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Contrato de Pele

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Contrato de Pele

Capítulo 1 · Contrato de Pele

A Cláusula de Trinta Dias

Lívia Sardenberg deixou a chave girada na porta de vidro do ateliê e ficou alguns segundos com a mão presa ao metal frio, ouvindo a chuva bater no toldo rasgado da rua. O lugar cheirava a solvente, café queimado e madeira úmida, uma mistura que ela aprendera a chamar de trabalho para não chamar de aperto. Sobre a mesa, três molduras esperavam pagamento de clientes atrasados, duas telas pequenas secavam sob a lâmpada amarela, e o celular vibrava de novo com o nome de Tadeu Amarante ocupando a tela. Ela não atendeu. O saldo da conta tinha duzentos e oito reais, a oficina devia aluguel, e a última mensagem dele dispensava ameaça elegante. Dizia que dívida vencida virava visita, e Lívia conhecia o tipo de visita que chegava sem pressa, olhava para as ferramentas, media as janelas e escolhia uma cadeira antes de falar.

A proposta apareceu no e-mail quando ela já recolhia pincéis com a ponta dos dedos manchada de verniz. O assunto vinha seco, escrito por uma assistente que se identificava como Eugênia Keller, representante da coleção particular Ferraz. Havia um contrato anexado, fotografias de cinco quadros danificados e um valor que fez Lívia encostar a mão na borda da bancada para se manter parada. Trinta dias de trabalho, moradia temporária na propriedade, pagamento adiantado de metade do total após a assinatura e quitação integral na entrega. As exigências ocupavam quase tantas páginas quanto o serviço. Sem visitantes, sem fotografias próprias, sem saída entre dez da noite e seis da manhã, sem cópias dos relatórios, sem perguntas sobre a origem das obras. Lívia leu essas linhas duas vezes, pensou em Tadeu, pensou no aluguel, e vestiu o casaco antes que a prudência encontrasse uma frase convincente.

A mansão Ferraz ficava no alto de uma rua sem comércio, atrás de um muro coberto por hera escura e câmeras pequenas o bastante para parecerem olhos de prego. O táxi parou diante do portão de ferro, e o motorista observou a fachada com a curiosidade de quem já decidira contar aquilo para alguém no jantar. Lívia desceu com a pasta de couro presa ao peito e a mala pequena batendo na perna. A casa tinha janelas altas, varanda de pedra e luzes acesas em cômodos que pareciam vazios. Um homem abriu o portão por dentro antes que ela tocasse a campainha. Raul Ferraz usava camisa branca sem gravata, mangas dobradas até o antebraço e uma calma que deixava o jardim inteiro menos hospitaleiro. Ele olhou primeiro para as mãos dela, talvez procurando manchas, talvez avaliando o dano que aquelas mãos conseguiriam reparar. Só depois encontrou o rosto dela.

Raul conduziu Lívia pelo vestíbulo sem se desculpar pela demora, pela chuva ou pelo silêncio. O piso de mármore guardava o brilho cansado de lugar antigo, e os retratos nas paredes tinham sido virados para dentro, deixando à mostra apenas o verso de madeira e etiquetas antigas. Na biblioteca, Eugênia esperava com o contrato aberto ao lado de uma caneta preta. Era uma mulher de cabelo preso, roupa cinza e sorriso treinado, dessas pessoas capazes de fazer uma armadilha parecer uma gentileza administrativa. Lívia perguntou por que precisava dormir na propriedade. Raul respondeu que as telas exigiam controle de temperatura, segurança e horários específicos de trabalho. Ela perguntou por que os relatórios não poderiam sair dali. Eugênia ajeitou uma folha e disse que a família prezava discrição. A palavra família fez Raul apertar a mandíbula, um gesto pequeno, rápido, guardado de novo antes que alguém pudesse cobrar explicação.

A assinatura saiu mais pesada do que Lívia esperava. A caneta tinha corpo largo, tinta escura e um peso caro, e o nome dela ocupou a linha final com uma segurança falsa. O adiantamento caiu na conta enquanto Eugênia ainda recolhia as páginas, e o celular de Lívia vibrou com a notificação bancária. O alívio veio tão físico que chegou a doer nos ombros. Raul percebeu. Ela soube disso pelo modo como ele desviou o olhar para a janela, concedendo a ela o direito de fingir que dinheiro nenhum tinha acabado de decidir sua liberdade pelos próximos trinta dias. Quando Eugênia saiu, ele entregou um cartão magnético e uma chave comum presa a uma fita vermelha. A chave abria o quarto dela, o cartão liberava o corredor de serviço e o salão de restauração. A ala oeste permanecia fechada, e Raul pediu que ela tratasse essa regra com seriedade.

O salão preparado para o trabalho ficava nos fundos da casa, onde antes devia ter havido uma sala de música ou de festas pequenas. As cortinas estavam fechadas, os aparelhos de umidade trabalhavam com ruído baixo, e cinco telas permaneciam cobertas por panos crus sobre cavaletes alinhados. Lívia largou a mala perto da parede e se aproximou da primeira pintura com a cautela de quem entra no quarto de um doente. Raul retirou a proteção sem cerimônia. A imagem mostrava uma mulher sentada junto a uma escada de madeira, vestida de azul escuro, com uma das mãos repousando no ventre. O rosto, porém, fora raspado com violência antiga, deixando no lugar uma mancha clara e irregular. Lívia sentiu vontade de tocar a falha, só para entender a força empregada ali. Raul ficou perto demais, o calor do corpo dele alcançando o ombro dela antes de qualquer palavra. Ele cheirava a sabonete amargo, chuva seca na roupa e alguma coisa de bebida esquecida no fundo de um copo.

Ela pediu que ele se afastasse um pouco e não soube se a voz saiu firme o bastante. Raul obedeceu, embora o silêncio dele continuasse colado ao serviço. Lívia calçou luvas, abriu a maleta, testou a luz rasante e passou longos minutos examinando bordas, rachaduras, vernizes escurecidos e marcas de limpeza anterior. A tela tinha sido atacada duas vezes, primeiro com instrumento duro no rosto da mulher, depois com tinta diluída sobre a parte inferior da escada. O segundo ataque interessou mais. Era cuidadoso demais para raiva, leve demais para censura total, e por isso parecia feito para esconder sem destruir. Lívia umedeceu a ponta de algodão na mistura correta e retirou uma faixa mínima do verniz antigo. A primeira letra apareceu torta, castanha, quase confundida com a sombra do degrau. Depois veio outra, e outra. Quando a frase enfim se formou, ela precisou soltar o ar devagar. Ela não caiu da escada.

Raul não estava mais no salão. A porta pela qual ele saíra permanecia encostada, e a casa, que de fora parecera enorme, de repente ficou estreita ao redor dela. Lívia fotografou a frase com a câmera técnica fornecida pelo contrato e anotou a descoberta no relatório interno, usando palavras secas para impedir que a mão tremesse. O celular pessoal vibrava dentro da bolsa, proibido ali dentro, insistente. Ela resistiu por quase um minuto antes de olhar. Tadeu mandara duas mensagens. Na primeira, perguntava se ela gostara da casa. Na segunda, mandava tomar cuidado com homens que pagavam adiantado. O peito dela fechou. Ninguém fora informado sobre a proposta, nem sobre o endereço, nem sobre o horário de chegada. Quando ergueu os olhos, viu no reflexo escuro da janela a própria figura curvada sobre a mesa e, atrás dela, uma sombra parada junto à porta.

Raul entrou sem pressa, porém o rosto dele já não tinha a mesma calma da biblioteca. Ele olhou para o trecho limpo, leu a frase e ficou pálido de um jeito que dinheiro nenhum disfarçava. A mão dele fechou no pulso de Lívia antes que ela tocasse no relatório. O gesto foi rápido, firme, quente. Ela poderia ter puxado o braço, poderia ter gritado, poderia ter lembrado todas as cláusulas que acabara de aceitar. Permaneceu imóvel por um segundo comprido, irritada consigo mesma por sentir primeiro o contato e só depois o perigo. Raul soltou o pulso ao perceber a pressão dos próprios dedos. Pediu desculpa com voz baixa, quase áspera. Lívia perguntou quem era a mulher do quadro. Ele respondeu que essa pergunta custaria caro demais para os dois. Ela quis rir da frase, achou que seria melhor levantar a mala e ir embora, e mesmo assim ficou olhando para a parte da pele dele onde a manga dobrada mostrava uma cicatriz fina, antiga, cortando o antebraço.

O telefone da casa tocou uma única vez, interrompendo a resposta que ele não dera. Raul atendeu no aparelho preso à parede do salão, sem tirar os olhos de Lívia. Ouviu por alguns segundos, disse apenas que a restauradora tinha chegado cansada e desligou. O modo como ele pronunciou restauradora deixou claro que havia alguém do outro lado interessado nela, não nas telas. Depois disso, Raul cobriu o quadro com cuidado exagerado e pediu que ela deixasse o relatório aberto somente no terminal da sala. Lívia recusou. Disse que aceitara um serviço, não um confinamento. Ele respirou fundo, aproximou-se o bastante para que ela visse pequenas gotas de chuva ainda presas ao cabelo escuro, e falou que a casa tinha ouvido nomes demais durante vinte anos. Se ela quisesse receber o restante do pagamento e sair inteira daquele mês, precisava escolher melhor a hora de descobrir coisas.

Mais tarde, no quarto reservado a ela, Lívia abriu a mala sobre a cama estreita e encontrou um envelope creme que não estava ali quando saíra do ateliê. Dentro havia uma cópia extra do contrato, marcada com fitas adesivas em três páginas. A primeira assinalava a multa em caso de abandono do serviço. A segunda autorizava retenção dos equipamentos até a entrega final. A terceira trazia um anexo que ela não lembrava de ter visto. Era uma declaração de consentimento para permanência integral na propriedade Ferraz, datada do dia anterior, com a assinatura dela no fim. Lívia ficou sentada na beira da cama, segurando a folha contra a luz do abajur. A letra copiava seus movimentos com precisão quase ofensiva, inclusive a pequena falha no S que ela fazia desde a faculdade. Do corredor veio o som de passos parando diante da porta. Alguém deixou uma chave cair no tapete, aguardou um instante e foi embora.

Contrato de Pele

Sinopse

Lívia Sardenberg restaura telas antigas em um ateliê pequeno e deve dinheiro a pessoas que não esperam boleto vencer. Quando recebe a proposta de restaurar cinco quadros na mansão de Raul Ferraz, um colecionador jovem, rico e cercado de rumores, aceita as regras sem ler com a calma necessária. Durante trinta dias, ela deve morar na casa, trabalhar à noite e não perguntar por que todos os retratos têm o rosto da mesma mulher apagado. Raul exige distância e controle, mas passa a aparecer no ateliê improvisado sempre que Lívia toca a primeira tela. Entre jantares silenciosos, portas trancadas, desejo crescente e um contrato que alguém usa para vigiá-la, Lívia descobre que os quadros escondem a prova de uma herança roubada. Para sair viva da mansão, ela terá de decidir se Raul é carcereiro, cúmplice ou o único homem disposto a perder tudo para quebrar o pacto da própria família.

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