Florestas irmãs a A um Filho Pródigo Poemas e sonetos · Capítulo 8 de 9
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Florestas irmãs a A um Filho Pródigo

Florestas irmãs a A um Filho Pródigo

Questa selva selvaggia ed aspra e forte Che nel pensier rinnuova la paura Dante - Inferno. Canto I.

A Renato Almeida

Florestas irmãs

Olha estas frondes reaes que a lua banha, Olha, e medita! A selva, aqui, se espelha Entre pesadas sombras, que a scentelha Das errantes estrellas acompanha. Como, em torno, a floresta é espessa e estranha! Não canta uma ave, nem a leve abelha Esvoaça, nem, nas relvas, a vermelha Papoula aos verdes brotos se emmaranha... Olha, agora, tua alma; olha, e medita! Que floresta de enganos, infinita, Lentamente cresceu da tua dor! Vê como, assim, na sombra mergulhadas, Têm as duas florestas desoladas O mesmo desespero, e o mesmo horror!

A eterna pergunta

Deante da eterna dor, do mal insano, Não é de mais a ventura promettida; Não é de mais uma vida, além da vida, Onde será divino o sêr humano! Dentro da sanha desse amargo oceano De miséria continua, repetida, Cada illusão recorda uma ferida, Cada alegria traz um desengano...

Porque, meu Deus, essa tortura immensa, Essa noite profunda de descrença Em que as almas se agitam, com pavor ? Porque, Senhor, tanta revolta obscura, Nessa infeliz, humillima creatura, Que tem medo de crer no seu Creador?

Noite

No remanso da noite, quem não sente Uma velha afflição, magoada, immensa? Quem não abaixa os olhos, de repente, Cheio de inquietação, e de descrença! Essa tranquillidade funda, algente, Feita de desengano e indifferença, Onde os seres se apagam, lentamente, Quem ha que dentro da alma insomne a vença?

Nas arvores, nas brumas vaporosas, Nas pedras rudes, nas planícies erra A tristeza das coisas silenciosas. E quanto mais de horror a alma recua, Mais sombra cáe dos ares sobre a terra, Mais refulge no céo sereno a lua.

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Antes, a alma que tenho andou perdida. Por que mundos rolou, que mão subtil Poz tão nobre fulgor, e estranha vida, Nesse bocado de ouro e barro vil ? De certo, arvore foi: verde jazida De ninhos, sob o céo de espuma e anil. E foi grito de horror, na ave ferida, E, na canção de amor, sonho febril!

Foi desespero, soffrimento mudo, Ódio, esperança que tortura e inferna; E, depois de exsurgir, triste, de tudo, Veio para chorar dentro em meu sêr, A amarga maldição de ser eterna, E, a dor de renascer, quando eu morrer!

Deus

A que terras sombrias e geladas Fantasma, nos conduzes ? Que florestas De arvores negras, solidões funestas, Guardarão nossas almas torturadas ? Entre vãos desesperos, e entre festas, Depois de tantas illusões falhadas, Na successão de noites e alvoradas, Só tu, fúnebre horror, só tu nos restas!

Só tu, fúnebre horror maravilhoso, Que não dás um minuto de repouso Ao nosso humano, estreito coração; Só tu, figura pensativa e estranha, No alto da tua trágica montanha, Onde nem chega a nossa maldição!

Desejo

Pelo nosso desejo enlouquecemos ; Pois no bem alcançado um novo engano Enche de angustia o coração humano, Com a ventura que não alcançaremos! Dolorosa illusão que não podemos Supportar, nem vencer, e é mal insano Que ruge dentro em nós, como um oceano Onde, aos poucos, chorando, nos perdemos.

Dolorosa illusão, que é a própria vida, Fugitiva, fallaz, inattingida, Que as nossas mãos procuram, sem tocar. Ah! desejo, que, em sendo satisfeito, Augmenta novamente em nosso peito Como as ondas augmentam sobre o mar.

A um Filho Pródigo

Volta! ainda é tempo! Branca, no horizonte, Tua aldeia sorri sobre a coluna. Cumpra-se nesses valles tua sina, Seja teu mundo esse tranquillo monte; Seja teu mundo essa encurvada ponte Que sobre o rio, tremula, se inclina, E esse trecho de céo que te illumina A larga, franca e pensativa fronte!

A vida, ahi fora, em ondas, tumultua. Ouve teu rude coração. Recua! Volta aos humildes, mas felizes, tectos: Que as estrellas terão mais calmos brilhos Para velar o somno de teus filhos, E a terra sorrirá para teus netos!

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