezouro se move... e o fruto vôa,
Caminho eterno
Os homens vão as almas arrastando Por abysmos sem luz, e por estradas Onde o sonho mais límpido e mais brando Logo se volve em sombras desoladas. As mãos levantam no ar, e é sempre quando As mãos levantam, tremulas, cansadas, Que outros caminhos surgem, serpenteando, No pincaro de serras escarpadas!
Onde a felicidade promettida ? A insania que nos leva para a vida Leva-nos, todos, para um bem ausente. E, depois de andar tanto, que perdura ? Um punhado de cinzas, e a amargura De ter andado tanto, inutilmente...