Poemas da Natureza Poemas e sonetos · Capítulo 3 de 9
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Poemas da Natureza

Poemas da Natureza

POEMAS DA NATUREZA

A Tristão da Cunha

Allegoria da manhã

Terra cheia de luz, para o teu esplendor Ergo as mãos, num tremor de desejo e de gloria ! E na paz de um jardim mysterioso e pagão, Onde passeia o sol como um velho pintor, Numa ingênua canção dou-te a minha memória, E num beijo aromal, dou-te o meu coração.

Coroada de jasmins, de pampanos e rosas, Coberta de trigaes maduros, sobre os rios A tua imagem real veste-se de cristaes; E em teus braços, que são as estradas gloriosas, Cantam fontes rolando entre juncos esguios, Estremecem bambus e verdes laranjaes.

Entre as latadas de uva, e as framboezas vermelhas, Ha brilhos de rubis, e reflexos de prata; E no tremulo véo velludoso das parras Um bando transparente e sonoro de abelhas, Como um fio de mel, ondula e se desata Sobre a folhagem de ouro, os cravos e as cigarras.

Range no poço antigo a polia da corda, Sobre os tanques de opala as arvores recurvas Boiam, no espelho azul da água fresca e parada. Cortam pássaros o ar; pelas granjas, accorda O moinho que volteia as grandes azas curvas, E em cada face, o olhar que esvoaça, é uma bailada

Terra cheia de luz, nos pomares o outono Incendeia e arredonda a vinha hospitaleira, As amphoras que vão no hombro das raparigas Têm perfumes que dão volúpia e que dão somno; Nas bilhas, espumando, o leite morno cheira, E a campina é um clarão de papoulas e espigas.

Na dourada manhã, sobre a paz infinita Das collinas azues, e dos jardins pagãos, Para o teu esplendor, terra nobre e bemdita, Ao sol que se levanta, ergo-te as minhas mãos!

Allegoria da tarde

Sobre os leves rosaes e as finas trepadeiras As nuvens levam seda e nacar para o poente. Os parques vão sonhar, E ha torres pelo céo, e flechas de onix ardente, E galeras de bronze arfando, em chammas, no ar.

Nas alamedas que o crepúsculo adormece, Um dolente torpor crispa os troncos, as ramas, E as ágathas do chão; E no longe, que foge, a distancia parece, Dentro de um turbilhão de palmas e auriflamas, Uma cascata de ouro, a rolar de um vulcão! Lembra o occaso um clarão de estandartes divinos A ondular sobre o sol, como ao fim da batalha Ondulam plumas reaes, Entre o nobre esplendor das taças e dos hymnos, Das trompas, dos clarins, e da luz que se espalha Sobre fulgurações de espelhos e cristaes. Tudo salta para o ar num brazeiro glorioso ! Entre scintillações de incêndios rubros arde A selva secular; E com a lava que accende o espaço tumultuoso, Crescem ondas de luz no silencio da tarde, Como se a tarde fosse um grande e estranho mar ! Mas quando a sombra vem, lentamente, descendo Com uma suave expressão de abandono e doçura, De chimera e illusão, Todo o passado vae, em ronda, apparecendo, Emquanto o sol se esconde entre nevoas, na altura, E a tristeza do mundo enche o meu coração...

Allegoria da Noite

A noite é suave como um beijo sobre a face. Nas frondes quietas ronda o luar, e o luar accende Figuras de marfim, suspensas entre a bruma. Pelo céo de cristal, luminosa e fugace, Brilha uma estrella, e foge; e todo o espaço esplende, Num tremulo clarão de alabastro e de espuma.

A paisagem parece um aquário gelado. As gramas são coraes sombrios, e as raízes Lembram aranhas de ouro, a fugir na penumbra. O casario, sobre as curvas de um montado, Deita espectros no chão, e ha lagrimas felizes Nos ramos, de onde o orvalho escorre, e me deslumbra. Na doçura do ambiente a solidão é um poema Que a alma diz, devagar, num leve choro de harpas; E o silencio é uma voz que emmudeceu na sombra... A lua abre, no azul, como a flor de um diadema, E no céo de cristal, aprumando as escarpas, Num tropel de alcantis o horisonte se escombra. Noite, irmã da illusão, quanto sonho glorioso Semeiam tuas mãos, onde ardem, num chuveiro, Astros, constellações, nebulosas distantes, E toda a flora ideal de um paiz maravilhoso ! Quanto desejo vão, inquieto e passageiro, Tomba de tuas mãos, como a hora dos quadrantes... Nas sombras do jardim sobe um rumor de chuva Da água dos vasos, que um Tritão indifferente Na fonte senhoreal deixa rolar, num salto. E os faunos, em redor da vinha aberta em uva, Descerram, num clarão, os olhos de repente, E movem quasi, a rir, os cornos de bazalto. Pelo céo de cristal, luminosa e fugace, Brilha uma estrella, e foge. O espaço claro esplende. Nas frondes quietas ronda o luar que a terra accende. A noite é suave como um beijo sobre a face...

Manhã de inverno

É tarde, e o sol não vem ; sobre as collinas Volteiam rolos pardos de neblinas. O orvalho escorre pelas folhas; tudo, Nos ares e nas selvas, está mudo. No beiral dos casebres, quando a quando, Andam pombos, aos pares, esvoaçando; E, ao dormente frescor dos laranjaes, Tremem de frio, unidos, os pardaes.

Nos campos cheios de água e de humidade Erra um cheiro de lírios. Que saudade Ha nas arvores quietas, nos relvados, Nas serras, nos caminhos encharcados, Nos mangues silenciosos, na espessura Dos grotões, e nas massas de verdura. Que saudade ha no gesto com que a mão Aperta, desolada, o coração! Mas, de repente, o céo todo estremece, O horisonte se alarga, a terra cresce Em grandes labaredas voluptuosas. As aves cantam, desabrocham rosas... Num mar de fogo ferve, toda acceza, Em faixas de ouro vivo a Natureza; E a alma fica a sorrir, á flor do olhar, Ao sol, que a abelha e os mundos move no ar!

Maio Ridente

Agora que as manhãs são mais leves e finas, Que o céo é mais azul, e a água mais transparente, Estrangeiro! vem ver estas serras divinas, De contornos de seda e pedraria ardente. Vem a musica ouvir das aves e dos ninhos, Das fontes de ouro, a rir, por entre verdes relvas, Quando se alonga, sobre a areia dos caminhos, A sombra irregular dos morros e das selvas.

Cada canto de terra, onde vão, rumorosas, As abelhas de braza, é um jardim! Cada galho Uma festa aromal de cravos e de rosas, E em cada flor reluz uma jóia de orvalho! Rola, solta no espaço, uma tremula poeira De luz suave e tranquilla, e ha no chão e na altura, Na montanha pesada, e na folha rasteira, Um gesto fraternal de graça e de doçura! Estrangeiro! vem ver estas florestas densas, Onde, pelos grotões e pelas crespas mattas, Ha columnas de bronze e cupolas immensas, E um continuo tropel sonoro de cascatas. Estrangeiro ! vem ver estas serras divinas De contornos de seda e pedraria ardente, Agora que as manhãs são mais leves e finas, Que o céo é mais azul e a água mais transparente.

Crepúsculo

No parque silencioso as abelhas douradas, Entre a folhagem calma, abrem as azas finas; Sobem leves canções do fundo das estradas, E uma indecisa luz veste, ao longe, as colunas. Hora serena e irreal. Por que, quando entardece, A alma inquieta tem mais saudade, e tem mais dor? Por que o passado assim, na memória, apparece, E põe no lábio triste um immenso amargor?...

Emquanto as formas vão morrendo pelo ambiente Um perfume subtil e doce envolve o espaço; A sombra desce no ar e, como á flor de um lago, Entre a noite, ainda vaga, e o dia, ainda mais vago, Desabrocham no céo, distante e transparente, A lua de cristal, e os soes de opala de aço...

Primavera

Escuta! É a Primavera! anda nos ramos Um divino esplendor de pedrarias. Na água tranquilla das ribeiras frias Molham as plumas de ouro os gaturamos. Que doçura ha no campo, onde as carretas Passam lentas, pesadas! Que doçura Derrama sobre a terra o azul da altura, E como se alam no ar as borboletas!

Ouve: Sobem dos bosques vozes francas, Risos de fonte, cantos de esperança. Que serena alegria enche os espaços! Da-me a cesta de amoras, loura creança; Levanta os senhoris, os lindos braços, E, como a sombra de uma nympha, dança, Leve e subtil, por entre as rosas brancas !..

Serenidade

Choveu. A tarde desce; rota, Uma palma pende, no poente. Das folhas tomba, lentamente, Um resto de água, gota a gota. O campo, ao longe, em fumos brilha; Sobe do fundo das estradas Um perfume de hervas molhadas, De canella, cravo e baunilha.

No ar transparente, as andorinhas Voam, revoam; dentre as vinhas Tremem redondos cachos de uva Emquanto o sol, pallido e louro, Vai misturando os raios de ouro Aos pingos de prata da chuva.

Noite de Junho no Campo

A' beira d'agua, os caniços Tremem, com brilhos mortiços; Ha tons de prata gelada Na areia branca da estrada. Nos campos humidos anda Um perfume de lavanda, De folhas virgens e agrestes E de Magnolias silvestres.

Trilam os grilos nas relvas, E os galhos rangem nas selvas. No céo, desolado e algente, Curvo, resplende e crescente; E, sobre a água, entre os caniços, Em leves brilhos mortiços, Na sombra azul, que estremece, Um novo céo apparece..

Manha de pedrarias

O dia acorda, vem! Por todo espaço O sol scintilla, em pontas de ouro e de aço; Ha rumores sonoros entre as rosas, E na copa das arvores frondosas, As águas correm crespas, em cascata, Num tremor de esmeraldas e de prata; Nas espigas douradas e vermelhas, Em cachos vivos, zumbem as abelhas;

Pelos troncos escorrem, purpurinas, Como quentes granadas, as rezinas; Que volúpia de cores, que doçura Ha nos campos cobertos de verdura ! Nas colunas, nas relvas, no ar incerto, Tudo fulgura, como um cofre aberto; Nos rios rolam pérolas dormentes, E ha nas pedras carbúnculos ardentes ; A poeira tem irisações estranhas, E é de safira o flanco das montanhas ! Vê como teu cabello se mistura A' morna irradiação que vem da altura; Vê como tua boca se parece A's polpudas romãs que o sol aquece ! Banha-te nesta luz ! Bebe este vinho Que ferve sobre a areia do caminho; Que espumeja na taça das corollas; E no louro fulgor das carambolas; Que dardeja nas várzeas enfloradas, E na tapeçaria das estradas ; Que vibra na palheta das parreiras, E no incêndio aromal das laranjeiras.

Bebe este vinho nobre ! Que vertigem De alegria encherá tua alma virgem ! Vê como esta alegria o sêr te irmana A' belleza divina mais que á humana ! Vê como a vida é boa, assim vivida, Assim amada ! Como é boa a vida !..

Tarde de chuva

Sobre os jardins, fina, insistente, A chuva cáe, tranquillamente, Porque uma voz antiga, chora Dentro de mim, occulta agora ?... Das folhas tomba, lentamente, A água da chuva transparente. A' hora em que os seres adormecem, Por que meus olhos se entristecem ?

No escuro céo, tremulamente, A sombra estende a aza silente. Que solidão nos ares erra! Que solidão em toda a terra ! Sobe, e se espalha, suavemente, Um cheiro de hervas pelo ambiente. Por que, lá fora, tanta calma, E tanta magua na minha alma?... Sobre os jardins, fina, insistente A chuva cáe tranquillamente...

A sombra que passa.

Ao sol que os espaços banha Num mar de purpura quente, E de ouro fino, Rebrilha em cada corrente, Reluz em cada montanha Um pensamento divino!

Suspensa de leve galho, — Breve taça de alabastro, Ou de coral— Na folha cheia de orvalho, Como no seio de um astro, Bebe, chilreando, o cardeal. Numa subtil poeira de azas Bailam, em ronda os insectos, Ágeis e esquivos ; No chão accendem-se brazas, E ha nos caminhos discretos Súbitos clarões furtivos. E, emquanto o sol incendeia Vallos e morros pesados, E emquanto, no ar, A aranha constróe a teia, E a terra, com os seus arados, O Homem feliz vai lavrar; Emquanto os rios murmuram, E a folhagem buliçosa, Sonha e estremece Nos relvados, que fulguram, Uma sombra silenciosa No claro espaço apparece. Uma infinita amargura Desce do azul, sobre a calma Da Natureza, E ha como por toda a altura, Uma alma que soffre, uma alma Cheia de humana tristeza!

Silencio

Ninguém... A noite dorme, silenciosa. Pela encosta dos morros sobe a lua. Que exquisita saudade se insinua Na noite silenciosa! As arvores, nos ermos, estão quietas ; E, ao luar, que inunda as calmas alamedas, Ha um brilho de vidrilhos e de sedas Entre as arvores quietas.

Que mão subtil nas relvas orvalhadas Derramou tanta jóia e pedraria? Parece até que vai nascer o dia Nas relvas orvalhadas ! Rola um perfume de jasmins no ambiente. E, entre a sombra que envolve toda a altura, Um repuxo finissimo murmura No desolado ambiente..

NA DOÇURA DA TARDE

A Claudio Ganns

No céo purpureo ferve a luz do poente Como a cratera acceza de um vulcão; E os astros vão abrindo, suavemente, A sua floração. Quando a penumbra desce pelo ambiente, Porque fica mais velho o coração ? Porque o silencio é muito mais dolente, Porque tudo é mais vão?..

Quando a tarde adormece a natureza, Porque a sombra insinua essa tristeza Dentro do nosso olhar ? Porque a memória vai, de quando em quando, Todo o passado, aos poucos, desfolhando, Como uma rosa no ar?...

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