Figuras de Cinza e de Ouro Poemas e sonetos · Capítulo 7 de 9
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Figuras de Cinza e de Ouro

Figuras de Cinza e de Ouro

FIGURAS DE CINZA E DE OURO

A Alceu Amoroso Lima

Pastoral

O carro das vindimas, lentamente, Com as rodas de ouro e bronze bate o solo Nos morros arde a purpura do poente, Na sombra espiam nymphas de alvo collo. Em derredor faz ronda a rude gente De rijos cornos, frauta a tiracollo, Satyros, faunos; e, num bando, á frente, Ménades brutas roncam contra Apollo! Dos pampanos virentes rompem bagos, Nas amphoras o mosto flavo oscilla, Em reflexos metallicos e vagos. O ar embebeda as fontes, no caminho, E pela tarde tepida e tranquilla, As águas, tontas, sonham que são vinho...

Pean

Ergue para o céo calmo as leves mãos serenas; Pede a gloria que embriaga, e a victoria que offusca ; Antes que a frota real das galeras hellenas Rompa, num turbilhão, as curvas da onda brusca ! Ferve no mar de opala a espuma das carenas; E, das terras ideaes, que teu desejo busca, Vem, no aroma subtil dos cravos e açucenas, A graça pastoril de uma canção etrusca.

Desenham-se no azul, que a luz accende e escalda, As serras de cristal, e os campos de esmeralda, Que teus guerreiros vão, sequiosos, conquistar! Levanta ao sol dourado as leves mãos radiosas, E, como quem desfolha um punhado de rosas, Desamarra, em festões, as bandeiras pelo ar!

Medalhão

No terraço esculpido, entre alvos alabastros, Triste, adormeces junto ás amphoras esguias ; A cabeça inclinada, os cabellos desnastros, Onde estão refulgindo o âmbar e as pedrarias. A água, de encontro ao cáes, rola, num cofre de astros, E, ao fundo, entre clarões, ferindo as ondas frias, Passam triremes com grinaldas pelos mastros, Carregadas de sal, de vinho e especiarias.

Como um jardim, os teus contornos, lentamente, Vão florindo, na sombra, em tons de um suave louro, Com um perfume que lembra as magnolias, ao luar; E nos longes, que a noite enche de cinza ardente, Entre palmas, tropheus, flammas e espumas de ouro, Na trompa dos tritões soluça o velho mar...

Festim pagão

Numa ronda de luz, dentro dos bosques mudos, Ao sonoro bater dos tambores retezos, Entre taças de bronze, e encurvados escudos, Correm faunos febris, de olhos fundos, accezos. Toda a selva estremece, e, nos relvados rudos, Ha gritos, maldições, promessas e despresos; Emquanto, mollemente, os satyros cornudos Dansam, na grama fofa, em pelles finas presos.

A tarde desce, longe. Em tropel, as bacchantes, Ao som das tubas de ouro e das frautas de cana, Passam, as mãos nas mãos, tremulas, cambaleantes. E quando a lua vem, de súbito, os compassos Emmudecem no espaço, e a sombra se engalana De grinaldas de soes, de beijos e de abraços !

Baixo-Relevo

Sobre os altos cyprestes, rubra e ardente, Uma tarde triumphal desce, e agonisa; E Fauno, as mãos pelludas, de repente, Abre para uma nayade imprecisa. Embora o olhar o engane, Fauno sente Uma boca a beijar-lhe a alma indecisa, E tonto, estende os braços para a frente, Como se visse espadua nua e lisa.

No crepúsculo triste, uvas e rosas Tombam feridas de melancolia, Dentro do bosque, em rondas silenciosas. E Fauno, ainda uma vez, abre as mãos lassas, Emquanto a sombra apaga, suave e fria, Uvas e rosas, pampanos e taças.

Vinho amargo

A coroa de louros sobre a fronte, Erguendo ás mãos a taça, e a palma de ouro, O poeta vê, na curva do horizonte, Franjas de céo, pedras de ancoradouro. Brilham no mar sereno as naus, e a ponte Que rasga as ondas como um brigue louro. E tudo boia em sol, águas de fonte, Tanques de prata, ou leões de pateo mouro.

De súbito, porém, pallida e nua, A vida enche-lhe a taça de berylo, E elle mergulha os lábios, e recua ! Pois no vinho que a vida lhe offerece, Como num fundo olhar, negro e tranquillo, Todo o pavor da morte lhe apparece!

Chuva de astros

O céo tranquillo é uma amphora redonda, Cheia de prata e de ouro, a transbordar; E nos jardins, ao longe, em lenta ronda, Os pavões abrem leques para o luar. Emquanto a bruma desce, de onda em onda, Sobre as frondes da selva secular, O vento vai fazendo a estranha monda Das roseiras que se desfolham no ar.

Nos lagos de esmeralda um canto ardente Tremula, e sobe, num rumor de liras, Por entre jorros de água transparente; E, pelo espaço immenso, que relumbra, Em turbilhões de opalas e safiras, Estremecem as azas da penumbra!

Festa veneziana

Sobre as águas de purpura abre o poente Faixas fulvas de luz, franjas esguias E ondulantes de prata viva e ardente, Num claro rebrilhar de pedrarias. Em cada planta aquática, dormente, Que as raizes distende, e as folhas frias, Refulge um raio de ouro, levemente. A tarde cae do alto das penedias!

Num florão de grinaldas caprichosas De violetas, crysanthemos e rosas, As gondolas baloiçam no canal. O sol desapparece... Ha um riso de ânsia! Emquanto vai subindo, na distancia, Num céo de espuma, a lua de cristal...

Sombras que voltam

Dentro do nosso olhar, ás vezes, nasce, Como na água de um lago transparente Uma indistincta floração fugace, Todo o passado, em ronda, suavemente. E o juramento que se fez, e a face Que se beijou, chorando, docemente, E volta, pallida, (e antes não voltasse!) Tudo se ergue na sombra, de repente.

E são verões, outonos, primaveras, Mares coalhados de astros e galeras, Tardes de prata, auroras de cristal; E cidades que, longe, vão surgindo, A' beira azul de um golpho calmo e lindo, Entre grinaldas de âmbar e coral!

Vesperal

A hora veste de cinza toda a altura, Cinza que os astros vão manchando de ouro; E o céo é como a boca de um thesouro, Onde ha brilhos ferindo a névoa escura. Na solidão, que augmenta ainda a espessura Dos bosques, como num castello mouro, Modulam frautas e arrabis, em coro, Velhos rimances de ódio e de doçura.

Súbito, as vozes calam-se, na sombra. Uma figura pallida se escombra Por traz dos ramos, sob a luz do luar; E na amargura, que adormenta o espaço, Meu coração, como um violino lasso, Parte as cordas de tanto soluçar..

Pomona

Dentre um perfume, que entontece, De loura manga e de maçã, Teu leve corpo me apparece Na claridade da manhã. Tal uma jóia, resplandece Nas verdes ramas, a romã; E, pela relva, humilde, cresce A crespa folha da hortelã.

Por onde vai teu pé ligeiro, Atraz do qual o pegureiro Tonto de amor, se cansa, em vão! Logo das coisas foge a calma: Em cada flor palpita uma alma, E em cada fruto um coração...

A' espera do luar

Do balcão de ouro, que um rosai incensa, Pelas arvores calmas, orvalhadas, Teus olhos, cheios de saudade intensa, Ainda procuram fôrmas apagadas. Dentro da sombra velludosa e densa, Os chorões se debruçam nas estradas ; E pela noite azul, serena, immensa, As horas tombam lentas, socegadas.

Emquanto o céo se enche de pedrarias, Soluçam nos jardins as águas frias De um tanque, onde ha tritões de humidos flancos. E, ao fundo, longe, antes que a lua rompa, Ao som da avena rústica e da trompa, Descem dos montes os rebanhos brancos.

Transfiguração

Quando o silencio vai crescendo, quando O poente accende os lírios de marfim, As tuas mãos parecem pombas, voando Na penumbra macia do jardim. Como um cristal resoante vaes passando, Com perfumes nostálgicos, por mim; E teus braços, de um talhe real e brando, São dous pavões de espuma e de setim.

Súbito, é um caule ideal teu corpo esguio, Uma folha que esvoaça, no arrepio Da ramaria ondeante dos chorões. Mas, depois, vestes o ar de estranho luxo, E, numa refulgencia de clarões, Lembras a chuva de ouro de um repuxo!

Melancolia

A tarde cáe; no espaço triste Os astros vêm, as aves vão.. Ah! tudo, tudo quanto existe É dissabor, desillusão. Andam, na estrada que seguiste, Olhos sem luz, bocas sem pão. Ha quanto tempo tu partiste ? Nem sabe já meu coração...

A frauta de um pastor remoto, Por entre as sebes de jasmim, Chora o amargor de quanto existe ; E como um grande lirio ignoto, Laivado de ouro e de marfim, A tarde cáe no espaço triste...

Exílio amargo

Ah! toda esta ansiedade e toda esta tortura Vieram morrer dentro de mim, sem um gemido. Hora que, em vão, sonhei! A vida fêl-a escura. E, agora, meu desejo é um parque desflorido. Tudo passou por nós, tudo passou... procura No meu sombrio olhar aquelle áureo sentido, E somente verás, como em velha gravura, A apagada expressão de um perfil esquecido!

E tu foste, depois, para a insomne alegria, A semear, em clarões, na poeira das estradas, A gloria do teu canto, o ouro da tua vida, E eu fiquei para errar, mãos sem sol, alma fria, Entre abysmos sem fundo, e selvas desoladas, Na saudade e no horror de uma pátria perdida!

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