Universo da obra
Universo da obra
Helena Duarte recebeu a chave do apartamento 704 dentro de um envelope pardo, sem logotipo, sem recibo e sem a menor tentativa de tornar a transação respeitável. O corretor não subiu com ela. Ficou na portaria do Edifício São Teodoro olhando para o próprio celular, repetindo que o aluguel baixo era cortesia da proprietária, que o prédio era seguro, que boato antigo não constava em contrato e que, se o elevador parasse no sétimo andar, bastava apertar térreo duas vezes. Helena ouviu tudo com a atenção de quem já tinha decidido entrar antes de saber o preço. A irmã desaparecera naquele prédio seis anos antes. Lívia tinha vinte e quatro anos, uma bolsa vermelha, um namoro escondido e o hábito irritante de mandar áudio comprido às duas da manhã. O último áudio terminava com a frase mais estúpida e mais útil que Helena carregava desde então. Não abre a porta se baterem de dentro da parede.
O São Teodoro era bonito de um jeito cansado, com mármore manchado, lustre grande demais para a conta de luz atual e espelhos que devolviam rostos ligeiramente piores. Na portaria, um ventilador fazia mais barulho que vento. O porteiro da tarde, seu Amâncio, pediu documento, olhou o sobrenome dela e fingiu que a mão não tremera ao copiar o número. Helena estava acostumada a esse tipo de delicadeza criminosa. Desde o desaparecimento de Lívia, toda pessoa ligada ao prédio usava cuidado excessivo, voz baixa e frases que terminavam antes do ponto certo. Ela assinou o livro de entrada com calma. Disse que passaria trinta dias no apartamento. Seu Amâncio perguntou se era reforma. Helena respondeu que era inventário. A palavra deixou o homem mais pálido. Naquele prédio, qualquer coisa com aparência de lista parecia ameaça.
O elevador abriu com um atraso educado. Por dentro, cheirava a madeira úmida, perfume antigo e produto de limpeza barato. Helena apertou o sete, apesar de o apartamento estar anunciado no oitavo pavimento, porque o corretor dissera que a numeração era antiga, meio confusa, coisa de construtora familiar. A porta fechou devagar. No espelho fosco, ela viu a própria imagem com mala pequena, cabelo preso sem capricho e a pasta preta onde guardava cópias de boletins, fotos, extratos, e-mails, registros de câmera e cada mentira que alguém já contara sobre Lívia. O elevador subiu tremendo. Parou no terceiro. Depois no quinto. No sexto, a luz piscou. No sétimo, as portas abriram para um corredor vazio, estreito, com carpete vinho e cheiro de chuva presa. Helena não apertou botão algum. O elevador, obedecendo a outra pessoa ou a outra memória, esperou.
A primeira coisa que ela viu foi a porta 704. Estava no fim do corredor, sozinha, embora a planta do prédio mostrasse quatro apartamentos por andar. A madeira escura tinha riscos perto da fechadura e uma marca redonda na altura do olho mágico, igual a queimadura antiga. Helena saiu do elevador antes de pensar em prudência, porque prudência lhe dera seis anos de silêncio e pastas organizadas. A chave do envelope entrou na fechadura com facilidade. Virou uma vez. Depois outra. Do lado de dentro, alguma coisa respondeu com um clique atrasado. O apartamento abriu para uma sala escura, coberta por lençóis em móveis que a imobiliária jurara ter retirado. Havia poeira no chão, uma mesa junto à janela e um copo com água pela metade. A água parecia limpa. Essa foi a parte que fez Helena sentir frio nos dedos.
Ela acendeu a luz pelo interruptor da entrada. Nada aconteceu. Usou a lanterna do celular e viu paredes altas, papel floral desbotado, retratos virados para baixo sobre uma estante e uma rachadura vertical perto do rodapé. O lugar tinha sido fechado com pressa ou preparado para parecer fechado com pressa. Helena conhecia encenação. Trabalhava com recuperação de patrimônio, achava dinheiro escondido em empresa falida, lia nota fiscal falsa com mais intimidade que carta de amor. Aquele apartamento tinha método. No centro da sala, sobre a mesa, havia uma caixa de sapato amarrada com fita azul. Em cima da caixa, um bilhete escrito em letra que ela reconheceu antes de aceitar. Helena, se você veio, ele deixou você entrar. A assinatura não dizia Lívia. Dizia apenas L, do jeito torto que a irmã usava quando queria irritá-la.
O som veio da parede antes que Helena tocasse na caixa. Três batidas curtas, uma pausa, duas batidas longas. A mesma sequência gravada no último áudio de Lívia, escondida sob chiado, descoberta por Helena depois de ouvir a mensagem tantas vezes que decorou até o barulho da respiração. Ela recuou, a lanterna tremendo pouco, e encostou a pasta contra o peito. Do corredor veio outro ruído, passos firmes, próximos, sem pressa. Um homem apareceu na porta aberta do 704 usando camisa branca, mangas dobradas e uma expressão de cansaço treinado. Tinha olhos escuros, barba curta e uma chave mestra presa a um cordão. Helena reconheceu Tomás Alencar pelas fotos antigas do processo, embora ele estivesse mais magro e menos jovem que no depoimento. O antigo policial que encontrara a bolsa vermelha de Lívia no poço do elevador agora era síndico do São Teodoro.
Tomás olhou para o bilhete na mesa, para a parede, para Helena, e não perguntou quem ela era. Aquela ausência de pergunta confirmou a pior suspeita. Ele disse que ela não deveria ter vindo sozinha. Helena respondeu que convite para armadilha raramente permitia acompanhante. A boca dele quase sorriu, porém o resto do rosto continuou atento demais. Ele entrou sem pedir licença, fechou a porta e girou a chave mestra. O gesto a irritou de imediato. Ela perguntou se estava sendo trancada. Ele disse que estava impedindo o corredor de ouvir. A frase seria ridícula em qualquer lugar que não tivesse acabado de bater por dentro da parede. Helena exigiu saber o que havia no apartamento. Tomás ficou olhando para a rachadura perto do rodapé e disse que, no São Teodoro, algumas portas abriam para datas erradas. Depois alguém bateu de novo, desta vez do lado de dentro do armário da sala.
Helena não gritou. Tinha prometido a si mesma, durante seis anos, que quando o medo enfim ganhasse forma ela não desperdiçaria o momento fazendo barulho. Caminhou até o armário antes que Tomás a segurasse. A madeira estava fria. A maçaneta girou sozinha sob seus dedos, não para abrir, e sim para travar. De dentro, uma voz feminina sussurrou seu nome com a intimidade cruel de quem havia dividido quarto, roupa, culpa e infância. Tomás murmurou que aquilo imitava o que a pessoa mais queria ouvir. Helena fechou os olhos por um instante. Quando abriu, viu por baixo da porta do armário uma tira de papel sendo empurrada para fora. A letra era de Lívia. A mensagem tinha só uma linha. Ele ainda mora no 704.
Helena Duarte aceita morar por um mês no apartamento 704 para investigar o desaparecimento da irmã, ocorrido no mesmo prédio anos antes. O aluguel barato demais, os vizinhos que mentem por educação e o síndico Tomás Alencar, bonito e impossível de ler, transformam a busca em uma armadilha. Toda madrugada o elevador para no sétimo andar, alguém bate por dentro das paredes, e Helena descobre que o prédio inteiro aprendeu a esconder uma mulher que talvez ainda esteja viva.
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